A Blizzard não esperava tanta fúria dos fãs contra Diablo Immortal

Diablo

Muita treta…

No início desta semana, em meio a uma sessão de perguntas na BlizzCon, pouco depois do anúncio do jogo Diablo Immortal, um fã vestindo uma camiseta vermelha se aproximou do microfone sem muita expressão e soltou a seguinte frase: “Eu estava aqui pensando… Isso é uma piada de Primeiro de Abril fora de época?”. O público o aplaudiu. E isso era só o começo de um longo final de semana para a Blizzard. A empresa esperava uma reação dos fãs, mas não nesse nível de agressividade.

Durante a sessão de perguntas, um dos desenvolvedores respondeu de forma educada que “não, é uma experiência de pleno direito de Diablo para celular, em que todos poderão jogar e que esperamos que possa trazer novos heróis para Santuário, assim como receber nossa comunidade de volta, e isso é algo que nos deixa muito empolgados”.

Mas a irritação com Diablo Immortal, apesar disso, continuou com força nas redes sociais, Youtube, reddit e outras páginas desde então. Parte disso aconteceu por causa de uma postagem no blog da Blizzard, afirmando que eles estariam trabalhando em diversos projetos de Diablo, e que o objetivo da empresa era compartilhar algumas das informações sobre alguns deles na BlizzCon. A postagem fez com que surgisse uma forte expectativa quanto a possibilidade de informações sobre Diablo IV, ou pelo menos sobre a remasterização de algum dos jogos iniciais da franquia. Em vez disso, a grande revelação foi um jogo para celular, desenvolvido em colaboração com a empresa chinesa, NetEase. Muitos dos fãs entenderam isso como um sinal de que a Blizzard estaria deixando as plataformas PC e demais consoles para se dedicar a novos campos. E isso seria um sinal de que eles decidiram abandonar os fãs que ajudaram a consolidar o seu trabalho.

O fórum de Diablo no reddit, em especial, está inundado pela fúria dos fãs neste momento. “A Blizzard costumava cancelar jogos como StarCraft: Ghost e Titan por não atingirem o nível Blizzard de Qualidade”, afirma o tópico mais popular, com mais de 12 mil aprovações. “Agora eles estão terceirizando e reciclando jogos. Eu não estou triste, só desapontado e nervoso”, diz o dono do post.

Muitos dos fãs seguem ironizando um dos comentários feitos pelo designer chefe, Wyatt Cheng, durante a sessão de perguntas, após ser vaiado ao afirmar que Diablo Immortal não chegará a plataforma PC. “Vocês não têm telefones celulares?”, perguntou ao público em um tom de falsa incredulidade. Esse comentário foi considerado o perfeito exemplo da surdez da empresa. Com base neste comentário, um tópico com mais de 4000 aprovações afirma: “Todo mundo está dizendo que a Blizzard perdeu o contato (touch) com os fãs. Exceto pelo fato que o toque (touch) será a única foma de você poder jogar o novo jogo de Diablo. Vocês não têm celulares, afinal de contas?”

Outros tópicos acusam a Blizzard de “matar” Diablo, chamam o jogo de “um tapa na cara dos fãs”, e até tentam justificar um comportamento desrespeitoso aos empregados da Blizzard, enquanto as pessoas no fórum oficial de Diablo clamam por boicotes e divulgam petições solicitando o cancelamento do jogo para celular. Alguns fãs ainda estão acusando a empresa de remover avaliações negativas dos trailers de Diablo Immortal no Youtube, apesar de muitos afirmarem que a flutuação nos “dislikes” seja apenas um problema de algoritmo.

Diablo Immortal

Em entrevista à Kotaku, o produtor executivo e co-fundador da Blizzard, Allen Adham, admitiu que a empresa esperava alguma repercussão negativa, mas não nesse nível.

Sabemos o quanto o nosso público é passional com o foco em PC e consoles. E também já vimos isso acontecer. Tivemos uma resposta similar quando anunciamos que levaríamos Diablo para os consoles, e tivemos uma resposta similar ao anúncio de Hearthstone.

Mas, é claro, há um senhor das trevas do tamanho de um elefante na sala: as pessoas estavam esperando Diablo IV. “Tendo dito isso, nós sabíamos que o nosso público aqui estava esperando desesperadamente para saber sobre uma coisa em particular”, afirmou Adham se referindo a seja qual for o próximo grande jogo a ser lançado após Diablo III.

Em teoria, a postagem no blog mencionada anteriormente deveria tentar afastar essa ideia, mas acabou sendo um tiro pela culatra. Grandes empresas costumam comentar coisas que ainda não anunciaram, e a postagem foi um exemplo. Se você consegue ler nas entrelinhas, é até óbvio que a postagem diz para as pessoas que não devem elevar suas expectativas ou esperar algo grande na BlizzCon. Porém, não é difícil perceber como os fãs entenderam exatamente o oposto. As pessoas simplesmente interpretaram a postagem como um mistério que indicaria uma tentativa de desviar o foco, quando na verdade o texto apenas falava que as pessoas não deveriam esperar um grande lançamento nessa BlizzCon.

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Adham, porém, sente que ele e sua equipe fizeram o melhor que puderam.

Na Blizzard, nós não anunciamos nada até que estejamos prontos. É tudo sobre a qualidade do jogo, não sobre o tempo, mas sim sobre fornecer uma experiência incrível para os nossos jogadores. Nós tentamos nos adiantar um pouco com a postagem, para que aquele grupo soubesse que estávamos trabalhando em diversos projetos, e que continuamos trabalhando neles. Mas é bem claro que a sua incrível paixão por Diablo se manifesta de formas interessantes.

