5 atuações intensas que fizeram seus intérpretes procurarem terapia

capa - atuações

Papéis que são tão densos que realmente mexem com a mente dos atores.

Os artistas são duas vezes mais propensos do que a população em geral a enfrentar a depressão, de acordo com um estudo australiano. Inclusive, a terapeuta Leith Taylor, diretora de cinema e especializada em tratamento para atores de televisão, afirma que pesquisas há muitos anos reconhecem que os que se dedicam ao trabalho nas artes tendem de fato a ser altamente vulneráveis à depressão e à ansiedade mas que, no entanto, existem fatores que contribuem para os níveis surpreendentemente altos de ansiedade e estresse específicos de parte da comunidade atuante. Estes incluem as emoções profundas que atores frequentemente precisam acessar e expressar quando desempenham um papel e a forte identificação que podem formar com seus personagens.

Nesses casos mais específicos, os atores/atrizes não conseguiram tempo ou espaço para se separarem de seus papéis, o que resultou em ressacas emocionais, consequentemente gerando dificuldades pessoais na vida desses atores/atrizes e a busca por terapia.

Confiram abaixo cinco exemplos de atores que passaram pela situação:

1 – Michael Jordan, Pantera Negra

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Imagem: Marvel Studios

A atuação de Michael B. Jordan como Erik Killmonger em Pantera Negra foi aclamada pela crítica especializada. O personagem foi tão incrível que inspirou uma hashtag viral #KillmongerWasRight (Killmonger estava certo), após o lançamento do filme.

Mas em um episódio recente do Podcast de Bill Simmons, descrito no Business Insider, Jordan se abriu sobre os efeitos que interpretar o personagem causaram sobre sua saúde mental. Durante o episódio, Simmons relembrou ter jantado com Jordan após o final das filmagens de Pantera Negra, e disse lembrar que Jordan estava “acabado por causa disso”. “Aquele personagem que você interpretou, você foi a um local sombrio por ele, e teve alguns problemas para sair de lá”, afirmou Simmons. “Foi uma daquelas coisas que eu não sabia que estava acontecendo”, respondeu Jordan.

Eu nunca fiquei em um personagem por um período tão longo, e eu acho que aquela escuridão, aquela solidão, aquela dor… Então terminando eu pensei ‘Oh sim, negócios como sempre. Vou pra casa, corto meu cabelo e tudo vai voltar ao normal’.

Mas de acordo com ele, não foi o caso.

Eu me encontrei meio que na rotina de isolamento e saí do meu caminho para ter certeza que eu estava sozinho e não falava muito mais do que o usual. E quando eu tinha terminado de gravar o filme, levou algum tempo até eu conseguir falar sobre como estava me sentindo e sobre o porque de eu estar me sentindo tão triste e um pouco deprimido.

Jordan afirmou ter conversado com um terapeuta algumas vezes e que levou cerca de um mês até ele conseguir “voltar a fazer as coisas normais”, como estar com seus amigos e família. “Não apenas estar na sala, mas estar presente e participativo. E falando coisas que eu nunca realmente fui de falar.”

Jordan disse que não sabia se haveria outra forma de interpretar Killmonger sem se perder no personagem, porque “não existe uma fórmula certa”. “Eu estava fazendo o que sentia que era certo. O que foi necessário para me levar emocionalmente ao local onde eu deveria estar, foi isso que eu fiz”.

2 – Kit Harington, Game of Thrones

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Imagem: HBO

A primeira coisa que se nota sobre Kit é, provavelmente, seu cabelo. Ou, mais recentemente, a falta dele. Em entrevista para a Variety, o intérprete de Jon Snow afirma que seu cabelo era um estilo e uma identidade que às vezes podia parecer um pouco restritiva. “Uma grande parte dos meus 20 anos sou eu com esse look”, diz ele. “Minhas fotos de casamento [com a ex-co-estrela e agora esposa Rose Leslie] são de mim com esse look. Por um longo tempo, no final de Game of Thrones, eu senti que queria ser uma nova pessoa, mas estava preso nessa forma.” Sobre o último dia de filmagem, Harington disse:

Eu tirei a fantasia, e senti como se minha pele estivesse sendo arrancada. Eu me senti muito emotivo. Parecia que alguém estava tirando algo de mim.

