Review e teorias – Game of Thrones – Spoils of War

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Saiba o que achamos do quarto episódio da temporada 7

Os espólios de guerra são bem diferentes dependendo de qual seu papel na sociedade, e isso sabemos por diversos conflitos reais: geralmente os criadores de armas, bancos, e os vencedores prosperam, enquanto a maior parte da população não tem realmente nada a ganhar. Essa natureza dúbia de qualquer contenda é demonstrada em Spoils of War: seja focado em evidenciar os diversos lados de uma mesma grande batalha, seja em retornar ao pessoal, e mostrar que, sempre que ascendemos em batalha, também caímos, moralmente, de certa forma.

Esses duplos tomaram o quarto episódio de Game of Thrones em todas as cenas, para mostrar aquilo que motiva os personagens, e também os resíduos de suas decisões e as diversas faces das resoluções de seus antagonismos.

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Resgate e resquícios

Começando por Winterfell. A reunião de Arya e Sansa foi, certamente, mais amorosa e calorosa do que de Bran e sua família. As duas personagens sempre foram mostradas como as duas faces de uma moeda: o que é esperado de uma mulher no mundo de Westeros, e a liberdade para escolher, independentemente das pressões societárias. Assim, não tinham uma relação próxima. Contudo, se pensarmos na trajetória de ambas e nos fatores que as levaram de volta para casa, vamos perceber que uma teve que aprender com o ímpeto da outra, e vice-versa.

Arya passou muito tempo treinando com mestres, para ser aquilo que era esperado dela: uma garota que não é ninguém, enquanto Sansa teve que lutar por sua liberdade ao chegar àquela última volta do parafuso: o ponto sem retorno ao que você era anteriormente. Os remanescentes disso são muitos, e penosos. Elas não são o que eram no passado, mesmo que possam reconhecer, uma na outra, um tipo de resgate.

A cena de luta entra Brienne e Arya foi lindamente filmada e coreografada, e demonstrou bem não apenas como a garota é uma força a ser reconhecida, como também que o vazio entre Sansa e Arya ainda existe. De cima, Sansa permaneceu pensativa e introspectiva enquanto assistia à sua irmã demonstrar que realmente poderia destruir as pessoas de sua lista. Não acredito que introspecção seja necessariamente um indício de conflito, mas a percepção dos resquícios de guerras passadas.

Para aqueles que se perguntavam porque Arya não relembrou de Sylvio Fortel, vale comentar que ela continuou treinando em Braavos, mesmo local de onde seu antigo professor aprendeu a arte da espada. Assim, acredito que a referência a “ninguém” no final da peleja, seja à Casa do Preto e do Branco, e somente a ela.  Isso sem contar nas referências à episódios antigos, por exemplo, foi a segunda vez que Arya entrou em um castelo debatendo com os dois guardas do portão.

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Oráculo

Bran também não é mais o mesmo, Meera, inclusive, comentou que sua transformação foi mais densa: seu antigo eu se foi. Depois da cena na caverna, Bran ainda entrou seu tio Benjen e estava mais próximo de si do que do corvo, o que me leva a imaginar se o processo de se tornar um ser mítico ainda terá mais predomínios na personalidade de Bran-Corvo.  Spoils of War também me fez questionar o quanto ele pode ou não falar.  Parece-me ser uma posição complicada: se você é um ser oracular todo-poderoso, como pode comentar o que vê sem alterar destinos que não deveriam ser mudados? Como não influenciar no livre-arbítrio alheio?

E mais: a única pessoa que Bran realmente disse que queria conversar era Jon, será que o Corvo foi criado como uma arma contra os Caminhantes Brancos? Isso explicaria porque ele não se importou tanto assim com o fato de ver o assassino do pai (lembre-se de que Mindinho foi a pessoa que começou tudo) na sua frente.

