Um evento que deveria criar um ambiente seguro para as mulheres , mas que se torna excludente e problemático.

Na última década, os jogos eletrônicos deixaram de ser um simples meio de entretenimento doméstico, inaugurando outra categoria de jogos: os esportes eletrônicos, ou e-sports. Graças às plataformas de transmissão de jogos e torneios competitivos (como, por exemplo, a Twitch), essas competições se tornaram extremamente populares, alavancando um mercado próprio, com audiência e faturamento gigantescos.

Apesar da popularização e do público diverso, esses torneios ainda são espaços quase exclusivamente masculinos. Boa parte das principais competições internacionais aceitam, por regulamento, participantes de qualquer gênero. Em teoria, seriam considerados torneios mistos, mas quando essa teoria é posta em prática, de toda forma vemos um percentual baixíssimo de mulheres no cenário competitivo.

E por isso, projetos que dão visibilidade para times femininos em torneios competitivos ajudam bastante a corrigir desentendimentos populares, como por exemplo que mulheres não fazem parte desse percentual majoritário por “não possuírem capacidade e interesse de jogar em alto nível” ou que mulheres “só conseguem jogar como personagens de suporte”.

Além disso, segundo o Jornalismo Junior da USP:

“O interesse das mulheres por jogos eletrônicos não pode simplesmente ser considerado menor, já que dados da Pesquisa Game Brasil do ano passado revelaram que elas representam a maioria (58,9%) dos gamers brasileiros. Ao redor do mundo, as estatísticas por gênero são equilibradas, mas ainda assim, um estudo de 2014 da Entertainment Software Association colocou as mulheres adultas no topo da demografia de toda a indústria dos jogos.”

O texto, de autoria de Bianca Muniz e José Higídio, usa como exemplo o caso da equipe Vaevictis eSports (o primeiro time integralmente feminino a disputar um torneio oficial da Riot, empresa desenvolvedora do jogo League of Legends, o LoL) – em que as jogadoras foram vítimas de comportamento antidesportivo e discriminação de gênero – como o tipo de situação que motiva iniciativas de campeonatos exclusivamente femininos. A ESPN noticiou o assunto em detalhes.

Porém, ainda segundo a matéria, essas iniciativas enfrentam alguns problemas.

Ocorre, por exemplo, escassez de competições desse tipo no panorama internacional. Counter-Strike: Global Offensive (CS:GO), um dos jogos mais populares mundialmente, conta com basicamente duas competições femininas internacionais regulares – IEM Katowice e WESG.

Outro problema é o investimento reduzido. As vencedoras de CS:GO no WESG feminino deste ano receberam uma premiação de 60 mil dólares. Na competição principal do torneio, o prêmio mais próximo disso foi o do quarto colocado, que recebeu 50 mil dólares, enquanto os campeões levaram 500 mil para casa. A disparidade financeira não é novidade: Scarlett, jogadora de Starcraft II, acumula a maior quantia entre as mulheres profissionais, mas mesmo assim é apenas a 347ª no ranking dos mais bem pagos do mundo.

Apesar disso, esses projetos estão surgindo e se fortalecendo ao redor do mundo. No Brasil, surgiram iniciativas como o Projeto Sakuras, feito por garotas para ajudar outras garotas a terem uma experiência melhor nos e-sports; ou a BGC (Brasil Game Cup), que a partir de 2017 organizou torneios femininos de CS:GO, num evento competitivo misto.

Pela primeira vez no país, teremos uma competição exclusivamente feminina, com formação de torneio competitivo de LoL e de CS:GO – o GIRLGAMER Esports Festival São Paulo.

