O estereótipo do personagem marginalizado revoltado nas séries sobrenaturais precisa acabar

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Quando raça e magia se misturam, por que a magia apaga as realidades raciais?

*** O texto a seguir possui spoilers da série O Mundo Sombrio de Sabrina ***

Uma das melhores personagens de O Mundo Sombrio de Sabrina é Prudence, interpretada pela maravilhosa Tati Gabirelle, que construiu sua personagem com base em Eartha Kitt, trazendo um senso de graciosidade e sofisticação a uma personagem que é jovem em aparência, mas que na verdade é uma bruxa de 75 anos de idade.

Enquanto a personagem vai se desenvolvendo durante a temporada, um elemento um tanto frustrante foi a forma como a personagem agia de forma preconceituosa em relação a Sabrina. Prudence chama Sabrina de mestiça constantemente e é sua principal atormentadora durante a primeira metade da temporada. Esse é um tropo frustrante que acontece frequentemente em séries sobrenaturais: a utilização de ofensas e termos “racistas” para descrever personagens brancas, utilizando personagens negros como agressores.

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Imagem: HBO

Na primeira temporada de True Blood, as duas principais características de Tara eram ser nervosa e arrogante (uppity), termo que ela utiliza para se referir a si mesma durante sua apresentação. A expressão pode perder um pouco de sentido em português, mas o termo “uppity” era utilizado por pessoas brancas para se referir a negros que se sentiam em posição de igualdade com os brancos. True Blood na verdade acaba se apropriando constantemente de linguagens utilizadas pelos ativistas LGBT ou de direitos das minorias, fazendo com que os seus vampiros brancos fiquem brincando com isso. Coisas como “God hates Fangs” (referência a God Hates Fags), ou quando Bill afirma que os vampiros protegerão seus direitos por “todos os meios necessários”, em referência a Malcolm X, são bons exemplos.

Essas narrativas constantemente apagam o fato de que estão colocando essas metáforas sobre pessoas oprimidas em relação a criaturas que são de fato perigosas, relativizando a questão do racismo real. Enquanto isso, essas mesmas séries abusam em suas histórias de personagens LGBT, também relativizando as realidades de racismo e homofobia que eles vivem.

Em True Blood, Tara nunca foi defensora dos vampiros enquanto humana, e quando expressou esse sentimento, Sookie a chamou de racista. A Delegada Jones, no momento em que Bill foi sequestrado, não acreditou que fosse verdade por ser racista contra vampiros, e ela é uma mulher negra. Sempre que Tara aborda questões raciais ou é atacada por questões do tipo – isso raramente é contestado – ou pior, é algo usado como alívio cômico. Suas frustrações não são levadas a sério, e ela é constantemente criticada por personagens como Pam (que acaba se tornando seu interesse romântico em certo ponto).

Um exemplo disso acontece quando uma garota da antiga escola de Tara começa a fazer comentários racistas contra ela, chamando de arrogante (uppity) e preguiçosa. Tara (que havia acabado de se tornar uma vampira) responde com violência, antes de ser parada por Pam, que também alerta Tara para que não seja arrogante (uppity) com ela. Ao final do episódio, é revelado que Pam estava apenas fazendo um jogo, e ela sequestra a garota racista para que Tara possa torturá-la. Pam convence a mulher a viver apenas para servir a Tara.

É um jogo de enganação, mas que funciona sob os mesmos princípios. Ataques contra Tara por quase todo o episódio, para que ela seja recompensada no final. Nada disso apaga o fato de que sua negritude e sua raiva não recebem qualquer tipo de simpatia em nenhum momento.

Essa mesma mentalidade está presente na segunda temporada de Jessica Jones, em que a policial negra é intolerante com relação a Jessica, mas o racismo não é discutido em momento nenhum. Quando raça e magia se misturam, normalmente a magia apaga as realidades raciais.

O que é mais chocante em O Mundo Sombrio de Sabrina é o mesmo elemento que torna confuso o “racismo fantástico” da saga Harry Potter. Não é uma coincidência o fato de uma personagem negra de pele clara, Prudence, chame uma garota branca de “mestiça” por ser meio-humana e meio-bruxa. No entanto, a pergunta que fica é a seguinte: será que não existe discriminação racial na Igreja da Noite? Porque claramente existe o machismo, e mesmo o Senhor das Trevas é apresentado como um demônio invejoso que quer controlar as mulheres.