Claro, alguma parte dele ainda se mistura com Bran, o que ficou claro quando ele praticamente ameaçou Mindinho usando uma frase que o artífice falou na terceira temporada (“Chaos isn’t a pit. Chaos is a ladder. Many who try to climb it fail and never get to try again. The fall breaks them. And some are given a chance to climb, they cling to the realm or the gods or love. Only the ladder is real. The climb is all there is”). A entrega da adaga à Arya me pareceu um presságio de morte, do Mindinho, claro. Depois de ver Brienne e Arya praticando, ele deve ter percebido que está cercado de inimigos perigosos.

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Jonerys: orgulho e preconceito, o retorno

Algumas coisas ainda me incomodam, como o banco de Braavos preocupado com escravos, mas a menção da Companhia Dourada pode agitar as coisas. Nos livros, existem diversos detalhes que não acredito que serão relevantes na série, o que você precisa saber é que a Companhia Dourada é uma organização de mercenários: a maior, mais famosa e mais cara delas, conhecida por nunca ter quebrado um contrato, e que foi fundada por um bastardo da casa Targaryen.

E, por falar em Targaryen, a dança do dragão de três cabeças continuou em Spoils of War. Tyrion parece ter perdido seu posto de melhor conselheiro ever, super topperson, e deve sofrer algum tipo de consequência disso em episódios futuros. E, por outro lado, Jon Snow começou a parecer um aliado bacana, mesmo que Jonerys continue na sua dinâmica de orgulho e preconceito (para quem curte detalhes, veja de novo a cena de conversa entre Mance e Jon, antes dele ser capturado, há muitas referências). Dany parece um pouco mais apegada à Jon, até mesmo adicionou um detalhe cinza, cor da casa Stark em sua vestimenta, mesmo que continue um pouco teimosa.

Quem mandou bem na conversa foi Jon, desde a cena que mostrou os desenhos das Crianças da Floresta até o seu conselho de guerra – ainda acho que deveria ter matado Theon, mas tudo bem. Acho que o processo de Jon, de um cara meio estranho para transudo, deverá se completar quando ele ficar amigo dos dragões da Rainha, afinal, ele é um Targaryen.

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Drogon, eu escolho você

Finalmente, tivemos aquilo que esperamos por muitos anos: Daenerys rainha destruindo tudo com um dragão em Westeros. Mas, antes de chegar na cena, alguns detalhes são interessantes. Primeiramente, Randyll Tarly é um maldito. Só queria reforçar isso. Seu cavalo branco e pomposo estava sem dono no final do capítulo, assim, torço por morte.

Além disso, a batalha deve ter acontecido muito perto do Campo de Fogo, aonde os reis Lannister e Gardener tentaram enfrentar as forças Targaryen pela primeira vez. Mas Aegon e suas irmãs tinham dragões, o que significa exatamente o que você imaginou. Uma das irmãs de Aegon, Visenya, tomou uma flechada no ombro. Muitos paralelos, não?

Por fim, Robert já tinha dito que apenas um tolo encontraria os Dothraki em campo aberto, Jaime, não adianta bater o pé.

Agora: a cena de batalha foi maravilhosa, não apenas pela tensão que causou quando a balista começou a ser usada, não apenas por mostrar soldados Lannister se transformando instantaneamente em pó, mas por colocar diversos ângulos em gloriosas telas avermelhadas. A começar que finalmente percebemos porque o conselho do Rei Robert tinha receio dos Dothraki, eles sabem o que fazem em campo aberto. Depois, porque vemos que Dany aprendeu a manejar Drogon, desviou de flechas, soube queimar o que era necessário (especialmente a comida). Ademais, sabemos que a balista é perigosa, mas nem tanto assim, e Dany precisava de algum tipo de vitória.

Jaime ainda tem um papel a cumprir, mas dará um belo prisioneiro (de novo), ou assim espero.

Quem escreve? Flávia Gasi

Flávia Gasi é doutoranda e mestre pela PUC-SP. Lançou o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é colunista do IGN Brasil, escritora de videogames; CEO da Ni Game Content; professora; e tradutora. Defende a democratização dos consoles, direitos iguais no game e o direito de comer sucrilhos sem leite.