Descrito como um evento único e animador que visa celebrar a competitividade das mulheres nos e-sports, o GirlGamer Festival já acontece anualmente em múltiplos países como Espanha, Austrália e Coréia do Sul. No Brasil, o evento acontecerá nos próximos dias 5 e 6 de outubro, sob organização da Bad Boy Leeroy, a BBL e-sports. O evento abriu oportunidade de participação para mulheres acima de 16 anos de toda a América Latina. De acordo com o site do GirlGamer, uma qualificação online selecionaria quatro times para participação da primeira etapa em São Paulo. As campeãs de cada modalidade iriam então para Dubai, para disputar a etapa mundial do torneio.

Por ser um evento inédito, a edição de SP do GirlGamer gerou um hype enorme, com vários sites grandes de notícias divulgando o evento, a exemplo da Exame, da SportTV e da ESPN. A novidade realmente se tornou promissora, especialmente quando a organização do evento afirmou que a ideia dele era que a representação feminina servisse como inspiração para outras mulheres participarem, gerando um ambiente mais diversificado e sendo “um passo para se ter igualdade de gênero, e a criação das mesmas oportunidades para todos”.

Só que isso não poderia estar mais longe da realidade. E os problemas surgiram antes mesmo do evento começar.

Conseguimos entrevistar e conversar com diversas jogadoras e representantes de equipes participantes da competição, várias delas com problemas idênticos. Os depoimentos dessas participantes servirão como demonstração dos erros e atitudes da organização que ultrapassaram limites do bom senso e do respeito.

As denunciantes tiveram garantia de confidencialidade.

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Desorganização, inflexibilidade e falta de diálogo

O evento da GirlGamer Festival foi apresentado em detalhes para as equipes brasileiras que se inscreveram no torneio com um regulamento formulado pela BBL – documento contendo questões problemáticas que variavam entre coisas bobas, como erros de gramática e falta de coesão e coerência, até coisas mais absurdas, como a solicitação de exames médicos comprovando que as participantes possuíam apenas cromossomos XX (falaremos sobre isso mais adiante). Uma das equipes de jogadoras descreveu o regulamento como “completamente desconexo com a realidade brasileira, excludente e quase ditatorial”.

O documento foi posteriormente alterado, substituindo a solicitação do exame por apresentação de documento oficial com foto.

Esse regulamento continha vários dos primeiros pontos que gerariam atrito entre as equipes de competidoras e a staff do evento.

A começar pelo tom hostil e autoritário do documento, que determinava que, a) a empresa se reservava no direito de alterar qualquer regra sem aviso prévio, e b)  que qualquer postagem que uma equipe/participante fizesse “denegrindo” (palavra usada pela organização, nós, das Garotas Geeks, sabemos o racismo que está atribuído a ela) a imagem do torneio, do operador de liga ou de qualquer outro envolvido, poderia levar a punição ou até mesmo a desclassificação da equipe.

Apesar disso, as jogadoras se comprometeram com as regras. O que começou a deixar a situação insustentável foi, em primeiro lugar, a estipulação do regulamento para os horários das partidas qualificatórias.

Calendário para a 1ª Etapa online do evento, que ocorreria durante a semana e em horário comercial.

Muitas das participantes trabalham e principalmente estudam à noite e estariam impedidas de participar (que aliás também pode ser considerado como uma das razões para o baixo número de mulheres participando de torneios competitivos) – isso sem levar em conta que as participantes só foram avisadas das datas e horários dos torneios com pouquíssimos dias de antecedência, dificultando e em alguns casos de fato impossibilitando que elas pudessem se organizar para poder conseguir faltar às aulas ou alterar os horários no trabalho. Algumas equipes só conseguiram contornar a situação encontrando jogadoras reserva de última hora ou pedindo que as equipes adversárias tolerassem atraso para o início das partidas. 

Sem dúvidas, a organização prévia e avisos com antecedência fariam muito a diferença nesta situação.

Em segundo lugar, quando as jogadoras precisaram conversar sobre esse e outros pontos do regulamento, foram tratadas de forma agressiva.

