Hoje vou mostrar aqui o review de um jogo que já fazia um tempinho que eu queria comprar e finalmente com a penúltima Flash Sale na PlayStation Store (50% para assinantes da Plus, gente!) consegui investir money e tempo nesse título cheio de personalidade e charme que é o Contrast! Nomeado em 10 das 17 categorias do Canadian Videogame Awards (entre eles melhor jogo do ano, melhor indie game, melhor artes visuais e melhor roteiro), é o primeiro game lançado pela empresa indie canadense Compulsion Games, e eles não pouparam esforços para nos surpreender em vários sentidos. No meu caso, já começou me prendendo por esse exato trailer

http://www.youtube.com/watch?v=kjMxRkKnnOI

Musica fodástica (x1), cabaré, drama, menina falando sozinha e abraçando sombras, uma stalker, sombras cantantes, gente correndo, música fodástica (x2), puzzles, dança, mulher que vira sombra e volta e tudo embalado ao som de um vocal feminino incrivelmente fodástico (x3) em jazz (ufa!). Pareceu tudo muito confuso? Vamos desmembrando esse trailer aos poucos aqui para entender do que se trata.

Contrast (ignorem o xx- ali)
Contrast (ignorem o xx- ali)

Esse é o meu segundo review, e coincidentemente (ou não?) apresento outro jogo protagonizado por uma menininha (vide Child of light que postamos aqui na ultima semana para outra indicação de jogo com criança como personagem principal ). Desta vez é Dorothy Malenkaya, mais conhecida por Didi, quem terá a atenção dos jogadores. Ok, isso quer dizer que jogamos com uma menina de 8 anos para resolver os problemas no jogo? Errado! Vai um pouco além do esperado.

Didi (Dorothy) e Dawn – #coisamaislinda!
Didi (Dorothy) e Dawn – #coisamaislinda!

O jogo tem uma premissa bastante interessante e fora do comum: apesar da história girar em torno de Dorothy, você assume o controle de Dawn, um tipo de amiga imaginária acrobata e esbelta à la harlequin, que deve ajudar Didi a superar a crise familiar pela qual ela está passando. Logo no inicio percebe-se que não há outras pessoas no jogo além da menina e as sombras com quem ela conversa. Dawn é um elemento misterioso aqui e ninguém parece notá-la, restando a conclusão de que ela é um tipo de espírito ou fruto do imaginário. Ela tem a habilidade de alternar entre seu corpo visível (não sei se de carne e osso se adequaria nesse caso), e silhueta entre as sombras.

Charmosos cenários escuros iluminados por letreiros
Charmosos cenários escuros iluminados por letreiros

Ambientado na década de 20, o mundo é sombrio de uma forma aconchegante, misturando um clima Noir com Vaudeville (série de entretenimentos que rolavam em paralelo antigamente nas noites entre 1880 e 1930, como o circo, os freak shows, cabarés, teatro e cinema) distorcidos pelas memórias de uma criança. De uma forma muito bizarra dá para pensar aqui numa mistura de Limbo (jogo plataforma/puzzle em que você é uma silhueta andando pelas sombras) com uma pitada de Silent Hill nesses becos destruídos com precipícios ao final das ruas (alguém tem que parar de destruir as ruas nos jogos, poxa! Mas já fico feliz de não ter trezentas maçanetas quebradas como em SH *risos*). É um tanto confuso e conturbado, com enredo intrigante e reviravoltas que acabam te prendendo do inicio ao fim.

Concept art dos cenários
Concept art dos cenários

Aborda temas como multiverso (a possibilidade de existir mais de um universo, também conhecido como universos paralelos), física (luz, sombras e suas projeções) e psicologia infantil (na forma como Didi vê o mundo e como ela influência no universo de Dawn).

Kat colocando Didi para dormir
Kat colocando Didi para dormir

Historia e personagens

Didi está passando provavelmente pelo pior momento de sua vida. Logo no inicio percebemos que ela é bastante solitária: seus pais passam problemas financeiros e uma provável separação, e para pagar as contas sua mãe trabalha em um cabaré como atriz e cantora para arrecadar dinheiro, enquanto seu pai, pouco presente, está passando por sérios problemas de dívidas para gângsteres.
Assim como qualquer criança, Didi não entende nem aceita a situação de seus pais, e por curiosidade e preocupação segue sua mãe noite afora em direção às casas noturnas, tendo Dawn como sua fiel companheira para ajudar a atravessar obstáculos do caminho, se metendo em grandes confusões com uma galerinha do barulho (OEOE sessão da tarde).

Kat, a femme fatale do jogo e mãe de Didi
Kat, a femme fatale do jogo e mãe de Didi

É bastante perturbador e dá uma certa pena ver Dorothy passando por tudo isso tão nova, e ainda assim se mantendo forte para reverter a situação (eu já estaria com quilos de depressão nas costas no lugar dela). Ela está decidida a recuperar os momentos em família e ver seus pais juntos novamente, custe o que custar.

