[Review] thomas was alone

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Sobre retângulos e sentimentos.

Mais um indie de peso para a lista de reviews aqui do site é acrescentado com Thomas was alone, game que serve como a prova concreta de que não é necessário investir milhões em desenvolvimento para fazer algo divertido e agradável, com uma história interessante e personagens cativantes.

O projeto iniciou como um jogo de flash em 2010 em uma Game Jam de 24 horas. Evoluindo semana após semana, como forma de estudo do alemão Mike Bithell (o mesmo que mencionamos aqui antes em “Volume”),  durante seu processo de aprendizado da Unity (engine para desenvolvimento de games), sua meta era fazer um jogo com bons pulos e personagens bem construídos. Thomas was alone deixa claro que os objetivos foram alcançados, apresentando personagens carismáticos e com personalidades fortes, combinando as características físicas com suas qualidades e defeitos, com os quais podemos nos identificar nas pequenas atitudes descritas pelo narrador Danny Wallace, o mesmo dublador de Shaun Hastings de Assassin’s Creed (o cientista chato que fica sendo sarcástico quando Desmond tenta puxar conversa).

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O plataforma 2D focado em puzzles desafia o jogador a chegar até os portais (formados pelas silhuetas dos retângulos) alternando de forma estratégica o controle dos quadriláteros coloridos, identificados por suas cores e nomes comuns de pessoas norte-americanas, como James, Chris e Claire. Dividido por fases breves (100 delas), a jornada de Thomas de conhecimento próprio nesse mundo desconhecido foca mais da experiência e na descoberta do que chegar no objetivo em si.

Referências a Portal e Skyrim

Referências a Portal e Skyrim

Trata da importância da amizade e do trabalho em equipe, refletindo diretamente em como nós, seres humanos, também somos dependentes das diferentes pessoas que entram em nossas vidas e nos completam, além de contar com algumas boas piadas ligadas ao universo geek: quem aí nunca ouviu falar que o bolo é uma mentira ou de flechadas no joelho?

História

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Thomas, um AI (inteligência artificial), inicia a história ao se tornar consciente no mundo dos programas de computador no qual ele existe, desenvolvendo a habilidade de ter esperança e gerando a expectativa de fugir desse universo para emergir em um novo mundo inimaginável. Fisicamente não possui características muito especiais, seus pulos são apenas “aceitáveis”, mas é um personagem essencial para auxiliar outros que precisam de sua ajuda.

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No caminho, encontra seus semelhantes, diferentes em formato e cor, com qualidades e defeitos distintos além sentimentos próprios, que compartilham do mesmo objetivo. O game foca nas relações interpessoais dos retângulos e suas interações, fazendo você se identificar aos poucos com cada um deles e pensar no seu papel no mundo.

Personagens

Em grande parte do jogo é possível controlar sete personagens principais e com características marcantes (aumentando perto do fim para uns 10 ou mais). São eles:

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Thomas – O protagonista vermelho que dá nome ao jogo. Ingênuo e heroico, não possui grandes qualidades ou defeitos, mas deseja ajudar a todos.

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Chris – O ranzinza pesado e baixinho. Egoísta, acha que pode se dar bem sem a ajuda dos outros (em especial de pessoas mais altas). Evolui muito após apaixonar-se a primeira vista por Laura.

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John – Retângulo amarelo esbelto, bastante amigável e que pula muito mais alto que os outros. Em contrapartida, fica facilmente preso em tetos baixos.

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Claire – Quadrado azul fêmea que boia na água, porém é pesada e lenta, não pula muito. É simpática e faz de tudo para ajudar os outros.

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Laura – A mais baixinha de longe e não consegue saltar bem, porém, faz os outros pularem muito quando estão em cima dela. Sofre de baixa estima, depressiva por sentir que todos a abandonam (ba dum tss).

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Sarah – Apesar de baixinha, a retângulo roxo possui pulo duplo (yeah!). Aparece também no DLC Benjamin’s Flight.

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James – Idêntico ao Thomas em estatura e habilidades, porém está sempre de cabeça para baixo (parece ser o doppelganger invertido de Thomas). Sofria Bullying antes dos eventos do jogo por causa de sua cor e seu problema de gravidade.

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Jogabilidade

Segue a linha básica dos jogos de plataforma combinados a elementos co-op single player e puzzles. Você deve utilizar as habilidades de cada um dos quadriláteros – em conjunto ou não – para ultrapassar os obstáculos encontrados no caminho e chegar até o ponto dos portais com as silhuetas específicas para cada uma das formas, que ficam brancas quando certas as posições. É muito simples e não exige grandes façanhas do player.

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A cada level são adicionados desafios maiores, aumentando aos poucos a dificuldade. Os personagens controláveis são mostrados no canto inferior direito da tela, e cabe ao jogador criar um jeito para passar cada uma das fases, não tendo exatamente só uma solução.

Arte

Quem aí chutou Mondrian como referência acertou em cheio. A estética minimalista (que lembra protótipos) de Thomas was alone parece sair diretamente de um dos quadros do artista Piet Mondrian, um dos cabeças do neoplasticismo – movimento artístico caracterizado pelas pinturas limpas formadas por cores primárias e formas geométricas básicas (claro que o movimento vai muito além disso, mas resumidamente essas são as formas mais notáveis).