O ator também se abriu sobre questões relativas à sua saúde mental e os problemas que ele enfrentou durante seu tempo na série: “Meu período mais sombrio foi quando o show parecia se tornar muito sobre o Jon, quando ele morreu e voltou”, diz Harington. “Eu realmente não gostei do foco de todo o programa vindo sobre Jon – mesmo que isso invalidasse o meu problema sobre ser o elo mais fraco, porque as coisas eram sobre Jon.” Harington tinha, na época da morte e ressurreição de Jon, se envolvido com GOT por cinco anos; interações de fãs não eram novidade. Mas os holofotes eram intensos, especialmente para alguém que se considera “estranho e inglês”.

Quando você se torna o suspense de um programa de TV e esse programa de TV está provavelmente no auge de sua popularidade, o foco em você é aterrorizante.

Apesar da atenção da entrevista refletir na preocupação com o personagem que Harington havia construído, ele diz que participar da série também foi algo mais do que um desafio profissional. “Não foi um momento muito bom na minha vida”, diz ele.

Senti que tinha que sentir que era a pessoa mais feliz do mundo, quando, na verdade, me sentia muito vulnerável. Eu tive um tempo instável na minha vida na época – como eu acho que muitas pessoas têm em seus 20 anos. Essa foi a época em que comecei a terapia e comecei a conversar com as pessoas. Eu me senti muito inseguro e não estava falando com ninguém. Eu tive que me sentir muito grato pelo que tinha, mas me senti incrivelmente preocupado se eu conseguiria atuar.

Após buscar ajuda, a sua saúde mental melhorou, e seu relacionamento com a fama trazida por Game of Thrones parece estar em um lugar bem melhor.

3 – Isabelle Adjani, Possessão

Imagem: Gaumont

Imagem: Gaumont

Qualquer fã de horror conhece essa cena do metrô como um dos momentos mais horripilantes e chocantes do gênero. O papel de Adjani neste filme de terror profundamente perturbador de Andrzej Zulawski, em 1981, a deixou imaginando se ela iria conseguir se recuperar.

O papel de Anna é uma intensa mistura de trauma emocional e físico, e apresenta várias cenas insanas onde Adjani parece estar realmente sofrendo fisicamente.

Mais tarde, ela disse a uma revista francesa que ela sofreu Transtorno de Estresse Pós-Traumático como resultado, que precisou de anos de terapia para se recuperar do personagem de Anna e que nunca assumiria outro papel como ela. Embora ela tenha ganhado um César Award (o equivalente francês de um Oscar), era óbvio que Possessão a levou à beira da loucura.

Um post muito interessante da ID-vice sobre como a “histeria feminina é representada no cinema” demonstra como a linha entre a atuação e a vida real é violentamente ultrapassada na cena do metrô e como Adjani se tornou vítima de seu ofício e vítima do diretor, que passava na época por seu próprio divórcio traumático. Zulawski é um cineasta cujo corpo de trabalho praticamente se concentra repetidamente em mulheres ferozes e separações traumáticas – e Adjani é uma atriz bem conhecida por suas interpretações de mulheres ‘loucas’. No entanto, neste ponto, o drama não é mais uma questão de interpretação, mas algo muito mais obscuro. E embora muitos tenham uma grande reverência pelo trabalho do diretor, infelizmente não é um caso isolado: seu filme Szamanka, de 1996, quase imediatamente banido na Polônia por sua natureza explícita, também arruinou a vida da atriz amadora que silenciosamente passou pelo papel principal, Iwona Petry.

