É uma maneira de dizer às crianças que elas podem ser heróis e heroínas, mesmo nas piores situações.

Enquanto eu crescia, O Caldeirão Mágico, filme de 1985, da Disney, era um item básico na minha casa. Na verdade, outro dia, meu irmão estava imitando a estranha criatura peluda selvagem chamada Gurgi. Minha mãe adorava, e nós assistíamos o tempo todo no VHS, mas havia momentos em que era realmente aterrorizante. O vilão do filme, O Rei dos Chifres, era uma figura assustadora, e seu desejo de criar um exército de mortos o deixou muito mais sombrio do que alguns dos outros vilões que vimos, principalmente motivados pela ganância.

Os filmes de terror infantis têm um trabalho difícil, porque, embora muitas crianças gostem de ter medo, há um equilíbrio que deve ser mantido. Ainda assim, acho que há algo importante em fazer filmes de terror para crianças.

O horror – como qualquer gênero de boa qualidade, na verdade – é aquele que geralmente ensina algo sobre o mundo; e nas histórias feitas para crianças, esses contos têm o objetivo de ensinar lições de moral e criar resiliência. Saber como retratar assuntos delicados para as crianças, no nível de maturidade em que elas estão, é provavelmente a coisa mais importante na escolha de um filme de terror infantil. Além do Caldeirão Mágico, os dois grandes filmes infantis de terror da minha casa eram Convenção das Bruxas e O Estranho Mundo de Jack.

O primeiro ainda é, até hoje, legitimamente um dos filmes mais assustadores que eu já vi. Baseado no romance de Roald Dahl, The Witches, o filme é sobre um jovem garoto chamado Luke, que vive com sua avó após a morte de seus pais. Ela o ensina sobre bruxas e como identificá-las. Um dia, quando estão hospedados em um hotel, Luke e sua avó se veem no meio de uma conferência de bruxas com a Grã-bruxa (Anjelica Huston), revelando seu plano de matar todas as crianças da Inglaterra: elas dariam chocolate amaldiçoado para elas e as transformariam em ratos, que seriam mortos por seus pais inocentes ou literalmente qualquer outra coisa. Luke – que é descoberto pelas bruxas e transformado em rato – e sua avó precisam parar as bruxas e salvar todas as crianças da Inglaterra.

Convenção das Bruxas é assustador, mas também apresenta uma criança bem ajustada que não mora com os pais. Seus pais estão mortos, mas ele não é um órfão ao estilo Harry Potter em um armário. Ele é um garoto normal, que vive com a avó. Apesar de ser transformado em um rato, Luke é heroico, corajoso e inteligente. Mesmo que isso o coloque em risco ainda maior, ele ainda faz o possível para ajudar a salvar outras crianças. O filme muda o final do livro para que Luke não seja um rato para sempre, mas mesmo assim ele dá passos largos a ensinar as lições do livro.

O Estranho Mundo de Jack foi um dos primeiros filmes que eu já vi com um protagonista que teve depressão – ou, pelo menos, muita angústia. Quando criança, eu podia me relacionar com a rebelião de Sally e o descontentamento de Jack com algo que ele não sabia exatamente o nome. Acrescente a isso uma música realmente cativante, e você tem um filme que criou toda uma geração de góticos.

Como crianças nem sempre têm palavras para expressar como se sentem, os filmes, mesmo os mais assustadores, podem retratar em imagens algo que estão lidando. As crianças podem ficar tristes e não saberem o porquê, então ver um personagem como Jack ter que passar por toda essa jornada emocional para ser feliz novamente é uma maneira muito acessível para crianças compreenderem.

Mas outros filmes criam conversas mais difíceis, como o filme ParaNorman, que foi feito pela Laika Animation Studios (mesmo estúdio de Coraline) e conta a história de um jovem chamado Norman que pode falar com os mortos. Ele é tratado como um pária pelas pessoas ao seu redor e sofre bullying porque ninguém mais pode ver os fantasmas, então as pessoas o rotulam como “louco”. Seu tio recentemente falecido diz a Norman que ele precisa concluir um ritual para proteger a cidade, caso contrário, os mortos ressuscitarão junto com uma bruxa.

No entanto, descobrimos no final do filme que a “bruxa” era uma garota de onze anos chamada Agatha “Aggie” Prenderghast, que também podia ver os mortos. O conselho da cidade a condenou por bruxaria porque eles estavam com medo e não a entendiam. Norman percebe que os zumbis são o conselho da cidade que condenou Aggie. Os zumbis queriam conversar com Norman para garantir que ele aceitasse o ritual e tentar garantir que o espírito vingativo de Aggie não destruísse a cidade. Todo o final do filme são duas crianças realmente traumatizadas conversando e tentando se ajudar a se curar.

Eu assisti ParaNorman quando adulta, mas me lembro de chorar vendo, porque o filme retratou o tema de bullying perfeitamente, mostrando a vítima sendo ostracizada e deixando o medo guiar seu julgamento. É um filme pesado, mas de uma maneira que eu achava que seria um bom filme para eu assistir aos meus 8 ou 10 anos. É um filme que cria um diálogo sobre o assunto e, sim, é assustador, mas também são coisas com as quais crianças pequenas vão lidar.

Goosebumps: Monstros e Arrepios, Clube do Terror, Coraline, e mesmo animações mais coloridas como A Viagem de Chihiro, todas essas coisas nos permitem lidar com realidades sombrias, mas acabam terminando nos dando confiança que estaremos seguros.

Não importa se você é alguém com uma educação muito mais livre ou que não teve acesso a essas coisas de jeito nenhum, o horror, se é dado no momento certo e com o filme certo, pode ser uma maneira de dizer às crianças que elas podem ser heróis, mesmo nas piores situações.

Examine o filme primeiro, conheça seu filho o suficiente para julgar se está com muito medo e apenas ouça. Muitas crianças convivem com traumas, e eu entendo o medo que muitos pais têm de assustar demais seus filhos acidentalmente, mas a chave é conversar e se comunicar com eles – para garantir que  saibam que não é real e que podem contar com você se estiverem assustados.

O mundo é um lugar assustador, mas pelo menos os filmes infantis sobre horror nos dão heróis.


Texto traduzido e adaptado do TheMarySue.

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