Em Constrast, é importante vasculhar os cenários atrás de fotos e cartas, pois são eles que revelarão explicações para a história no decorrer do jogo. Você pode até seguir em frente sem procurar muito, mas certamente chegará no final se perguntando “tá, mas porque aconteceu isso ou aquilo?”. Essas respostas só serão encontradas lendo os jornais antigos ou papéis jogados pelo cenário.

The amazing Vincezo, o arrogante e misterioso ilusionista, personagem chave no enredo
The amazing Vincezo, o arrogante e misterioso ilusionista, personagem chave no enredo

Arte e mundo

As inspirações no expressionismo alemão – caracterizado pelo clima sombrio, distorção de cenários, personagens com maquiagem pesada e jogo de luzes – e em Film Noir – com gangsteres, femme fatale, cidades grandes e sujas, criando o clima perfeito para o mundo do crime ali representado e tudo que um bom Noir tem direito. É só lembrar de Sin City (Frank Miller) ou do jogo L.A..Noire (Rockstar), os típicos tiozinhos de terno em ambientes acinzentados, fumando seus charutos enquanto desvendam crimes e são ameaçados de morte, aproveitando suas noites em cabarés com mulheres sexy e embalados ao som de jazz – são fortes e bem marcantes em Contrast.

A decisão de arte para o mundo de Contrast - não poderia ser muito realista para não ser maçante, nem muito abstrato para não passar a ideia errada e parecer infantil.
A decisão de arte para o mundo de Contrast – não poderia ser muito realista para não ser maçante, nem muito abstrato para não passar a ideia errada e parecer infantil.

Cenários escuros, iluminados pelas luzes locais de cinemas e boates, as cidades do mediterrâneo como Veneza, com ruas sinuosas e ruínas arquitetônicas deram o caminho (revela Whitney Clayton, a diretora de arte), enfeitados por cartazes altamente decorativos com detalhes em Art Noveau – movimento caracterizado pela organicidade e formas curvas – criam uma atmosfera perfeita e muito bem trabalhada, combinando com a história densa do jogo.

Idéias iniciais (esquerda) e finais (direita) do design dos personagens
Idéias iniciais (esquerda) e finais (direita) do design dos personagens

Para o design dos personagens, usaram como referência o estilo de concept art de Tim Burton

Jogabilidade

Transição entre corpo (com massa) e silhueta
Transição entre corpo (com massa) e silhueta

A jogabilidade é um tanto quanto inovadora, combinando elementos de plataforma 2D com ação em 3D. O jogador pode alternar entre o plano físico, de “carne e osso”, com o das sombras, na qual Dawn interage com as silhuetas nas paredes (só ocorre a mudança de planos em paredes iluminadas) tornando o jogo um tipo de 2 em 1. Essa mudança é altamente viciante quando você pega o jeito.

http://www.youtube.com/watch?v=b2AOO89UjSM&src_vid=kjMxRkKnnOI&feature=iv&annotation_id=annotation_434542277

Uma coisa que me encucou um pouco foi o “peso” de Dawn. Ela dá saltos muito altos e parece ser extremamente leve. Mas não é aquela suavidade bacana como demonstrado em Journey, é um pouco “durona”, causa estranhamento.

Puzzles

A física entra como um elemento importante aqui – você vai ter que entender um pouco o conceito de luz, pois será a projeção de sombras nas paredes que irão te ajudam a transpor obstáculos – ou é só ir testando colocar os pontos de luz dispostos pelos cenários para ver onde eles rebatem e como podem te ajudar, mas não usar a lógica pode levar mais tempo.

Didi auxiliando Dawn com o lampião, estendendo o comprimento da sombra na parede.
Didi auxiliando Dawn com o lampião, estendendo o comprimento da sombra na parede.

Basicamente são envolvidos três elementos – objeto, parede e a origem da luz (de lampiões, nesse exemplo). Tentando explicar com minhas palavras: quanto mais perto da fonte da luz está do objeto, mais desfocada e grande será a projeção de sua sombra na parede, e quanto mais longe a luz está do objeto, mais focada e nítida será essa projeção. Minha explicação ficou uma porcaria beleza, mas acho que dá para entender mais ou menos o que eu quis dizer, certo? (é tudo bem lógico e vocês são craques, vão tirar isso de letra no jogo).

Momento plataforma
Momento plataforma

Dificuldade

Os desafios do jogo vão de fáceis para razoáveis, envolvendo em boa parte cenários inteiros na resolução dos problemas (isso é maneiríssimo!), mas acaba não sendo muito desafiador conforme você vai se acostumando. E apesar de ter um jeito especifico para resolver os puzzles, você acaba se aproveitando de algum glitch (erro) quase que naturalmente para seguir adiante. Não é muito desafiador para quem está acostumado a puzzles (este jogo é quase mais fácil que os tutoriais de Portal, infelizmente).