4 – Val Kilmer, The Doors

Imagem: Tristar

Imagem: Tristar

Segundo noticiado pela DazedVal Kilmer teve que ir para a terapia depois que ele terminou de filmar The Doors, de Oliver Stone, porque ele não conseguia se livrar de seu personagem. Ele interpretou Jim Morrison em seu filme biográfico. Um ano antes de as câmeras começarem a rodar, Kilmer se vestiu como Morrison, escutou sua música e examinou seu modo de falar. Ele vivia como o Rei dos Lagartos. O ator aprendeu 50 músicas do catálogo The Doors e estudou meticulosamente os maneirismos de Morrison para que ele pudesse interpretá-lo de maneira mais perfeita possível. Tudo isso levou a uma performance impressionante de Kilmer, mesmo o filme em geral não sendo muito interessante.

No Reddit, lar de todas as coisas surpreendentes e inesperadas, Kilmer compartilhou “uma sessão de ensaios típicos se preparando para o filme The Doors.” O pequeno clipe mostra Kilmer e seus colegas de banda se preparando para uma cena praticando o hit da banda, “LA Woman“. “Eu estava trabalhando duro para conseguir seus maneirismos e tentar obter o mesmo jeito que o Rei Lagarto tinha”, diz ele.

Ainda me surpreende até hoje ver pessoas com tatuagens de mim interpretando-o, sem saber que não é o Jim. Acontece mais do que você pensa.

5 – Shelley Duvall, O Iluminado

Imagem: Warner Bros.

Imagem: Warner Bros.

Depois de mais de uma década na obscuridade, Shelley Duvall, atriz de olhos esverdeados mais conhecida por sua performance no filme O Iluminado, virou manchete da noite para o dia – e o Telegraph comentou o assunto minuciosamente. Duvall, que na época tinha 67 anos, apareceu em um trailer de uma nova série do Dr. Phil, um programa de televisão dos EUA em que o famoso psicólogo analisa celebridades.

Mesmo no espaço de um trailer de 30 segundos, a atriz faz confissões preocupantes: que ela acreditava que seu falecido amigo Robin Williams não está morto, mas “shapeshifting”, mudando de forma; que ela estava sendo assediada pelo Xerife de Nottingham e que um disco estava zumbindo em sua perna. “Estou muito doente”, ela diz a Phil, “preciso de ajuda”. E no fim, a questão que fica é: como ela se tornou a mulher triste e assustada aparecendo em Dr. Phil?

Shelley nunca treinou para ser atriz. A oportunidade surgiu certo dia para ela, e apesar da resistência inicial, ela acabou cedendo a pressão. Depois de alguns trabalhos, Shelley aproveitou a oportunidade para trabalhar com Stanley Kubrick, o grande diretor, sem saber do tratamento draconiano e sádico que estava reservado para ela. O The Vintage News explica com detalhes o caso, que foi outra situação em que a culpa do trauma da atriz pode ser atribuída diretamente ao diretor do filme. O próprio Stephen King, em entrevista ao Rolling Stone, descontente com a adaptação de seu livro, descreveu o filme como misógino.

Mais tarde, Shelley diria da experiência:

Perdi um pouco da minha inocência em O Iluminado, porque pela primeira vez senti que precisava de um advogado.

O retrato trêmulo de Duvall de Wendy Torrence, a esposa cada vez mais aterrorizada de Jack (Jack Nicholson), é agora considerado notável, mas isso nem sempre foi o caso. Na época, as resenhas de O Iluminado sequer mencionaram seu desempenho…

***

Casos como o de Michael Jordan e de Kit Harington demonstram que trazer questões assim a público é algo que exige coragem, mas que é necessário. Problemas como a síndrome do impostor e a ansiedade podem afetar qualquer um de nós, ainda que sejamos a maior estrela de uma das maiores séries televisivas de todos os tempos.

Quanto mais as pessoas trouxerem atenção ao problema, mais podemos esperar que outras pessoas que sofrem com isso sejam encorajadas a procurar ajuda – especialmente em casos mais tristes e mais complicados como os de Shelley e de Adjani, que poderiam ter sido evitados. De nós, expectadores, é necessária uma visão crítica do assunto, principalmente em casos onde há abusos.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).