De todas as equipes entrevistadas, apenas uma não reclamou de como a staff do evento agiu de forma pouco profissional, respondendo as perguntas e quaisquer comentários das jogadoras com descaso, de forma grosseira e pouco cooperativa, enviando prints do regulamento e agindo de forma intimidadora, ameaçando e coagindo as equipes.

Uma das ameaças surgiu quando as equipes não estavam sendo ouvidas e começaram a cogitar boicote. Em linguagem passivo-agressiva, uma das funcionárias da equipe de suporte da BBL respondeu que “isso não seria uma boa ideia”, insinuando a seguir que poderia facilmente substituí-las por equipes de outras seletivas.

O fato é que o atendimento da staff da BBL foi geralmente adjetivado de despreparado, impaciente, desrespeitoso ou desinteressado em ajudar. E como o regulamento não é exatamente claro sobre várias coisas (como a necessidade do uso do Plays.tv ou à respeito da necessidade de que todas as jogadoras conseguissem tirar o passaporte antes mesmo da etapa regional), a situação foi se complicando.

Uma das entrevistadas afirmou que a staff estava sendo irredutível na questão do calendário das qualificatórias sob a justificativa de que a equipe de transmissão já tinha sido contratada para aqueles horários. Para ela, isso deixou a impressão de que o campeonato estava sendo feito levando muito mais em consideração o alcance público e os lucros provindos disso do que a inclusão das jogadoras num evento exclusivamente feminino.

“Estavam fazendo campeonato para o público e não para as players. Estavam nos usando como entretenimento e não realmente querendo nos dar oportunidades.”

Ela continua:

“Cenário feminino dá visibilidade, é marketing. Eles não estão nem um pouco preocupados com a realidade de uma mulher que quer entrar nesse ramo. Eles querem as visualizações da stream e poder se auto-intitular ‘inclusivos’.”

***

Evento para mulheres, discriminando mulheres

Além dos problemas de organização e comunicação, diversas jogadoras relataram que foram tratadas de maneira machista, o que tomou proporções ainda maiores quando surgiu a questão do Plays.tv e a resposta de uma integrante da staff da BBL sobre a necessidade do uso dele:

Exemplo de resposta machista da administração.

Em certa altura da qualificatória, o uso do Plays.tv se tornou obrigatório. Já falamos sobre aqui no site. Isso causou incômodo entre algumas das jogadoras, não apenas por esse tipo de “medida de segurança” não ser costumeiramente adotado nos torneios masculinos (o próprio site do Plays.tv não possui nenhuma informação sobre a utilização da ferramenta em torneios e não especifica quais times ou jogadores de fato utilizam o programa) mas também porque o Plays.tv consome muito do desempenho dos computadores. Algumas jogadoras tiveram que tirar dinheiro do próprio bolso para poder jogar em computadores alugados, já que nem toda máquina suporta o aplicativo sem causar lentidão. Uma das equipes inclusive relatou que:

“[Um dos problemas foi] a necessidade do uso do Plays.tv com a obrigatoriedade de fazer o upload do vídeo em até 2h após a finalização do jogo – muitas jogadoras não possuem computadores tão potentes ou internet tão rápida para tal (a organização fez questão de apontar diversas vezes que excluiria do campeonato o time que não conseguisse).”

Apesar da empresa alegar que era uma medida sugerida pelas próprias jogadoras e para proteger essas mesmas jogadoras, o discurso da administração nos relatos que recebemos dá outro teor ao uso do Plays.tv. Esse discurso, somado à fala da staff que “mulheres fazem isso mas homens não precisam”, reforça a paranoia do fandom de jogos competitivos que mulheres não têm capacidade de jogar em alto nível como os homens. Logo, só conseguiriam se manter num campeonato competitivo se obtivessem ajuda. E nesse caso foi como se a organização já estivesse assumindo e esperando que estas fraudes ocorressem. Fora que o torneio tem etapas presenciais, onde é possível de qualquer forma confirmar a identidade e a capacidade das participantes.

