Review e teorias – Game of Thrones – The Queen’s Justice

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Saiba o que achamos do terceiro episódio da temporada 7

Depois de um episódio focado em brumas (leia aqui a crítica), e um focado em memória (clique aqui para saber mais), eu acredito que The Queen´s Justice é exatamente sobre um tipo de justiça. Talvez não exatamente a justiça que esperamos, mas um tipo de neutralidade de campos, que é muito necessária para a continuidade da série. Com a dança dos exércitos – que se movem mais rapidamente que a gravidez louca da Melisandre – parece-me que o objetivo desses primeiros episódios é nerfar a Daenerys Targaryen.

 

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Pede pra nerfar, noob

Se você não conhece essa nomenclatura largamente usada nos videogames, eu explico. Muitas vezes, quando um novo personagem é lançado em um game online, ele chega desbalanceado, forte demais. Se ele permanecer assim, as pelejas não terão a menor graça, como se sempre houvesse um único cavalo vencedor. Assim, depois de um pouco de testes, os desenvolvedores dão uma aparada nas pontas desse personagem. Quando Dany chegou no novo continente, ela tinha o apoio de duas casas gigantes de Westeros, um mão que nunca tinha falhado (a não ser em acreditar que a sua família seria decente com ele), dois exércitos especialistas em matar, e três dragões.

Como foi falado em mais de uma vez em três episódios, a briga de Rainhas já poderia ter acontecido, e Dany teria vencido. Daí, ela poderia pegar todos os exércitos do mundo com armas feitas de Vidro de Dragão, colocar atrás da Muralha, mandar os três dragões ficarem bem em cima da construção atirando fogo, e pronto. Quase todos vivem felizes para sempre: um fim um pouco tedioso e injusto para todo mundo que acompanhou a história até agora.

Veja bem, se você está concordando com meu pensamento, Dany ainda terá que ser um pouco mais nerfada para que todos os lados tenham uma chance real de vencer, talvez não pela Cersei, mas pelos amigos gelados da Terra de Sempre Inverno.

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Jonerys: Orgulho e Preconceito

Além disso, realmente Daenerys não tinha nenhuma necessidade de criar um vínculo com Jon, caso ela não tivesse perdido aliados. O primeiro encontro de Jonerys (sim, eu acho que vai acontecer, mesmo que não seja o meu encontro mais favorito do mundo) foi lindamente gravado, mas com alguns problemas de diálogo, na minha opinião. Jon e Tyrion continuaram amigos, e isso é incrível, a lembrança da Sansa também, os dragões aparecerem foi igualmente divertido, assim como o bate-boca de Tyrion e Davos; mas a troca entre Jon e Dany ficou um pouco travada.

Quiçá, essa troca tinha dois propósitos: mostrar que os dois são mais parecidos do que eles imaginam, e revelar que um futuro bom casal começa em pé de igualdade. Contudo, acho que a arrogância de Daenerys e a falta de articulação de Jon Snow foram um pouco além de conta, me senti em um remake medieval de Orgulho e Preconceito (Jane Austen), mas sem a genialidade das falas. No final das contas, ambos acabam um pouco com seus egos inflamados e com seus preconceitos com as famílias alheias para tentarem trabalhar juntos. E sim: a fórmula desse livro tende a funcionar.

Espero que, para episódios futuros, as conversas possam fluir sem a necessidade de uma pompa, ou então, que a tensão seja criada com mais de um recurso. E adoraria ver a reação de Jon perto de um dos dragões, afinal, como ele mesmo colocou “ele não é um Stark”. Claro que assistir à essa tão esperada reunião é recompensador, e talvez, por conta da espera, seja mais complicado criar uma cena que pudesse atender cem porcento às expectativas do hype. No geral, é um bom indicativo que Tyrion, Jon e Dany estejam juntos pela primeira vez.

E, depois de juntar dois Targaryen, Melisandre disse que iria para Volantis, um dos locais de Essos em que existe um templo para o Senhor da Luz. Acredito que não veremos a cidade, o que é uma pena, mas que isso seja apenas um artifício de roteiro: vou tirar essa personagem daqui agora, mas ela retorna quando for preciso. Uma das cenas que me lembrei foi de Arya e Melisandre, quando a feiticeira comentou que encontraria a garota novamente. Ou seja, pode muito bem ser que a sacerdotisa vá para o norte na próxima temporada.

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Os Lannister versus o mundo

Enquanto o plano de Tyrion não funciona, o de Cersei vai muito bem, obrigada. Acho importante que o conselheiro da Daenerys não seja infalível, nem que a Rainha coroada por ela mesma fique para sempre bêbada e estranha (nesse episódio, ela tomou uma taça de vinho só, por exemplo). Contudo, a temporalidade acelerada pode causar um pouco de estranheza àqueles que estão assistindo: como aquela armada Gyejoy foi parar por lá tão rápido? Como Bran chegou antes do corvo avisando que ele estava rumo ao sul?

Eu entendo que um tanto de mistério é importante para criar momentos épicos, contudo algumas explicações ajudariam a amarrar a temporada. Por outro lado, as referências à episódios antigos adicionam uma camada de memória que faz que com acreditemos naquele mundo. Essa imersão não é perdida no episódio, e muito disso se deve à atuação, que foi divina em The Queen´s Justice.

A cena entre Ellaria, sua filha, e Cersei foi um exemplo disso: o tema da punição (ou do crime e castigo) humaniza todas as personagens. Foi a ambiguidade que fez com que elas se tornassem personagens fortes, e perceber as emoções que foram trazidas à tona ajuda a nos colocar mais perto de cada uma delas. Nesse ponto, todos estavam realmente sensacionais, de Euron rockstar passeando pelas ruas próximas ao castelo, ao rosto de tristeza e resignação de Yara (até mesmo à perda total de respeito que vemos dos Greyjoys sobreviventes ao Theon).

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Da neutralidade à intimidade

Muito pode ser explicitado com o olhar, e esse episódio nos mostrou exatamente isso.Por um lado, os reencontros podem não ser tão doces, como foi o caso de Sansa e Bran. Bran, que não é o mesmo Bran, mas se tornou uma figura quasi-mítica, não pôde reconfortar a irmã, nem mesmo quando tentou a alentar.

Às vezes, a recompensa não é o que se espera, como ficou claro com Sam (que ainda deve achar algo naqueles pergaminhos), e com Verme Cinzento. As batalhas que lutamos nem sempre são aquelas que esperamos.

E, em casos raros, há vitória inclusive na morte, como demonstrou Olenna. A satisfação no olhar dela ao contar seu segredo ressoou em mim, ao ponto de meu rosto imitar aquele pequeno sorriso (talvez, o seu também tenha feito isso). São nesses momentos (na segunda cena entre Jon e Dany também) que os pensamentos internos dos personagens parecem escapar sem querer por seus olhos, que esse terceiro episódio excedeu minhas expectativas. O que iniciou tentando mostrar uma justiça neutra, acabou reforçando a intimidade entre as figuras daquele mundo – e nossa afinidade com elas. Assim, espero que o futuro da temporada seja uma jornada para essa intimidade (e, claro, muitas mortes, sangue, e fogo de dragão).

Quem escreve? Flávia Gasi

Flávia Gasi é doutoranda e mestre pela PUC-SP. Lançou o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é colunista do IGN Brasil, escritora de videogames; CEO da Ni Game Content; professora; e tradutora. Defende a democratização dos consoles, direitos iguais no game e o direito de comer sucrilhos sem leite.