Uma análise sobre a sexualidade e fluidez de gênero de Loki nos quadrinhos

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Afinal de contas como o Loki se identifica sexualmente?

Esse artigo foi publicado originalmente no site ilikecomicstoo.com em 2013, antes do lançamento de Loki: Agente de Asgard e discute os antigos planos do escritor Al Ewing para a série e o passado do personagem no universo da Marvel naquele momento.

Será que Loki luta pelos dois times (ou por todos eles)? Ele não era casado? Ele realmente se transformou em mulher uma – duas – infinitas vezes? Essas respostas e um pouco mais (possivelmente) serão respondidas durante essa aula de história sobre o nosso deus traiçoeiro preferido <3

*** O texto contém spoilers sobre as séries Siege, Journey into Mystery e Jovens Vingadores da Marvel ***

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Preparadas para a discussão? Então vamos lá!

Loki é a estrela de sua própria série de quadrinhos intitulada “Loki: Agente de Asgard” e em breve ganhará uma série exclusiva da Disney+, como já noticiamos. Porém, a grande discussão entre fãs do personagem começou pouco antes do lançamento dos quadrinhos. Questionado sobre a sexualidade do personagem, o escritor Al Ewing declarou:

Sim, Loki é bi e eu vou tocar nesse assunto. Ele vai mudar de gênero ocasionalmente também.

Essa declaração acabou criando três grupos de fãs separados por sua reação à fala:

  1. Não! Loki sempre foi hétero! Não quero!
  2. Caramba, eu sempre soube disso! Quero muito!
  3. Parece que é uma forma barata de promover a obra e uma péssima representação de bissexualidade e possivelmente da fluidez e gênero. Não sei se vai prestar.

Então, que tal debater cada um dos argumentos e de quebra aprender um pouco mais sobre o personagem?

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Loki’s Children, da artista Sandara

1 – “Loki sempre foi absoluta e completamente hétero.”

Bem, sim e não. Apesar de os relacionamentos de Loki que conhecemos das séries anteriores terem sido com mulheres, ele nunca foi um celibatário estilo Capitão América com relação a sua sexualidade. Vejamos:

Loki é, nos quadrinhos da Marvel, o pai biológico de Fenrir (um lobo gigante) e Jordmungand (uma cobra gigante). Ele teve esses filhos com outro transmorfo como ele, mas só Valhalla sabe o que ele teve de fazer para conceber as criaturas… De forma similar, o mito nórdico que inspira a maior parte de sua história diz que ele se transformou em uma égua para “produzir” a montaria de Odin, o cavalo de oito pernas, Sleipnir. Não estou de forma alguma sugerindo que isso tem algo a ver com bissexualidade, mas levando em consideração que ele não é muito “dentro da casinha” com relação a isso, seria meio inocente imaginar que ele seria exclusivamente interessado por mulheres. Ele é um cara muito, mas MUITO mesmo, cabeça aberta…

Ao mesmo tempo, Loki é um personagem que utiliza o sexo mais como uma arma do que como algo por prazer, o que torna ainda mais difícil querer colocá-lo dentro da escala de Kinsey. Vocês sabiam que ele é casado? Sim, casado! É claro, ele enganou a deusa Sigyn para fazê-la se casar com ele e ele não poderia ligar menos para ela. É sério, ele foi algemado a ela como punição por causa disso. Mas ela não é mais mencionada nos quadrinhos hoje em dia, mesmo depois de Ragnarok, o que nos faz imaginar que ela já era. Loki nunca foi um marido amoroso de qualquer forma.

Além disso, ele não mantém qualquer contato com as mães de seus filhos. De fato, o único motivo que o levou a ter filhos foi a possibilidade de forjar alianças políticas com suas mães. A única prole que ele mantém algum contato é Hela, pelo fato de ser rainha de Hel e poder ajudá-lo a mexer alguns pauzinhos. Todos seus filhos nasceram por conveniência e não como produtos de afeto ou luxúria. A atração de Loki por mulheres sequer pode ser tratada como algo certo. Sua atração por qualquer sexo é algo contestável. Ele poderia ser considerado assexual, em certos momentos.

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sim, isso aconteceu nas comics

2 – “Loki sempre foi bissexual.”

Apesar de não ser difícil acreditar nisso, é um pouco difícil afirmar de forma categórica que seja verdade. Seus interesses não são simples. Ele por exemplo, já colocou Thor em um vestido e meio que flertou com ele. Esse tipo de coisa não indica bissexualidade, também. Ele também tem uma certa fixação por se transformar em mulheres, e um bom exemplo disso é quando ele pegou emprestado – tá, roubou – o corpo de Sif. Ele também já se transformou na Feiticeira Escarlate para beijar um cara, etc, etc. Você pode apontar esses exemplos com um indício de sua fluidez de gênero, mas ainda que ele tenha mudado seu corpo (por fora), nada indica que ele tenha mudado seu gênero (como ele se sente por dentro), e ele sempre fez isso apenas para manipular os outros. Eu até gostaria de afirmar que ele o motivo pelo qual ele sempre faz isso é porque ele realmente gosta, mas não dá pra afirmar com certeza. Talvez tenhamos que aprender um pouco com a série de Ewing.

