Entenda o papel da mulher no mundo dos Games!

capa1 feminismo e games

Se você se deu ao trabalho de vir até aqui, a primeira coisa que quero que saiba é: Esse post é meramente uma opinião da autora, construída de forma discursiva, baseada em vários artigos, estudos e análises relativos ao assunto em questão. A intenção é de que seja um post esclarecedor e crítico. Não existem regras aqui. Meu objetivo não é fazer que você pense como eu, apenas que você pense. Permita-me mostrar-lhe um outro lado da moeda.

É fato indiscutível e regra de ouro da vida que, para criticar algo, você tenha previamente o entendimento do que aquilo é, como funciona, qual sua influência na sociedade e assim por diante. Apenas conhecendo os prós e contras de um determinado assunto é possível ter uma visão mais completa e complexa da fôrma do assunto e, consequentemente, uma opinião que não pode ser ignorada mesmo por quem não concorda com ela (desde que expressa de forma apropriada e educada). Sabe aquela máxima da sua mãe: “Como você sabe se é ruim se você nunca provou”? É algo comicamente semelhante. Vai então a dica: se não souber o significado de uma palavra durante uma discussão, pesquise-a primeiro. Não use-a achando que sabe o que ela significa só porque seu amigo usou também ou qualquer coisa parecida. Procure mais informações no Google, em artigos, em livros. Não se deixe alienar.

“Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o.” (Buda)

A princípio e o mais importante: O que é o feminismo?

emblema feministaFeminismo é um movimento social, filosófico e político que tem como meta direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana, por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões opressores baseados em normas de gênero. Envolve diversos movimentos, teorias e filosofias, advogando pela igualdade entre homens e mulheres, além de envolver a campanha pelos direitos das mulheres e seus interesses.

É isso. Sim, cara. É isso. Feminismo não prega ódio, feminismo não prega a dominação das mulheres sobre os homens. Feminismo clama por igualdade, pelo fim da dominação de um gênero sobre outro. Feminismo não é o contrário de machismo. Machismo é um sistema de dominação. Feminismo é uma luta por direitos iguais.

Na verdade, como explica Aline Valek – blogueira do Escritório Feminista, há várias correntes dentro do feminismo, com pensamentos e posicionamentos distintos. E como ela afirma, eu reafirmo: EU não posso falar por todas as feministas. Somos um movimento diverso e em constante construção. Infelizmente, temos pessoas que não souberam interpretar o real significado e finalidade do movimento e o distorceram.  Também temos as feministas extremistas, da mesma forma como existem extremos em qualquer outro movimento no mundo. No entanto, eu posso, ao menos, falar sobre o feminismo que tento construir diariamente, baseado em tudo que já ouvi, aprendi e continuo aprendendo com tantas feministas que admiro muito.

Ainda segundo Valek, as ideias principais do feminismo são coisas como: Mulheres são pessoas. Portanto, merecem direitos iguais; Mulheres não devem ser discriminadas no mercado de trabalho e suas oportunidades não devem ser limitadas aos papéis de gênero que a sociedade impõe sobre elas; Nenhuma mulher é uma propriedade. Nenhum homem tem o direito de agredir fisicamente ou verbalmente uma mulher, ou ainda determinar o que ela pode ou não fazer; O corpo da mulher é de direito somente da mulher. A ela cabe viver a sua sexualidade como bem entender, decidir como vai dispor de seu corpo e da sua imagem, com quem ou como vai se relacionar; Mulheres não são produtos. Não podem ser tratadas como mercadoria, isca para atrair homens, moeda de troca ou prêmio; Papéis de gênero são construções sociais e não verdades naturais e universais. Nenhum papel de gênero deve limitar as pessoas, homens ou mulheres, ou ainda permitir que um gênero sofra mais violência, seja mais discriminado, tenha menos direitos e considerado menos gente; Mulher não “tem que” nada, se não quiser. Isso vale para ser “amável” ou falar palavrão, fazer sexo ou não fazer, se depilar ou não depilar, usar cabelo grande ou curto, “encontrar um homem” ou ficar solteira, sair com vários caras ou preferir mulheres, ter filhos ou não ter, gostar de maquiagem ou não (e por aí vai em todas as regras que cagam ou possam vir a cagar sobre nossas vidas).

