Por que Shuri, irmã brilhante do Pantera Negra, é a mais promissora personagem da Marvel dos últimos tempos

shuri

Com o início da Era de Thanos em Vingadores: Guerra Infinita, e com o universo inteiro mergulhado em caos de forma nunca vista, é bom saber que Pantera Negra introduziu pelo menos uma arma secreta que talvez possa vir a salvar o dia. 

Pantera Negra revelou a existência de um novo mundo, de forma que nenhum filme de super-heróis jamais sonhou fazer: a verdadeira nação africana ficcional de Wakanda, que se ocultava sob o disfarce de uma terra pouco habitada por gerações, mas na verdade era uma utopia secreta repleta de vibranium e maravilhas tecnológicas além da imaginação até mesmo dos deuses Asgardianos. E qual a melhor parte disso tudo? A mente brilhante por trás das assustadoras inovações tecnológicas de Wakanda é ninguém menos do que uma adolescente atrevida pra caramba.

A irmã de 16 anos de idade do Rei T’Challa, Shuri (interpretada de forma maravilhosa por Letitia Wright) possui uma espécie de energia quase tão contagiante quanto seu sorriso. Seu jeito “irritante” é a única coisa capaz de quebrar o jeito sóbrio de seu irmão – uma espécie de habilidade comum a irmãs mais novas – e ela ainda revelou ser a mente brilhante por trás de cada invenção incrível que Pantera Negra jogou sobre nós até agora. Se T’Challa e Nakia (sua ex-namorada e atual espiã) são como os “James Bonds” de Wakanda – e eles são, de acordo com o diretor do filme – Shuri por sua vez é a Q deles, dirigindo-os ao sucesso com seu jeito sagaz e pensamento rápido.

Eu achei que seria realmente interessante ver uma jovem adolescente africana manipular [vibranium] de formas que ninguém mais conseguiria.” – afirmou Ryan Coogler em entrevista recente – “e [devia ser] alguém confiante e capaz de ter seu próprio espaço”.

Algo ainda mais notável é o fato de Shuri não ver nenhuma razão para ser humilde quanto ao seu brilhantismo – e sejamos honestos, ela deveria? Sua base com tecnologia superavançada faz o laboratório de Tony Stark, ainda que lotado de gadgets, parecer uma caixa de legos velhos. E é exatamente por isso que Shuri é mais do que apenas uma parte interessante de Pantera Negra ou a princesa Disney que estávamos procurando. Com o Universo Cinematográfico Marvel introduzindo uma nova geração de super-heróis em sua Fase 3 – que também inclui as estreias da Vespa e do Doutor Estranho, o reboot do Homem-Aranha e claro, o filme solo da Capitã Marvel – e com a revelação de Wakanda para o mundo, não há mais motivos para que uma garota negra genial, cheia de truques na manga não possa assumir o papel de sua mais brilhante embaixadora.

SPOILERS ABAIXO

As invenções de Shuri colocam especialistas mais velhos e experientes do Universo Marvel no chinelo.

O centro do brilho de Shuri é a sua capacidade de manipular o vibranium – precioso metal extraterrestre, componente de toda a estrutura de Wakanda – transformando-o em diversas invenções que mantém o país no topo do mundo, saibam disso os outros países ou não.

Ela desenvolveu um sistema de pilotagem remota que permite a sua participação em qualquer missão, em qualquer lugar do mundo. Ela é a responsável pelo desenvolvimento dos calçados silenciosos de T’Challa e do traje de Pantera Negra, que se espalha pelo seu corpo partindo do colar de presas. Ela coletou a energia do vibranium para aperfeiçoar o sistema de transporte público do país, tornando-o tão rápido e eficiente que você pode mal pode acompanhar com os olhos. Mas ainda que a Wakanda de Pantera Negra seja um mundo em que as mulheres negras são parte vital da sociedade e que possam ascender a qualquer posição de prestígio, Shuri ainda acaba recebendo sua parcela de ceticismo dos homens ao seu redor. Quando M’Baku, líder da tribo da montanha, desafia T’Challa pelo trono, por exemplo, uma de suas maiores críticas sobre a organização do país é o fato de que “os maiores tesouros de Wakanda foram confiados a uma criança”.

Quando o agente Everett, da CIA, acorda em Wakanda após tomar um tiro na espinha, ele mal pode acreditar que esteja vivo. E sejamos honestos, com pouco conhecimento médico podemos entender que ele realmente não estaria. Mas quando ele exclama para Shuri que sua recuperação tinha de ser algo mágico, ela não consegue deixar de virar os olhos para trás.

“Mágica não. Tecnologia.” – ela responde.

Para ela, isolar o ferimento de Everett foi algo extremamente fácil. De fato, ela inclusive chega a falar que “consertar outro garoto branco vai ser divertido”, ao receber Everett em seu laboratório. E sim, outro garoto branco, porque como vemos na segunda cena extra pós-créditos do filme, Shuri também fez sua “mágica” – desculpem pela piada – em uma figura que pisou em uma das maiores mentes do Universo Cinematográfico Marvel por anos. Enquanto Tony Stark aplaudia a si mesmo por conseguir fazer seu traje voar mais rápido, Shuri curava Bucky Barnes da lavagem cerebral da Guerra Fria em seu tempo livre.