E esse problema é um ciclo, na verdade. A desenvolvedora de jogos cria um produto que gera um ambiente hostil para mulheres, especialmente quando não pune como deveria jogadores homens com comportamento inadequado. Isso faz com que eles se sintam mais encorajados a agir assim. E isso chega ao ponto de permitir que esses jogadores passem a exigir que esses comportamentos sejam reproduzidos onde quer que as mulheres apareçam, inclusive que elas sejam cobradas em dobro por tudo que fazem.

As críticas das jogadoras sobre o uso do Plays.tv não era sobre a validade do aplicativo como ferramenta para evitar fraudes, afinal muitas delas afirmaram inclusive que concordam com o uso do programa para este fim. A polêmica se deu por causa da disparidade na forma como ele está sendo aplicado nos torneios e pelo tratamento dispensado às participantes, como se elas fossem jogadoras de categoria inferior aos homens que fazem parte de torneios competitivos.

O problema não é usar o aplicativo do Plays.tv, o problema é que só os eventos femininos sejam submetidos a ele, inclusive de maneira que coloca a credibilidade e a capacidade das jogadoras sob suspeita.

Até porque, ainda pensando na possibilidade de fraude, o que garantiria que homens já não fazem uso do mesmo subterfúgio? E se fazem, por que esta prática não foi adotada antes em outros torneios? Por que essa possibilidade de fraude só se torna escandalosa quando se trata de mulher jogando?

O fato é que deveria existir um sistema que garantisse a identidade de todos os jogadores em todos os eventos e não só nos torneios femininos. Principalmente porque quando se penaliza por penalizar uma minoria que já é penalizada a priori, isso não garante “mais segurança” ou qualquer coisa do tipo, só demonstra machismo e discriminação.

Com a repercussão gerada pela denúncia do Plays.tv no evento, feita originalmente aqui no Garotas Geeks, nossa equipe recebeu uma nota oficial da administração da BBL, afirmando repudiar atitudes discriminatórias. A nota também alega que a empresa não tem tratamento diferenciado entre gêneros e que o uso do Plays.tv nas partidas era apenas para “proteção das jogadoras”, visando eliminar possibilidades de fraudes. Por fim, a nota continha um pedido de desculpas públicas à respeito da fala discriminatória da integrante da organização (imagem acima) e afirmava que a equipe atingida pelo comentário, a Athena’s e-Sports, já havia recebido um pedido direto de desculpas também.

Porém, ao entrar em contato com a Athena’s, equipe que abandonou o evento após os comentários machistas, fomos informadas que não foi apresentado, até o momento da publicação desta matéria, um pedido de desculpas.

“Ninguém da Athena’s, por meio dos nossos representantes ou por nossas redes sociais e canais de contato recebeu nenhum esclarecimento, posicionamento ou pedido de desculpas vindo da BBL.”

Essas questões por si só serviriam como evidência da gravidade dos problemas envolvendo a falta de diálogo da empresa, mas eles não param por aí. Um fato interessante a se notar é que o regulamento da BBL afirma que todas as competições são administradas pela “League Ops”, equipe composta integralmente por homens.

Reprodução do capítulo sobre a comunicação da BBL no regulamento do evento.

Um torneio exclusivo para mulheres, cujo discurso repetitivamente alegue “proteger as mulheres”, deveria ter ao menos uma mulher participando de sua administração, já que as questões de gênero é que são o enfoque. 

***

Transfobia disfarçada de burocracia

Pra compreender a situação específica das jogadoras trans no evento, procuramos uma jogadora que foi excluída do torneio em razão de transfobia. O relato dela é publicado abaixo em partes, visando principalmente proteger sua identidade. Ela conta que sua experiência com o evento começou durante um torneio feminino amador, o White Rabbit Cup (também organizado pela BBL) – antes do evento GirlGamer Festival ser anunciado.