Trilha sonora

Laura Ellis faz a voz de Kat, a mãe de Didi
Laura Ellis faz a voz de Kat, a mãe de Didi

Sendo sincera, o jogo tem toda uma mecânica interessantíssima, a arte é apaixonante e tudo mais, mas o que realmente me pegou nessa foi a voz de Laura Ellis. Eu fiquei alguns bons minutos no menu inicial só ouvindo o tema do jogo “Kat’s song” (gente, o que é essa voz? <3). Ela ganhou alguns bons fãs participando de Contrast (só ver no canal do youtube dela os comentários afirmando isso).
Sabe musica de cabaret, com vocal feminino ao som de piano e sax? É exatamente disso que estou falando. Toca o play no vídeo abaixo e entra no clima do jogo junto comigo!

http://www.youtube.com/watch?v=Y8UhcfxHKW4

É de se sentir boêmia (o), assistindo a performance de uma verdadeira femme fatale cantando. House on fire (no minuto 6:41 do vídeo) é uma das musicas mais fodas que ouvi nos últimos jogos que testei, estou completamente viciada e já ouvi umas 10 vezes! hehehehe (e foi aí que descobri que amo jazz no vocal feminino)

To the heroes Among us

Momento “recuperando a fé na humanidade” – para os que se decepcionam todos os dias com muitas coisas. Há um Trophy/Achievement secreto & misterioso (para nós que não somos da terrinha do Tio Sam e cia. – eu não tinha ouvido falar), que quando liberado no jogo, apresenta uma lista grande de nomes aleatórios. Fiquei curiosa sobre isso e fui atrás.

A conquista “To the heroes among us” se trata da lista de nomes das pessoas que colaboraram com o projeto Extra Life
A conquista “To the heroes among us” se trata da lista de nomes das pessoas que colaboraram com o projeto da Extra Life

Vendo que poderiam ir mais longe juntando dinheiro com o auxilio do publico, a equipe da Compulsion Games fez uma campanha beneficente em parceria com a Extra life, organização que junta doações para ajudar crianças doentes do Children’s Miracle Network Hospital (Rede de Hospitais Milagre Infantil), em que cada pessoa que colaborasse teria seu nome publicado no jogo. É um pequeno gesto, mas tão mágico que pode mudar a vida de centenas de crianças. Tirei o chapéu, luvas e casaco para os desenvolvedores!

Pontos negativos

Apesar de todo o texto, não é bom ter expectativas muuuuito grandes. O que faz com que o jogo não leve nem perto de 10 de Masterpiece no meu coraçãozinho se dá pela quantidade de bugs e o nível de dificuldade dos pluzzles. Acabou decaindo e muito a experiência e quebrando a imersão quando você fica preso no meio de objetos e tem que dar load – ainda se o auto save do jogo fosse justo tá beleza, mas voltar quase do inicio do capítulo por um bug é de largar o controle e dar um tempo. #brunaazarada

Para mim, com certeza a parte que teve o bug mais estressante do jogo
Para mim, com certeza a parte que teve o bug mais estressante do jogo

Teve vezes que tive que passar novamente quase um cenário inteiro por causa do sumiço de alguma caixa – e ela não reaparecer mais (infelizmente nem tudo nesse jogo é um moranguinho). Há pouco lançaram uma atualização para correção de diversos bugs que envolviam caixas (antes era quase um pesadelo só de pensar nelas).

O jogo é poético em sua arte, historia e mecânica inovadora, mas pareceu um pouco repetitivo e mal aproveitado devido ao seu tempo – é curtinho demais, zerei em torno de 4 horas, faltando só um colecionável (*mixed feelings*). Triste, mas já deu para aproveitar bons momentos. É o primeiro da empresa, e eu certamente vou continuar acompanhando qualquer lançamento deles, pois o potencial é alto!

Corre lá!
Corre lá!

Curtiu? Então ‘bora lá comprar pela Steam (R$ 24,99 ou $34,99 na edição de colecionador com artwork e soundtrack incluídos), PS3 e PS4 (R$ 30,99), XBOX 360 (R$ 29,00) e agora também lançado para o XBOX ONE há menos de um mês.

Já jogou? Para vocês tem mais um pouquinho de uuuuuuuuuuu texto. Vamos trocar algumas idéias sobre aquele final (tãmdãããããm)

SPOILER A SEGUIR

Algumas conclusões que tirei no decorrer do jogo.

1 – Dawn vive num universo criado pelas memórias conturbadas da Didi, e esse universo é diretamente influenciado por seus pensamentos e pelas lembranças de seus pais (o que reflete fortemente nos últimos cenários do jogo, como a subida pela Lighthouse, onde o caminho de Dawn é formado pelas sombras de Kat e Johnny discutindo e pelas cartas do serviço de proteção à criança e tal).
2 – Vincenzo fez propositadamente com que Dawn (Rose, sua assistente) ficasse no universo criado pela mente de Didi para cuidar dela desde o começo? Ele passou a impressão de que não ligava para sua filha, mas na verdade sempre se importou com ela? Se fosse sem querer, ele poderia ter voltado para buscar Dawn, como fez em sua apresentação no fim do jogo.

Queria trocar umas opiniões com quem já virou para ver se concordamos ou o buraco é ainda mais embaixo e faltou um pouco mais de reflexão de minha parte 😀

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