Turma da Mônica e empoderamento feminino: sobre a polêmica do “meu corpo, minhas regras”

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Detalhes sobre como a Mônica evoluiu e se empoderou no Turma da Mônica Jovem!

Este ano, em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres, a Mauricio de Sousa Produções criou a campanha #DonasdaRua, tendo como representantes oficiais a Mônica e a Magali, na intenção de fazer com que garotas leitoras dos quadrinhos fossem incentivadas a criar autoconfiança e autoestima.

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Um dos objetivos principais dela era permitir que essas garotas tomassem as personagens dos quadrinhos como exemplos para acreditar em seus próprios sonhos e capacidades. No site oficial da Turma da Mônica, Mônica Sousa – personagem em quem a Mônica dos quadrinhos é inspirada, filha do criador e diretora executiva da Mauricio de Sousa Produções –  falou um pouco sobre a campanha, que virou um projeto super bacana:

Desde sua criação, Mônica é um exemplo de que as meninas (e as mulheres) devem ter seu espaço garantido na sociedade sem aceitar nenhum tipo de maus-tratos ou violência. Com o projeto Donas da Rua queremos reforçar a autoestima das meninas e a defesa de seus direitos, algo que faz parte do DNA da nossa Turminha desde o princípio.

O projeto, tendo uma das principais plataformas de interação um site colaborativo no qual as leitoras e fãs do gibi poderão enviar depoimentos em texto ou vídeo contando como e por que se sentem empoderadas, foi inspirado no trabalho da ONU Mulheres (Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres), organização que a Mauricio de Souza Produções recentemente se tornou signatária, orgulhosamente compactuando com o trabalho que visa, entre outras questões, eliminar a discriminação contra mulheres e meninas. E esse na verdade é só um dos exemplos que demonstram o empenho da empresa em fazer com que os quadrinhos se alinhem cada vez mais com a visão de mundo onde mulheres têm a autonomia sobre si mesmas e sobre suas decisões de vida.

Esse alinhamento também foi demonstrado no gibi nº. 94 da Turma da Mônica Jovem, intitulado “Dentuça, Eu?”, no qual a Mônica está se decidindo entre colocar um aparelho odontológico ou não. Como seus dentes são uma característica marcante desde sempre, os amigos de Mônica se acharam no direito de opinar por ela o que seria mais interessante fazer ou não. Indignada, Mônica repreendeu os amigos e afirmou convicta de que a única que poderia decidir sobre qualquer coisa em seu corpo era ninguém mais que ela própria.

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Que a Mônica é forte e dona de si, todo mundo já sabe. Mas que essa cena no gibi gerou uma polêmica enorme na internet, ainda que recebida por muita gente de forma bastante positiva, foi algo surpreendente. A frase “Meu corpo, minhas regras” foi retirada maldosamente de contexto e utilizada para espalhar o boato que a Maurício de Sousa Produções e a personagem Mônica eram a favor do aborto – e isso resultou em uma revolta nas redes sociais. Após a repercussão do caso, a roteirista Petra Leão sofreu diversos ataques na internet, inclusive com cunho extremamente machista. Nós do Garotas Geeks não queremos ficar caladas diante disso. Quem é leitor regular do site sabe que nós somos totalmente favoráveis às discussões que envolvam o empoderamento feminino, à aceitação do feminino no meio geek sem discriminação, do girl power. Então achamos que seria ótimo fazer um post explicativo e bem didático pra mostrar o quanto essa campanha e essa conscientização de empoderamento faz sentido e que não tem nenhuma infância correndo perigo de ser estragada, muito pelo contrário.

Senta que lá vem textão!

Quando se avalia bem, é fácil perceber como as coisas que envolvem o mundo infantil criam modelos identitários que podem acabar contribuindo de forma positiva ou negativa para a criança. Mesmo nos gibis da Turma da Mônica, existem normas sociais implícitas na leitura que são absorvidas. A utilização de determinadas cores, as formas de dividir os quadrinhos, os hábitos presentes nas histórias e os diálogos entre os personagens são exemplos de como tudo pode gerar uma determinada visão sobre determinadas situações.