Esse campeonato tinha como objetivo, segundo o próprio regulamento da BBL, “fomentar o cenário”, de forma que “não garantia pontos para nenhum dos outros torneios, servindo apenas como uma liga amadora isolada de todo o circuito” (apesar do próprio regulamento do torneio, de maneira controversa, prever um sistema de pontuação). Assim, seria um espaço inclusivo e aberto para todas as participantes, inclusive as trans. Por ser um torneio amador, o White Rabbit Cup era uma oportunidade para as jogadoras novatas terem uma primeira experiência competitiva, disputando inclusive uma premiação simbólica:

Premiações do White Rabbit Cup.

Dentro desse primeiro torneio, a organização parecia um pouco mais aberta a lidar com as dificuldades das jogadoras, principalmente a questão de documentação. Apesar de ser exigida documentação atualizada, não era necessária a apresentação de documento com foto, por exemplo – e isso permitiu que garotas trans pudessem usar o título de eleitor ou a carteira do SUS pra conseguir participar. Porém, com o anuncio do GirlGamer Festival, as coisas começaram a mudar.

O primeiro regulamento do GirlGamer Festival, como já mostrado anteriormente, exigia que as jogadoras apresentassem laudo médico comprovando  “possuir cromossomos XX”. E para a nossa entrevistada trans, isso foi um choque.

“Obviamente isso excluía do campeonato (que inicialmente pregava a inclusão das mulheres nos e-sports) todas as competidoras trans. Pra mim isso foi muito decepcionante e destruidor, imagino que pra todas nós.”

Essa insatisfação se espalhou para diversas equipes, em especial as que foram prejudicadas. Após pressão por parte dessas jogadoras, a organização do evento cedeu, alterando a regra e afirmando que as competidoras trans deveriam então ter documentos “oficiais do governo, com foto”, como RG, carteira de motorista, passaporte, entre outros.

Parte do regulamento da BBL com a explicação para a exigência de documentação para transexuais.

Mas essa alteração não solucionou o problema. E a nossa entrevistada explicou:

“Muitas pessoas trans vivem o mesmo tipo de situação que eu, com problemas familiares. Eu, por exemplo, não posso retificar os meus documentos pois moro na casa dos meus pais e eles não aceitam de jeito nenhum que eu tenha nada relacionado a minha identidade de gênero. Manter documentos é uma coisa muito mais complexa e difícil de se manter ’em segredo'”.

“Recentemente, perdi até mesmo o direito de ter o meu título de eleitora retificado. Por conta de pressão familiar e ameaças como expulsão de casa, tive que abrir mão da única ‘prova oficial’ que eu conseguia ter. Todas as pessoas que eu conheço sabem o que vivo, e todas conhecem os meus motivos para não ter documentos oficiais, não é como se eu ‘não quisesse’ ou ‘não corresse atrás’ como alguma pessoas sempre dizem. Eu realmente não tenho opção. Se tivesse, já teria retificado tudo há muito tempo.”

Por causa disso, a entrevistada diz que desistiu de tentar participar, mas que foi convencida por amigas a entrar nas qualificatórias online do torneio, porque a questão da documentação só era necessária para as etapas presenciais, o que daria a ela uma chance de jogar.  E mesmo que ela não pudesse participar da etapa presencial, quis ajudar as amigas do time na etapa online. No dia do campeonato, ela viu seu nome na lista de participantes aprovadas, daquelas que “comprovaram ser mulheres”. No entanto, isso mudou rapidamente.