Ao final de Pantera Negra, T’Challa – ao lado de Shuri e outras mulheres marcantes de sua vida – informa aos membros das Nações Unidas que Wakanda deseja compartilhar algumas de suas descobertas com o objetivo de tornar o mundo um lugar melhor e mais seguro. Ele havia comprado diversos terrenos em Oakland, California, para operar o primeiro posto humanitário fora de Wakanda, com a tecnologia de Shuri tomando a frente.

A combinação de Shuri assumindo esse papel e curando Bucky, quando literalmente ninguém mais conseguira, a coloca em posição para ser uma das maiores promessas do Universo Cinematográfico Marvel – especialmente sabendo que Guerra Infinita desestabilizou definitivamente o status quo dos Super-Heróis, algo inédito até então.

Por anos, assistimos aos gênios da Marvel perdendo controle sobre suas criações, causando catástrofes. Shuri pode mudar isso.

Uma das poucas coisas que não mudou no Universo Cinematográfico Marvel é que o “mago da tecnologia” Tony Stark (Homem de Ferro) e o cientista torturado Bruce Banner (Hulk) são duas das pessoas mais inteligentes do mundo e que ninguém espera atingir o seu nível de intelectualidade. Quando o público conheceu Tony em 2008, ele já tinha construído um império valendo bilhões de dólares com suas ideias e continuava desenvolvendo e aperfeiçoando armas para proteger o que ele considerava “o bem maior”.

Basicamente, se alguém nesse universo tivesse um problema para ser solucionado com tecnologia, o instinto natural era procurar Tony ou Bruce. Se eles não pudessem consertar, a lógica é que você estava ferrado até que seus inimigos (com alguma sorte) fizessem besteira. Mas se você já assistiu qualquer filme da Marvel em que Tony Stark aparece, você já deve também ter percebido o furo desse plano: Tony pode ser brilhante, mas ele é absolutamente problemático. Ele, cabeça da Stark Industries, foi pego de surpresa pelo fato de sua tecnologia ser utilizada para armar o mundo. Quase todos os trajes de Homem de Ferro que ele criou acabou se virando contra ele, algumas vezes de forma literal. Os experimentos de Tony e Bruce com inteligência artificial acabaram criando Ultron, um ciborgue superpoderoso que absorveu as criações dos dois cientistas e tudo aquilo que haviam criado em busca da “paz mundial” e quase destruiu o mundo.

Esse tipo de gênio agressivo, mas bem-intencionado, foi repetidamente utilizado de forma errada no Universo Cinematográfico Marvel. Enquanto Bruce sofre o conflito interno e possui autocrítica acerca das consequências de suas ações, Tony possui uma tendência a acreditar que apenas sabe mais do que todo mundo, ainda que existam evidências apontando o contrário.

Mas Pantera Negra revela um tipo diferente e muito mais promissor de caracterização de gênio heroico. Enquanto os Vingadores exploram o globo buscando melhorar seus supertrajes, com o objetivo de enfrentar inimigos mais perigosos, a jovem Shuri silenciosamente liderava Wakanda em direção a um futuro tecnológico. Um futuro que de forma precisa consegue ver uma forma de avançar com proteção, não destruição.

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De fato, a arma mais poderosa que Shuri criou no filme é essencialmente um escudo construído no traje de Pantera Negra, capaz de absorver golpes na forma de energia cinética, devolvendo ao inimigo de forma inesperada. Muitas das armas baseadas em vibranium que vemos são antigas, forjadas em fornos removidos há muito do laboratório hoje comandado por Shuri. Quando ela finalmente utiliza um par de manoplas explosivas, já estamos no final do filme e elas são o último recurso.

Quando a vontade de Killmonger em cometer um golpe global é revelada, as criações de Shuri poderiam se tornar armas poderosas nas mãos das pessoas erradas. Mas quando ela revela que seu ethos é “só porque algo funciona não quer dizer que não pode ser melhorado”, ela não está falando sobre criar canhões mais poderosos para colocar medo no coração dos inimigos. Ela está falando sobre inovações que podem melhorar diretamente a vida dos outros – uma lição que Tony Stark costuma não absorver até que exploda literalmente na sua cara.

Ao final do filme, T’Challa decide que Wakanda tem acumulado seu conhecimento e que essa não é a melhor forma de progresso – além disso, ele percebe que é necessária uma mente tão afiada quanto passional quanto a de sua irmã para garantir que esses recursos sejam utilizados da forma correta em escala global. Se a Marvel sabe o que é bom para ela mesma, fará o mesmo que nós, reconhecendo que Shuri é – assim como o Pantera Negra – o tipo de mudança que a próxima evolução da história realmente necessita.


Traduzido e adaptado da Vox.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).