Como grande parte das crianças brasileiras, muito da minha infância foi rodeado de gibis da Turma da Mônica. O tempo passa, a gente amadurece e muitas coisas passam a ser vistas pelos nossos olhos de maneira mais crítica – e os gibis de Mauricio de Sousa não são uma exceção. O que, claro, também não quer dizer que a crítica seja totalmente negativa: gosto de balancear bem as coisas sem me deixar levar por sentimentos que podem me fazer menos imparcial, como o “nostalgismo”. Mas é natural que as pessoas mantenham vínculos fortes com coisas que foram fonte de diversão na infância e a tendência é que essas coisas sejam mesmo defendidas com unhas e dentes. No entanto, ao menos para mim, é impossível não notar um ou outro ponto que eu gostaria que fosse melhor nas histórias. E tento sempre desenvolver isso como uma forma de crítica positiva aos gibis, com argumentos que tenham lógica, no mínimo. Afinal de contas, quem não olha para seus trabalhos do passado e tenta melhorá-los e desenvolvê-los da melhor forma possível com a visão de mundo que se construiu até hoje? Esse processo também é natural e, na verdade, bastante saudável.

Dito isso, é bom relembrar que a Mônica surgiu em meados dos anos 60, época em que as mulheres começaram a conquistar seu espaço na sociedade. Desde as primeiras tirinhas, Mauricio já questionava a ideia de a mulher ser definida como sexo frágil – e isso se refletiu na personalidade forte da Mônica e em como ela serviu para quebrar vários estereótipos femininos. O que antigamente era motivo de resistência (os gibis da Mônica chegaram a ser proibidos no Japão muitos anos atrás, provavelmente porque uma menina que sai batendo em meninos seria considerada “prejudicial à moral e aos bons costumes”), hoje ganha o status de expectativa social: os fãs da Mônica até mesmo se ofendem com perspectivas em que a Mônica não demonstre ser sempre uma personagem forte e inabalável.

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Quando postada nas redes sociais, esse teaser da graphic novel da ilustradora Bianca Pinheiro gerou reações negativas sobre a protagonista aparentemente não reagir bem aos insultos comuns dos gibis.

Quando se fala de expectativas sociais, não é difícil perceber que o pensamento da sociedade muda com o tempo. Questões como o bullying, discriminação ou mesmo questões relativas a gênero, que até pouco tempo não eram debatidas a fundo, hoje encontram grande espaço de discussão dentro da sociedade, sobretudo nas redes sociais. E as histórias em quadrinhos, como formadoras de opinião e meios de entretenimento midiático, devem acompanhar esse desenvolvimento da sociedade. E mesmo histórias em quadrinhos infantis não fogem dessa regra: nos gibis da Turma da Mônica, são comuns as cenas em que a Mônica é ofendida de maneira machista (ataques envolvendo aspectos físicos, orientação sexual, vida sexual ou condição mental de uma mulher são de cunho machista) e também são comuns as cenas em que a Mônica devolve a violência verbal com violência física. E é de amplo conhecimento que não é a violência que resolve o problema do bullying ou qualquer um dos problemas acima citados, tanto é que os “planos infalíveis” continuam sempre.

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Entendam que não estou defendendo que as crianças deixem de ler os gibis, não é preciso proibir, mas contextualizar. A partir daqui, chegamos no ponto chave do assunto: A Mônica fez parte desse desenvolvimento social e passou de uma garotinha que respondia opressão com violência para uma adolescente ciente de seus direitos e segura de si, capaz de enfrentar seus problemas de forma madura e razoável.