Mas o argumento aparentemente mais sólido é o de que Loki vem de um mundo onde, por tudo que sabemos, não impõe os padrões heteronormativos que a Terra impõe. Ele é um deus/alien/alguma coisa do tipo de um plano completamente diferente da existência. E não consigo me recordar de qualquer evidência de que os Asgardianos fossem fechados à ideia de lutar por vários times, então é bem possível que ele o faça.

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Loki transformado na Feiticeira Escarlate.

3 – “Isso é tudo uma estratégia de mercado e/ou uma representação falha da bissexualidade e/ou de indivíduos com fluidez de gênero.”

Em termos de má representação de uma população real ou de transformar Loki em uma espécie de estereótipo de “vilão gay”, especialmente com a forma como ele se transforma em mulher apenas para manipular as pessoas no passado… Bem, eu entendo perfeitamente como é necessário tentar evitar misturar fluidez de gênero e bissexualidade. Especialmente levando em conta como ambos os grupos são subrepresentados nesse meio, sendo misturados com misoginia, manipulação e outras coisas nojentas. Mas ainda que ele seja bissexual e com fluidez de gênero, o que não podemos afirmar de forma categórica, isso não necessariamente deve ser algo ruim. Nós sabemos que uma divindade fictícia não representa um grupo de pessoas.

Existem heterossexuais que fazem coisas ruins (como o abusivo Hank Pym), há homossexuais que fazem coisas ruins (como a personagem Man-Killer, cuja caracterização é ridícula e o nome foi bizarramente traduzido como “Feminista”), e até personagens bissexuais que fazem coisas ruins (como Akihiro). Por outro lado, há personagens heterossexuais (ou que assumimos que sejam) que fazem coisas boas (como o Super-Homem), homossexuais que fazem coisas boas (como o Estrela Polar) e bissexuais que fazem coisas boas (como Prodígio). Não é necessariamente ruim ter essa diversidade nos quadrinhos, apesar de ser necessário não haver uma concentração de personagens bons ou ruins em apenas uma posição no espectro sexual. E isso, infelizmente, não costuma acontecer.

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Loki mudando de formas em Jovens Vingadores

Apesar de todo esse material ser dos quadrinhos anteriores, dá uma ótima noção sobre a história de Loki. Na versão especificamente desenvolvida por Al Ewing, o personagem bissexual, estamos falando sobre o mesmo apresentado em “Os Jovens Vingadores”. Então, recapitulando, podemos falar o seguinte:

Loki era um babaca durante Siege. Ele fez umas coisas horríveis. Próximo do final da história, porém, ele se arrependeu e ajudou os mocinhos. Ainda assim ele morreu.

De alguma forma, ele retornou, mas exatamente porque é isso que o Loki faz! Ele reencarnou como um garotinho que se lembrava de muito pouco de quem era em Journey into Mystery. Ele era uma nova pessoa que tentou fazer escolhas melhores. Ele não queria ser aquele Loki que todo mundo odiava. Essa era a ‘nova personalidade de Loki’.

É claro, muitas coisas aconteceram e a ‘personalidade do Loki antigo’ – de antes de Siege – acabou tomando o corpo de Loki, apagando a ‘nova personalidade de Loki’ que havíamos começado a amar. Então, agora o velho Loki tem um novo corpo, ainda que a ‘nova personalidade’ apareça raramente como uma espécie de consciência.

Em teoria, isso soa horrível, mas Loki está indo bem até agora. Ele parece sentir culpa e ter algum sinal de empatia. Ele ajuda seus amigos mesmo não ganhando nada com isso. Ele é parte de um time que se esforça para fazer o bem.

Além disso, ele está cercado por companheiros queer (Wiccano, Hulkling, Prodígio, Miss America), então qualquer hesitação que ele poderia sentir sobre experimentar ou sua própria sexualidade pode ser reduzida. Ele quer de alguma forma, crescer e mudar, o que abre a oportunidade para que os autores introduzam novos elementos em sua personalidade (inclusive relativos a sua sexualidade), que jamais veríamos anteriormente de forma natural. É menos uma tática de mercado e mais um desenvolvimento de personagem.

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O novo Loki e seu time nos Jovens Vingadores

Citando Cecil Baldwin, voz do popular podcast “Welcome to Night Vale”:

Ser gay não é um ponto da história. Não é um objeto que você pode dizer ‘Olha, temos um personagem gay! Isso não é ótimo? Não somos incríveis?’. Isso é parte de uma pessoa e deve ser tratado como tal. Deveria ser apenas uma faceta de um personagem e não a descrição definitiva daquele personagem. E eu espero que nós consigamos, através da escrita e desse trabalho, alcançar esse equilíbrio, para que o público aprenda um pouco mais sobre [nossos personagens], independentemente de sua sexualidade, mas em adição a esta sexualidade.

Então, desde que o trabalho seja bem feito, eu pergunto: por que não?

Nos anos que se passaram desde a publicação do artigo original, a Marvel anunciou uma “light novel” para jovens adultos e uma série televisiva anunciando Loki. MacKenzi Lee, a autora da novel twittou em 2017 que Loki é “um personagem canonicamente pansexual e com fluidez de gênero”. Além disso, temos diversas linhas de história e painéis demonstrando Loki e a fluidez de seu gênero.

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Bem interessante, né?


Fonte: TheMarySue | (imagens: Marvel Comics)

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).