“Cerca de 20 ou 30 minutos antes do início das partidas, quando fomos olhar a lista novamente, haviam tirado o meu nome, sem avisar nada. Corremos atrás do suporte, que são duas funcionárias que atendem pelo Discord dos campeonatos femininos da BBL, mas trataram a situação com certo descaso. Eu não queria prejudicar as meninas do time, então procurei uma completer que ainda estava entre as aprovadas na lista, consegui encontrar uma amiga nossa para jogar. Porém, quando colocamos ela no time da Battlefy, ela não apareceu no ‘main rooster’ da plataforma, apesar de estar registrada na equipe. Então, desqualificaram o time inteiro. Fomos como loucas procurar o suporte, que ignoraram o nosso problema e fingiram que não existíamos. Quando respondiam alguma coisa, falavam ‘precisamos que você tenha calma para resolvermos a situação’, mas na verdade não estavam resolvendo nada.

Várias outras meninas, inclusive de outros times, começaram a reclamar também e questionar o que estava acontecendo. Mas as moderadoras, em vez de tentar resolver o problema de verdade, colocaram slow mode nos chats do Discord para que não pudéssemos reclamar.”

Fora isso, a organização também exigiu que todas as participantes deveriam ter passaporte com urgência, sendo que as exigências foram apresentadas com apenas três semanas de antecedência, sob pena de exclusão do evento. Mesmo que o passaporte só tenha utilidade no torneio para a equipe qualificada para a etapa mundial em Dubai, em outubro.

Regulamento exigia que as participantes conseguissem passaporte com apenas três semanas de antecedência do prazo final.

E o problema nisso não era apenas o tempo curto para adquirir a documentação (que compreende o tempo necessário para aprovação do pagamento da taxa de solicitação do documento, mais o período até a data agendada para o atendimento e mais cerca de 6 dias úteis para aprovação e impressão do passaporte. Isso significa que são 6 dias úteis após todo o trâmite online e presencial. Dependendo da cidade, o processo pode levar mais de um mês), mas também o valor que as participantes teriam que arcar para conseguir esse documento, que custa hoje por volta de R$250,00.

Somando isso à dificuldade de conseguir passaporte retificado com nome social, as jogadoras passaram apertado. E então elas novamente procuraram auxílio da equipe da BBL para falar sobre o assunto, especialmente sobre as dificuldades nesse sentido para as participantes trans, e novamente a empresa foi inflexível. Muitas jogadoras participaram das primeiras etapas qualificatórias sabendo que não poderiam de fato participar da fase principal do torneio.

O que parece existir é uma proibição velada. Nada no regulamento chega de fato a proibir a participação das jogadoras trans, mas pequenas barreiras foram sendo levantadas para dificultar o acesso delas ao torneio. 

Quando a empresa se justifica afirmando que essas medidas são preventivas, para evitar problemas em Dubai, como descrito no regulamento, há de se convir que a legislação dos Emirados Árabes não é diretamente aplicável no Brasil. Em vez da organização abordar de forma clara o regulamento das finais em Dubai como algo que poderia gerar transtornos, ela parece ter criado transtornos para que as participantes trans sequer integrassem as etapas nacionais.

Uma das jogadoras chegou a comentar que a BBL deveria ter um regulamento que permitisse substituições de membros na equipe em caso de problemas e imprevistos (ou ida a Dubai), tentando ser compreensiva com relação à documentação das trans, o que de fato abriria um precedente para a inclusão.

É importante inclusive ter em mente que, ainda que não haja legislação específica sobre o tema no Brasil, o STF já firmou o entendimento tanto a favor da autodeterminação de gênero com a possibilidade de retificação de registro sem necessidades de procedimentos cirúrgicos, quanto recentemente equiparou a homofobia ao crime de racismo.

Somos o país com o maior número no mundo de mortes de pessoas trans. É importante ter isso em mente também.

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Sabendo que esse é o primeiro torneio exclusivamente feminino de LOL e CS:GO no país, é compreensível que ele não seja um evento isento de falhas ou imprevistos. Mas com base nos relatos das participantes, é difícil pensar no torneio como algo que incentive, represente e inclua mais mulheres no cenário dos jogos competitivos, sendo que desde as fases preliminares do evento ocorrem situações que colocam as participantes em circunstâncias desagradáveis, excludentes e discriminatórias. A impressão que ficou para as entrevistadas é que a organização do evento desconhecia em absoluto a realidade das jogadoras no Brasil, criando inclusive um ambiente que privilegiava umas em detrimento de outras. Como se apenas replicar um modelo de um torneio que já é considerado excludente e injusto pudesse dar certo em um torneio voltado especificamente para o público excluído do cenário mainstream.