Esse amadurecimento se deu não apenas por fatores sociais, mas também graças ao público a que a obra se destinava, afinal Turma da Mônica Jovem não é uma historinha infantil, mas sim direcionado a um público de jovens e adolescentes, principalmente. E este público tem capacidade de lidar corretamente com a abordagem de questões que exigem mais maturidade, como o “primeiro beijo”, as mudanças físicas e psicológicas que um jovem experimenta na adolescência e por que não, a emancipação feminina! É óbvio que a revista não pode ter uma abordagem política profunda sobre o assunto, mas é também parte de sua responsabilidade social conscientizar o seu público sobre questões relevantes na vida de uma adolescente, como a própria aceitação e o domínio sobre o próprio corpo.

Atacando diretamente o centro da polêmica, essa forma mal intencionada de tirar a frase “meu corpo, minhas regras” do contexto e botá-la unicamente como contexto em defesa do aborto pode ser resumida em um problema só: é a famosa “falácia do espantalho”. Falácia do Espantalho é aquele argumento em que a pessoa ignora a posição do adversário no debate e a substitui por uma versão distorcida, que representa de forma errada esta posição. A falácia existe quando a distorção é proposital, de forma a tornar o argumento mais facilmente refutável, ou quando é acidental, quando quem usa a falácia não entendeu o argumento que quer refutar. Nesse caso em específico, a falácia ocorreu quando quem utilizou a frase “meu corpo, minhas regras” tentou fazer essa expressão ser uma bandeira que “defende a prática do aborto” (e o fez de forma claramente desonesta por saber que a questão do aborto é polêmica e controversa) – quando na verdade a expressão tem um significado muito além da descriminalização do aborto: significa que a mulher tem o direito de se vestir da forma como quiser, se portar da forma como quiser, que não é propriedade de ninguém, que ninguém tem o direito de agredi-la fisicamente ou verbalmente ou ainda determinar o que ela pode ou não fazer, que a ela cabe viver a sua sexualidade como bem entender, que a ela cabe decidir como vai dispor de seu corpo e da sua imagem ou com quem ou como vai se relacionar, que mulheres não são produtos e portanto não podem ser tratadas como mercadoria, isca para atrair homens, moeda de troca ou prêmio, que mulheres não podem sofrer mais violência, ser mais discriminada ou ter menos direitos e ser considerada menos gente por causa de seu gênero  – uma visão de mundo que é logicamente aceitável!

Ademais, o Garotas Geeks entrou em contato com a Mauricio de Sousa Produções e recebeu uma nota informando o posicionamento da empresa a respeito:

Em mais de 50 anos de publicações, nunca a Mauricio de Sousa Produções entrou em questões como a do aborto, justamente por respeitar a diversidade de pensamento de seus leitores.

É uma pena que assuntos tão importantes como empoderamento feminino e o direito da mulher sob seu corpo e suas decisões ainda hoje sejam tratados de forma polêmica e muitas vezes de forma maliciosa. Achei inclusive engraçado a forma como a polêmica se espalhou, fazendo parecer como se a MSP quisesse implantar a ideia no inconsciente dos adolescentes – como se adolescentes não tivessem consciência própria, discernimento, capacidade cognitiva de argumentar e discordar ou ainda como se fosse ruim que todos os adolescentes aprendessem a respeitar mulheres e internalizar a igualdade de gênero. Fica aqui a minha dica para a próxima tentativa: não subestimem os adolescentes! Eles sabem e entendem muito mais do que vocês imaginam e ainda vão ensinar muito à essa parte velha, ultrapassada, conservadora e mente fechada da nossa sociedade.

Pra terminar com chave de ouro, reafirmamos para todas as garotas leitoras que sejam todas #donasdeseuspróprioscorpos, e como a campanha #donasdarua afirma:

“Seja sua própria heroína. Lute como uma menina pelo seu espaço. Pois as meninas fortes de hoje serão as mulheres incríveis de amanhã. Meninas para a frente. Afinal, somos todas #DonasdaRua” <3

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).