A instituição da Igreja da Noite tem claras referências à igreja anglicana, e apesar de os produtores não terem problema algum em utilizar a criatura Filipina conhecida como Batibat, a série acaba tendo uma estética clássica de bruxaria exclusivamente ocidental. Isso pode ser parte do estilo da obra, mas se ao mesmo tempo você começa a colocar ofensas raciais nos lábios de mulheres negras, que são velhas o suficiente para ter vivido em épocas de discriminação racial, você também deveria explorar de forma mais aberta a magia oriental.

Por exemplo, Roz na série descobre que sua família foi amaldiçoada por bruxas no início da era Colonial Americana em Greendale, depois de um dos seus ancestrais acusar publicamente uma delas de ser uma bruxa. Ouvindo essa história, é claro que se trata de uma referência a Tituba, e também à realidade da escravidão em áreas como a de Greendale.

Isso leva a uma série de perguntas sobre bruxas, Satan e escravidão que eu tenho certeza que eles não querem abordar, mas aí retornamos ao uso casual de linchamento e de expressões racistas por Prudence, o que a coloca especificamente como uma agressora.

Em entrevista concedida à Vulture, a atriz fez comparações sobre as bruxas e a escravidão:

Prudence tem esse ódio contra Sabrina pelo fato de ela ser meio mortal. Isso vai contra tudo que Prudence cresceu acreditando, e a discriminação que os mortais têm contra as bruxas por séculos ressoa profundamente com Prudence. É algo que ela tem em seu coração, da mesma forma que eu, como afro-americana, possuo uma relação muito próxima com a escravidão e com a forma como os afro-americanos têm sido tratados durante a história.

E isso seria muito interessante se nós, como público, fossemos compelidos a entender e relacionar essa dor e trauma históricos apresentados pela série. Mas não somos. Isso porque Sabrina quer proteger Harvey, que é descendente de caçadores de bruxas e a série adota a ideia de que aquela raiva é injusta. E também porque a escravidão existiu naquele período, mas Prudence tem muito mais laços com sua identidade como bruxa do que como mulher negra.

Imagem: Annette Brown/The CW

Imagem: Annette Brown/The CW

O cruzamento entre magia e escravidão é algo que também aparece em Vampire Diaries com Bonnie Bennett, que é descendente de uma criada negra (cof, cof, escravidão), que era bruxa sob o comando da vampira Katherine Pierce. Por toda a história de Bonnie, nós a vemos ser colocada em uma caixinha mágica para negros, de onde ela só sai para salvar seus amigos brancos. Sua desconfiança em relação aos vampiros a marcam sob a pecha de “hipócrita”, mesmo que 90% dos vampiros que existam sejam puro lixo. Quando Caroline é transformada e começa a se alimentar de pessoas negras, a série tenta nos fazer ver a rejeição de Bonnie por sua amiga como cruel, e não a entender que ela está com medo dessa pessoa que agora se alimenta de sangue humano.

A magia de Bonnie é também muito ocidental para uma personagem descendente de bruxas negras. Não estamos pedindo que ela faça vudu, mas existem tantas formas diferentes de magia na cultura negra, que poderíamos ter algo diferente dependendo da região de origem de sua família.

No final de Vampire Diaries, Bonnie salva Mystic Falls usando os poderes não apenas dela, mas de todas as bruxas Bennett que a antecederam. É uma cena emotiva, que traz de volta vários dos membros da família de Bonnie que haviam sido mencionados na série, mas também nos lembra como sabemos pouquíssimo sobre o seu legado como bruxa.

Bruxas negras raramente recebem amor, como um artigo da Vulture ano passado já mencionou:

A falta de poderosas bruxas negras nos filmes e televisão é um sintoma de um problema maior que existe na América desde o seu surgimento: o medo da autonomia e das façanhas alcançadas por mulheres negras.

Prudence é maravilhosa, e esperamos que ela como personagem, assim como Roz e Agatha, venham a ter algum desenvolvimento. Nós temos uma novíssima oportunidade de destacar mulheres etnicamente diversas na magia, mas até agora Prudence é apenas a amarga antagonista, Agatha a traidora sorrateira e Roz só entrou no jogo no final da história. Esperamos que a segunda temporada abra o mundo da magia para muito além da Igreja da Noite.


Texto traduzido do TheMarySue.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).