Piet Mondrian, Composição com vermelho, amarelo e azul, 1921.

Piet Mondrian, Composição com vermelho, amarelo e azul, 1921.

As paredes do mundo são feitas de bordas pretas duras, iluminadas por feixes de luz que adicionam a sensação de massa e profundidade devido as sombras projetadas das formas. As cores foram cuidadosamente planejadas para que pessoas daltônicas também pudessem jogar e ter a mesma experiência e imersão que os jogadores com visão “saudável”.

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A música também parte do princípio clean, traduzindo bem a combinação da máquina (ambientando em sons eletrônicos o mundo de bytes) ligadas as notas sentimentais de piano, dando a característica humana. A composição ficou por conta de David Housden, feita a partir do método de criação procedural (são aqueles tipos de músicas mais experimentais geradas por softwareolha esse exemplo aqui para entender melhor).

Opinião pessoal: não foi uma trilha tão pegajosa e agradável a ponto de colocar para ouvir fora de contexto, incomodando um pouco se tocada alta nos fones de ouvido.

Extras

Colecionáveis

O jogo em si é curto, mas o que pode render algumas horinhas a mais é ir atrás dos colecionáveis para platinar o game. Confesso que mal tinha notado algo do tipo no jogo até ir na descrição dos troféus/achievements: os colecionáveis são pequenos quadrados pretos que se misturam com o background, quase imperceptíveis, espalhados a cada conjunto de fases – são 2 escondidos a cada conjunto de 10 fases, restando ao jogador descobrir em quais levels eles se encontram.

Exemplo do mini quadradinho ali em cima

Exemplo do mini quadradinho ali em cima

Uma colher de chá para quem está tentando achar faz tempo e não consegue – aí vão as fases onde se encontram os colecionáveis:

clique para ler ALERTA DE SPOILER:

Spawn (0.3 e 0.5)

Array (1.8 e 1.9)

Origin (2.4 e 2.9)

Associations (3.4 e 3.8)

Purge (4.4 e 4.8)

Invert (5.1 e 5.4)

Iterate (6.2 e 6.7)

Design (7.1 e 7.10)

Generation (8.5 e 8.10)

Y + 1, X + 1 (9.2 e 9.10)

Áudio com comentários do diretor

Uma das coisas mais bacanas e que combinou muito com o game como “passatempo” foi adicionar os comentários de Mike Bithell ao jogo. Você pode rejogar depois de um tempo, com o plus de algo novo, ouvindo o que o diretor pensou em cada momento de criação das fases e personagens. Nunca fui muito de ficar vendo filmes com os comentários da equipe, mas um jogo que nem ao menos falas dos protagonistas tem pode ser bem interessante 🙂

Esse extra está disponível desde a primeira instalação, nas opções.

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Benjamin’s Flight

O DLC (Conteúdo Adicional para Download) introduz Benjamin, um quadrado perfeito verde que, assim como os antigos AIs apresentados em Thomas was alone, desenvolveu uma das maiores façanhas em criações com inteligência artificial: esperança. Benjamin e seu pai verde-limão partem juntos em sua jornada para fora do sistema em busca da fonte do conhecimento.  O protagonista do DLC possui a habilidade de voar como se usasse um jetpack – com direito a fumaça e tudo. Aos poucos desenvolve a amizade com outros retângulos encontrados no caminho, como Anna e Sarah (participação especial da nossa “Double-jumper”)

Thomas Was Alone

Pontos Negativos

O game é realmente muito fácil. Não oferece quase desafio nenhum, tendo fases que, basicamente, você deve atravessar o cenário com todos, só. Chegou um momento que ficou tão automático seguir em frente, que a única coisa que realmente me prendia era a história e aquela coisa de “agora que comecei vou zerar”.

Alguns bugs bizarros podem ser aproveitados para seguir em frente, não tornando de forma alguma o game “intragável”.

Conclusão

Apesar da dificuldade baixa do jogo e sua curta duração, a sensação de dever cumprido está lá, nos deixando satisfeitos ao conhecer a história de cada uma das formas vivas presentes ali. Virei em uma sentada de aproximadamente 3 a 4 horas no máximo. Tanto pessoas mais “maduras” podem jogar pela história, quanto crianças pelos quebra-cabeças bons para o desenvolvimento de lógica.

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Interessada(o)? Você pode testar o demo agora mesmo baixando diretamente pelo site oficial, ou comprar em Steam (R$ 16,99) e Desura (R$ 24,18)  para WINDOWS e MAC, ou na PlayStation Store para PS3 e PSVita (em promoção por R$ 10,99 \o/) Tem também a versão para IPAD na Apple Store.

Já jogou? Então deixa nos comentários qual seu personagem favorito e sua opinião sobre o game! 😉

Quem escreve? Bruna

Estudante de Design de games/moda/gráfico, aspirante a ilustradora nas horas vagas e artista “faz-tudo” em desenvolvimento de jogos, é louca por qualquer coisa de terror e não dispensa um bom filme trash asiático para rir. Sonysta assumida (deixando o PC muitas vezes com ciúme) e persistente como uma pedra, se negando a jogar no modo easy – quanto mais difícil o jogo, mais viciante!