As reclamações dos times que nos deram entrevistas podem ser sumarizadas aqui: como um evento que diz incentivar mulheres mas que duvida de suas capacidades; que clama representatividade e empoderamento mas que demonstra machismo e discriminação; que se diz inclusivo mas só para mulheres cisgênero; que diz proporcionar um ambiente seguro mas às custas de procedimentos que só mulheres são obrigadas a fazer, pode ser “inspirador” ou “diversificado”?

Como um evento que clama por diversidade e inclusão é organizado prevendo sediar as finais de um campeonato exclusivamente feminino em um país que não só discrimina mulheres mas que criminaliza e mata homossexuais?

Apesar de tentar transmitir a imagem de país acolhedor e destino turístico para o resto do mundo, Dubai possui uma legislação retrógrada e um amplo histórico de encarceramento arbitrário de estrangeiros. Coisas como tirar fotografias, encostar em alguém ou dividir um quarto com uma pessoa do gênero oposto sem ser casado com ela podem te fazer ir pra cadeia.

O desembargador aposentado Vladimir Passos de Freitas, em texto para o Conjur, explica mais sobre o assunto e dá outros exemplos do tratamento discriminatório de gênero existente no país:

Mulheres podem dirigir automóvel, estudar e participar da vida acadêmica, trabalhar em órgãos públicos e o adultério não é mais considerado crime. Todavia, seus depoimentos em processos criminais valem a metade do depoimento de um homem. […] A pena de morte é aplicada em determinados casos, [a homossexualidade] é crime punido com até 10 anos de prisão em Dubai (artigo 177 do Código Penal), viver juntos sem casamento é proibido, trabalhadores estrangeiros que contraiam hepatite, tuberculose ou AIDS têm o visto cassado e são deportados para os seus países.

A iniciativa de formar mais grupos femininos e incentivar o cenário exclusivo de jogadoras competitivas é algo, como já afirmamos anteriormente aqui no site, louvável e importante. Mas quando o ambiente que deveria ser seguro e acolhedor se torna excludente e tóxico, as opções que sobram para jogadoras profissionais ou aspirantes são quase nulas.

Esse tipo de situação é um exemplo dos motivos que afastam as mulheres do cenário competitivo. Se nem mesmo dentro de um evento exclusivamente feminino as mulheres estão seguras de sofrer constrangimentos, quem dirá em torneios dominados majoritariamente por figuras masculinas – acompanhados do fandom incrivelmente abusivo e tóxico típico de jogos competitivos, em especial o de League of Legends.

Para exemplificar, durante a produção desta matéria, a título de curiosidade, resolvi pesquisar em um fórum brasileiro de LoL sobre esses campeonatos, e encontrei um post de um usuário perguntando especificamente por que não existiam tantas mulheres nos campeonatos de LoL. As respostas, reproduzidas abaixo, traduzem o pensamento corrente geral do fandom:

Com alguns lapsos de sanidade, vez ou outra e felizmente:

Também vale lembrar que a Riot é alvo de uma ação e investigação judicial por discriminação de gênero. No cenário comentado pelas jogadoras, fica ainda mais complicado esperar a tão sonhada “igualdade de gênero” nas competições.

Convidados a comentarem sobre as denúncias, a BBL não se manifestou até o horário de publicação da reportagem.


Leituras complementares: 

MEDIUM, The complexities of being a female gamer.

RADAR FEMININO, Gamers mulheres enfrentam mesmas dificuldades que no mundo corporativo.

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