Isso pode ser igualmente aplicado aos homens, obviamente. A questão é que isso, histórica e socialmente falando, não é aplicado de forma igualitária. Daí a justificativa para o surgimento de movimentos como o feminismo.

Dependendo do momento histórico e da cultura do país, as feministas de todo o mundo tiveram diferentes causas e objetivos. A maioria dos historiadores feministas ocidentais afirmam que todos os movimentos que trabalham para obter os direitos das mulheres devem ser considerados feministas, mesmo quando eles não apliquem o termo a si mesmos.

Como explica a Clara Averbuk, escritora feminista e blogueira no site Lugar de Mulher,  feminismo não tem nada a ver com deixar de usar batom, salto ou dar de quatro. Ninguém vai confiscar sua carteirinha de feminista se você usar rímel. Mas te abre para a possibilidade de só usar maquiagem quando quiser, não porque tem que obrigatoriamente estar impecável e linda todos os dias a enfeitar o mundo. Feminismo não tem nada a ver com ser inimiga dos homens. É claro que existem feministas misândricas, mas você não é obrigada a ser uma delas (e nem diria que é positivo ser uma delas). Feminismo não tem nada a ver com não ser feminina. E nem com ser. Feminismo tem a ver com liberdade, com eu, você, elas e eles podermos todos viver e ser sem ninguém dando pitaco em como devemos nos portar, como devemos nos vestir, o que devemos dizer, do que devemos fazer com nossos corpos. Por isso, tentarei apenas me posicionar aqui como uma pesquisadora, alguém que procura respostas. Apenas deixarei as perguntas aqui e a reflexão fica por conta e risco de vocês. Só espero ajudar no processo da conscientização.

Primeiramente, deixarei aqui um teste simples a título de curiosidade pra saber se você é ou não feminista. :p

1. Você concorda que uma mulher deve receber o mesmo valor que um homem para realizar o mesmo trabalho?
2. Você concorda que mulheres devem ter direito a votarem e serem votadas?
3. Você concorda que mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha da profissão, e que essa decisão não pode ser imposta pelo Estado, pela escola nem pela família?
4. Você concorda que mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens?
5. Você concorda que cuidar das crianças seja uma obrigação de ambos os pais?
6. você concorda que mulheres devem ter autonomia para gerir seu dinheiro e seus bens?
7. Você concorda que mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães?
8. Você concorda que uma mulher não pode sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou a obedecer ao pai ou marido?
9. Você concorda que atividades domésticas são de responsabilidade dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres?
10. Você concorda que mulheres não podem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em um relacionamento afetivo?

Como disse a autora desse teste: Todos os itens acima referem-se a direitos que historicamente foram negados às mulheres (e alguns ainda o são). Cada resposta “sim” significa assumir um ponto de vista feminista. Se você respondeu sim para pelo menos a maioria deles… Bem-vindo/a à turma! Você é feminista! WOW! E aí? Tá doendo? Caiu alguma coisa?

Mas enfim, a ideia principal entre os ideias feministas que tratarei neste post é a seguinte: A representação da mulher na mídia não pode nos reduzir a estereótipos que nos desumanizam e ajudam a nos oprimir.

A polêmica do assunto no blog das Garotas Geeks foi levantada pelo post sobre o novo visu da Samus. A equipe então decidiu mostrar melhor o assunto ao público (estamos preparando um podcast dos bons pra vocês sobre o assunto <3 ) e eu estou fazendo a minha parte com algo que considero básico. Educativo.

Um pequeno comentário random à parte: [obvious on] O blog tem uma equipe exclusiva de pessoas do sexo feminino, temos opiniões femininas, tá? <3 [/obvious off] Enfim, foi só pra contextualizar que se é um blog de mulheres, assuntos referentes aos direitos e opiniões de mulheres e como elas são representadas no mundo geek estarão sempre à margem dos posts – mesmo que façamos conteúdos para o público em geral. Mantenham isso em mente, ok?

Sobre o traje da Samus em Super Smash Bros. (e traje de muitas outras personagens mulheres), se pergunte – apenas questione! Será que é só isso mesmo? Será que a forma como os designs de personagens femininos são criados não têm influência de outros pontos? Qual a intenção da sexualização, da erotização ou da sensualização exacerbada da mulher em personagens de games? Seria isso um símbolo de empoderamento feminino ou um produto criado apenas para satisfazer o público masculino heterossexual? Isso parece idealismo ou objetificação para você?

