Doctor Who aborda com perfeição o silenciamento de mulheres

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Série maravilhosa, protagonista maravilhosa.

Semana após semana, Doctor Who tem sido capaz de misturar um pouco de história e comentários sociais com diversão alienígena – sabe, a proposta original da série. E depois do episódio The Witchfinders, transmitido semana passada, estamos de volta à Terra, e dessa vez os vilões não é uma raça alienígena que quer exterminar a humanidade.

*** ALERTA DE SPOILER ***

Na verdade, o vilão é o Rei Jaime VI da Escócia e I de Inglaterra, também conhecido como o cara que criou sua própria versão da bíblia. O cara que acreditava ser o maior inimigo de Satan liderou a cruzada contra as bruxas em seu território. Ou melhor, matou um monte de mulheres que achava serem bruxas, quando de fato não eram. Em uma pequena cidade na região norte da Inglaterra, a Doutora e seus amigos então resolvem fingir serem caçadores de bruxas enquanto analisam a situação.

O problema é que uma espécie de lama do mal está reanimando as bruxas mortas, e cada vez que ela tenta explicar o que está acontecendo, ela é chamada de bruxa. Isso leva à principal fala em todo o episódio, quando a Doutora diz “sentir falta de ser homem”, pelo fato de nunca ter precisado justificar suas ações.

O episódio inteiro é uma alegoria incrível sobre o silenciamento de mulheres.

O tempo todo essas mulheres afirmam não serem bruxas. Elas provam sua inocência, mas a única forma de provar que não são bruxas é morrer afogadas. Se conseguem escapar são bruxas, e, portanto, vão para a forca. De uma forma ou de outra, mulheres são mortas pelas leis de homens.

A Doutora então descobre que a proprietária de terras Becka Savage é a responsável pela morte das “bruxas” para encobrir seu erro ao cortar uma árvore ancestral que na verdade era a prisão de uma raça alienígena de guerreiros.

É claro que o Rei Jaime vê tudo isso acontecer e ainda se mantém cético a respeito dos fatos. Mesmo quando a Doutora fala que vai mostrar a ele o que quiser se ele apenas parar de ter medo do que não conhece, ele se nega a mudar o seu comportamento. Então, a Doutora e seus amigos vão embora na TARDIS, deixando para trás o confuso rei.

Apesar de o episódio manter a pegada de um episódio típico da série, uma coisa ficou bem clara:

Mulheres nunca foram levadas a sério e as coisas não estão muito melhores no século XXI.

Os episódios históricos de Doctor Who sempre tiveram o objetivo de ensinar história básica às crianças que assistiam a série, mas agora, especialmente na era da Jodie Whittaker, as histórias também estão aí para nos oferecer um choque de cultura.

Todo o preconceito e erros de nossos antepassados ainda se repetem hoje. Mulheres ainda são tratadas como inferiores e o racismo ainda é muito forte no mundo todo (especialmente na América). Doctor Who tenta nos mostrar que nada disso mudou, e a Doutora nos dá uma chance de começar a mudar como tratamos essas situações – e isso é maravilhoso.


Fonte: TheMarySue | Imagem: BBC

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).