Adham também falou sobre a estrutura da equipe de Diablo Immortal, explicando que há um esforço conjunto entre uma equipe na Blizzard e outra equipe na NetEase na China. Apesar de essas equipes interagirem com a equipe principal de Diablo, são equipes separadas trabalhando em projetos independentes. “Existem de fato duas equipes. E isso é algo que tentamos comunicar. Eu conheço nossa comunidade aqui e existe uma preocupação de que estaríamos focando nisso e não naquilo. A verdade é que temos diversas equipes de Diablo trabalhando em diversos projetos não anunciados, mesmo após o anúncio de Immortal”.

Alguns fãs acusaram Diablo Immortal de ser uma “reskin” de um jogo anterior de RPG da NetEAse. Adham refutou essa ideia, afirmando que a arte e estruturas – que parecem ter saído diretamente de Diablo III – foram desenvolvidos exclusivamente para Immortal. “Eu posso garantir que Diablo Immortal foi feito do zero”. Ele ainda fez questão de esclarecer as similaridades com o jogo da NetEase, especialmente na questão do esquema de controles, praticamente idêntico ao do antigo RPG da empresa chinesa. “No oriente, esse método de controle está se tornando o padrão, e isso se dá porque ele é muito natural e ótimo de utilizar. Isso não acontece no ocidente, mas alguns jogos já começaram a adotar esse padrão. O que estamos fazendo é nos inspirar em experiências que já deram certo”.

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Isso não quer dizer que os medos dos fãs de Diablo estejam totalmente infundados. O universo dos jogos de celular é exageradamente desregulado, sendo comum a adoção de práticas comerciais que exploram o vício em apostas, por exemplo. A Blizzard por sua vez, é uma gigantesca corporação que já implementou sistemas em seus jogos, que no fundo, serviam para exploração, ainda que sua abordagem seja mais inócua do que a de algumas outras empresas. Como resultado, as pessoas têm razão em temer que a Blizzard acabe abraçando o lado negro das microtransações em seu jogo sobre o Senhor das Trevas. Nesse sentido, Adham não fez qualquer sinalização. Ele apenas comentou sobre o histórico da empresa.

“Se você pensar sobre a Blizzard nas últimas três décadas, nós fizemos vários jogos diferentes, utilizando diferentes modelos: produtos físicos que vendemos, downloads digitais, WoW utiliza um sistema de mensalidade, Hearthstone e Overwatch possuem caixas de loot. Heroes of The Storm é outro jogo gratuito. Então eu espero que a nossa comunidade seja capaz de ver isso, que desde aquela época, alguns temas centrais têm movido a Blizzard, e nosso lema é ‘Faça um jogo incrível e entregue um valor esmagador de forma ética aos jogadores’. Essa é a direção que queremos tomar. Então, seja gratuito ou premium, nossa estrela do norte é a mesma”.

A explosão de fúria nas redes sociais leva a uma discussão sobre até que ponto a cultura de vídeo games permite esse sentimento de “direito”. Não é surpreendente que haja alguma resistência a um jogo de Diablo para celular. O que choca neste caso é a quantidade bruta de virulência que está sendo despejada sobre uma situação bem simples: um novo grande jogo de Diablo estava sendo desenvolvido e continua sendo. E Diablo Immortal não está mudando nada em relação a isso ou atrasando o projeto. E o jogo, por si só, não é ruim. Talvez um pouco raso, mas sem causar dano ou enganar ninguém. O maior dano foi apenas o sentimento de tristeza por expectativas não concretizadas. E ainda assim as pessoas decidiram que essa foi a traição suprema, tudo porque um único jogo não é absolutamente focado no público de PC e consoles. Não há nada de errado em agir de forma cética em se tratando de uma grande empresa, mas a reação foi violentamente desproporcional ao que de fato a Blizzard fez.

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Adham afirmou que não se trata sobre uma questão de “direito”, mas de paixão.

Eles amam o que amam e querem o que querem. Essa paixão é na verdade o que nos move, e também a sentimos. É por isso que fazemos jogos, e temos feito por quase três décadas agora – e o motivo pelo qual nossa comunidade é tão apaixonada pelas nossas franquias. Eu entendo o sentimento e espero que possamos compartilhar mais sobre as coisas incríveis que estamos fazendo, não apenas com a franquia Diablo, mas por toda a companhia.

Infelizmente, esse tipo de retórica – obviamente bem-intencionada, e frequentemente adotada por desenvolvedores com fanbases barulhentas – pode acabar contribuindo com o problema. Colocar a “paixão” que causa o desrespeito e até mesmo a violência como uma característica positiva, acaba reforçando o ciclo de virulência que ressurge no momento em que qualquer desenvolvedor não dê ao seu público exatamente o que ele exige. Se mesmo empresas massivas como a Blizzard elogiam seus fãs por esse comportamento, no final das contas, eles acabam tendo a razão.

Apesar disso, Adham afirma ter esperança que no final, a Blizzard consiga agradar a todos.

“Nossa esperança é que nossos fãs mais empolgados joguem e amem esse jogo. Aprendam novas coisas sobre a mitologia, mas se dediquem a um estilo de jogo similar a aquele que já conhecem e amam. A principal diferença é que agora eles podem caminhar por aí com isso no bolso, e que podem jogar onde e quando quiserem. Mas também queremos trazer um novo e amplo público que talvez já goste de RPGs de ação, mas ainda não tenham experimentado Diablo. E então, se fizermos um bom trabalho, trazer um público novo de jogos para celular, que nunca tenham jogado algo do tipo. Fazer tudo isso certo é um desafio que enfrentamos todo dia”.


Texto traduzido da Kotaku.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).