Existem inúmeras matérias e posts em blogs sobre isso internet afora, como esse aqui, por exemplo. Tem até tese de Mestrado sobre o assunto. Muitos desses textos defendem que a objetificação criada a partir do design do personagem beira o ridículo. Temos como exemplo esse Tumblr aqui que troca os papéis de personagens femininas em posições sensuais nos pôsteres de jogos e HQs e lança o questionamento de qual o sentido da sexualização das mulheres assim – o que fica super engraçado com a troca dos gêneros nos desenhos dele. A Aline Valek também é gamer e escreve sobre isso num post super bacana que explica de forma bastante compreensível que isso é, de fato, algo completamente nonsense. Afinal, qual a finalidade de se ter, por exemplo, uma armadura, se ela não cumpre sua função principal que é a proteção do corpo?

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Meme de ilustração do artista LuckyFK (deviantart) que diz: “Estou começando a questionar a minha escolha de vestimenta”

E o problema de que as mulheres tanto reclamam em relação à isso é mais uma pergunta para você se fazer: Esse tipo de personagem faz sentido mesmo ou ela é só mais um acessório masculino? Isso é algo aleatório ou é algo recorrente a ponto de se transformar em um padrão de representação feminina? As personagens são representadas de maneira razoável como os demais personagens masculinos (lógica realista) ou têm hiperlordose lombar, coluna vertebral elástica, ausência de órgãos internos?

Falando nisso, se perguntem também: Sobre as personagens femininas dentro dos jogos que você conhece, já parou para pensar sobre o “padrão inverso”? É, isso mesmo, aquele quando a personagem não é visualmente apelativa, mas ela muitas vezes é como (tomando o provável PRINCIPAL exemplo) a princesa Peach: passiva, fraca e indefesa.

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Sobre esse assunto, a melhor pessoa que encontrei até hoje para explicar isso da melhor maneira possível para vocês é essa mulher:

Anita Sarkeesian e seu material de pesquisa.

Anita Sarkeesian e seu material de pesquisa.

Anita é uma Youtuber e blogueira feminista, dona do site e canal Feminist Frequency, que explica genialmente a representação feminina nos jogos e as consequências dessa representação. Com uma linguagem acessível e argumentos baseados em teoria de comunicação, antropologia e feminismo, Sarkeesian torna clara a manipulação da imagem feminina nas obras de ficção e entretenimento – até como reflexo do patriarcado, que ainda causa discriminação e desigualdade na sociedade.

Quem estiver interessado em entender minimamente o que toda a falação deste post quer dizer, pode ver o vídeo dela, é só ativar a legenda!

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Não é necessário falar muito para concluir que ela conseguiu um número altíssimo de admiradores e haters. Mas que fique claro: a luta de Sarkeesian não é contra os homens – é contra o machismo. A agressividade gerada pelos haters perante os motivos dos vídeos é quase uma comprovação dos efeitos pedagógicos da cultura pop na mente dos que consomem os produtos – como se, de fato, uma história sobre uma princesa que salva a si mesma fosse absurdo demais. As empresas criam universos fictícios gigantescos, com suas próprias sociedades, economias e personagens únicos, mas é raro ver uma garota não ser tratada como ferramenta de enredo.

Qual lado você tomará – admirador, crítico sensato ou hater – depende só de você: da sua consciência e da sua capacidade de usar seu senso crítico a partir de uma opinião bem fundamentada – dos prós e contras, claro.

Para terminar, fiquem com esse vídeo curtinho com um pedido fofo:

Não se esqueçam, amiguinhos: palavras machucam. “O uso indiscriminado de certos termos chulos ou violentos na internet agridem mais do que você pode imaginar. Intenções pouco importam, o que vale é o que, de fato, você disse. Como na internet não dá para ver que você gostaria de colocar a cabeça do outro no colo e falar de forma doce e sorridente que ele é um idiota, o que será entendido é que você chamou o outro de idiota. O que não é pouca coisa. Da mesma forma, que pedir para que alguém “torture” um blogueiro, “mate” um político ou “espanque” uma mulher que teve a coragem de dizer que fez um aborto (ou utilizar de comentários ofensivos calcados no ódio – direcionado para feministas, assim como ameaças de morte e estupro, montagens sarcásticas, desenhos de abuso sexual e etc) não são brincadeiras. Pois se alguém que, ao contrário de você, entenda o real significado das palavras compreender e internalizar a sua mensagem, a história pode não terminar bem. E a culpa também será sua.”, publicou Leonardo Sakamoto, um dos maiores representantes masculinos do feminismo (e, inclusive, muito criticado por homens por causa disso), em um de seus artigos.

Por trás da tela de um computador, existem pessoas com sentimentos. Pessoas que podem se sentir muito melhor se ao invés de você agredi-las quando discordar de suas opiniões, argumentar e discutir civilizadamente. Tente ser, no mínimo, gentil – afinal cada pessoa que você encontra está travando uma batalha que você não faz ideia.

O mundo está cheio de babacas. Não seja mais um.

 

NOTA DA AUTORA:

Graças aos nossos lindchos commenters aqui da página, a Liao também teve a oportunidade de apreciar uma visão do outro lado da moeda! Discutimos a respeito da Anita Sarkeesian, autora da sequência de 3 vídeos acima e por muitos dos comentários serem críticas sensatas, me fizeram ter  a curiosidade de pesquisar mais a respeito. Procurei informações em fóruns, sites de notícias e em vídeos resposta ao vídeo da Sarkeesian, inclusive de mulheres (como esse aqui, que é de uma mulher desenvolvedora de jogos e que explica vários pontos que discorda da Anita – os comentários no vídeo dela também dão ótimos pontos de vista contra e a favor).

Como eu mesma disse no post: é sempre bom procurar uma segunda fonte de pesquisa. E afinal de contas, não é ruim mudar de ideia, ruim é não ter ideia pra mudar.

E é sobre essa minha pesquisa a respeito da Anita e do que ela afirma nos vídeos que quero comentar com vocês bem rapidamente em três pontos:

  1. Nem tudo o que ela diz é verdade! As informações que ela mesma diz sobre ser ou não gamer se atritam e isso pode ter sido o fator número 1 para várias incoerências e inverdades alegadas nos vídeos. Tomando como exemplo, podemos falar do game Hitman: Anita afirma que no jogo os jogadores são levados a matar mulheres na missão do clube de strip e vilipendiar seus corpos mas isso não é verdade. Existe uma punição no jogo para casos de morte de pessoas inocentes ou pessoas que não são seu alvo (no caso de Hitman, até aonde sei, nenhum alvo é feminino) e o caso citado pela Anita é um caso isolado e extremo. Para citação dentro do contexto do vídeo, totalmente indevido, é até dolorido pensar que foi algo manipulado para caber na discussão do assunto. Chegamos então à conclusão de que tem que passar tudo numa peneirinha e pesquisar bonitinho pra saber se tudo condiz com a realidade. Salve, Buda.
  2. A minha opinião sobre o assunto se resume a: Ela é como torta de frango com um osso no meio. Você pega o osso, joga-o fora e come a torta. Se você ainda assim achar que a torta é ruim, jogue fora a torta e compre uma melhor! Bla bla bla. O que quero dizer é que se o que ela diz é incerto ou inverdade, existem várias outras fontes mais confiáveis para este tipo de pesquisa como o grupo The Fine Young Capitalists, por exemplo (sugestão do leitor Tatá de Almeida). Se, infelizmente, a Anita não é o melhor exemplo para colocarmos dentro de um assunto que considero como sério, com certeza existem mais pessoas na internet que respondem à essas questões de forma mais equilibrada e justa.
  3. No entanto, nada justifica, por mais que a Anita esteja errada, o assédio ou a agressão contra ela. Tivemos um post publicado na PCGamer sobre pessoas ameaçando a moça e a família dela de morte e coisas semelhantes. Isso aí já não é legal e é crime, todo mundo em sã consciência sabe disso. Alguém falou o que você não concorda? Prove o contrário ou ignore! Passou disso, Buda is sad. >:

Por fim, concluí que mesmo que o que ela fale tenha algumas verdades, muito do que ela alega no vídeo são afirmações pessoais dela. Se fôssemos contar como uma pesquisa de fato, afirmações assim não contam cientificamente, uma vez que não há provas do que ela fala, não há fontes, apenas informações opinativas.

Então, nas próximas vezes, conseguirei vídeos melhores e mais concretos pra mostrar pra vocês, promessa de mindinho!

Liao send kisses’

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).