Review e teorias – Game of Thrones – Dragonstone

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Saiba o que achamos do primeiro episódio da temporada 7

Os primeiros episódios de Game of Thrones geralmente marcam as peças do tabuleiro, relembram onde estão os personagens que queremos ver, e colocam as coisas em movimento. Na realidade, a parcela política e os diálogos do seriado são extremamente importantes, pois eles são o cerne de todo o fluxo entre protagonistas, locais e seus papéis em confrontos futuros. Em episódios onde a humanização dos personagens é misturada a uma ou mais cenas com um tanto de sanguinolência, temos o melhor dos dois mundos. E esse foi exatamente o começo da sétima temporada de Game of Thrones.

Arya e seus muitos rostos

Um tanto fora de sua tradição, a série iniciou com uma cena antes da conhecida abertura. E, caras (os), que cena. Nos livros, existe uma figura que pode ser considerada a personificação da vingança dos Starks contra os Freys (afinal, o Norte se lembra). Quando perdemos esse personagem na série, muitas teorias surgiram para discutir quem tomaria seu lugar, e, na minha opinião, a melhor delas era a hipótese de que Arya seria a metáfora perfeita da revanche. Como você pôde ver no episódio, a garota realmente cabe como uma luva nesse papel, e a cena trouxe berros animados do pessoal que assiste à serie comigo.

Ainda acho bem estranho e suspeito que ela saiu da Casa do Preto e do Branco viva depois de afirmar que não queria ser “ninguém”, mas seu treinamento lá valeu a pena. Inclusive, a versão assassina de Arya trouxe muitas dúvidas aos fãs: será que ela perdeu sua essência? Assim, uma das minhas partes favoritas de Dragonstone foi justamente aprofundar as relações e as visões que temos dos personagens, dos exércitos, e quais suas motivações.

A cena com Arya e os Lannisters cumpriu bem esse papel, além de adicionar uma camada de humor que pode nos ajudar a respirar em meio à tensão. Apesar de ser um momento bem interessante, achei que a aparição de Ed Sheeran foi um pouco longa demais – Game of Thrones deveria estar acima de personalidades que fazem pontas. Isso, claro, não tira o brilho da ocasião, contudo, ficou um pouco deslocado frente a outras pontas que o seriado apresentou até então. Devo dizer, também, que não esperava que a Stark fosse ao sul, e não ao Norte, mas ainda acho que ela pode mudar de opinião – por favor, me deem a reunião Stark que tanto anseio.

 

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A bruma que precede a tormenta

Brumas são misteriosas, pois turvam a nossa visão. Seu translúcido mais leitoso nos traz algo de desejo e algo de medo, pois você quase pode ver o que está por trás da neblina – e, ao mesmo tempo, você quer e não quer saber.  Apesar de já sabermos um pouco mais sobre os Caminhantes Brancos, eles ainda contêm uma boa aura de mistério – e as brumas que os precedem quase funcionam como a calmaria antes da tempestade. O fato de gigantes estarem em meio a seu exército pode indicar que coisas muito grandes podem seguir esse caminho.

Dragonstone foi cheio de foreshadows, ou seja, de indicativos do que está por vir. A tormenta pode muito bem ser a relação entre Jon e Sansa, que ainda está em brumas (eles, ao menos, estão conversando), mas onde espreita uma tempestade. Mindinho sabe disso, e deve se aproveitar das divergências entre os irmãos (ou primos). O problema é que, na situação em que eles vivem atualmente, ambos estão corretos.

Jon tem um quê de ingenuidade, mas ele agiu como um verdadeiro Stark ao não sobrepor nos filhos os pecados dos pais, e deixar viver as crianças Karstark e Umber. Claro, como colocou Sansa, ele deveria ser mais esperto, já que foi a honra de destruiu Ned Stark. Por outro lado, Ned morreu no Sul, onde a honra importa menos, enquanto foi considerado um ótimo líder no Norte. E sim, Jon deveria escutar Sansa, ela aprendeu muito, e certamente sabe melhor como discernir os próximos passos dos inimigos ao Sul – inclusive, adorei quando ela assumiu que aprendeu muito com Cersei. Por outro lado, Sansa também deveria escutar Jon, ele morreu sendo um líder, então ele certamente tem experiência no que não fazer.

Em Winterfell, Lyanna Mormont continuou sendo uma das mais personagens mais duronas da série, enquanto os Selvagens se tornaram aquilo que eles lutavam contra: a Patrulha da Noite. A oportunidade pode criar o ladrão, como dizem por aí, mas também pode criar homens e mulheres honrados, como apenas o Norte pode produzir. Inclusive, a ligação entre o Norte e o Sul, com a chegada de Daenerys também já foi estabelecida: Jon precisa de Vidro de Dragão, e a terra da Rainha tem isso em abundância.

 

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Uma muralha de gelo, um corvo, e um cão

Bran, que imagino que ainda esteja marcado pelo Rei da Noite, passou pela Muralha, e ela não caiu. Por que isso é importante, você me pergunta? Bem, a Muralha foi construída com a magia das Crianças da Floresta por Brandon Stark (o antigo, que também ergueu Winterfell), e diz que só pode ser derrubada também com magia. Se Bran carregando a marca não é o suficiente, imagino que algo bem maior terá de acontecer.

A Muralha, ademais, foi citada (ou mostrada) em quatro locais diferentes no episódio: na própria Muralha, por Sansa, por Cão e por Sam e o meistre dissecando o corpo. Se tomarmos por princípio o foreshadow, ela não deve durar até a próxima temporada – e eu espero que ela caia com pompa. O que nos leva à visão de Cão – em meio ao que achei o melhor núcleo do episódio. Sandor Clegane chegou a uma casa familiar, ele tinha assaltado a família que morava lá quando ainda protegia e raptava (tudo ao mesmo tempo mesmo) Arya. Quando avistou o lugar, sua personalidade defensiva veio à tona: enunciou profanidades, piadas, e todo o tipo de discurso agressivo, a fim de se proteger de si mesmo. Ele expos que é durão, que não acredita em nada.

Até acreditar. Essa é a questão da fé: você pode não ter fé em nada, e, repentinamente, ter. Como pode ter fé em tudo e isso desabar, até acreditar em nada. Na sua visão, ele disse ver uma muralha de gelo, os mortos passando no local onde a muralha encontrava o mar, em cima de uma montanha com formato de ponta de flecha. Essa visão pode significar mais de uma coisa, o Senhor da Luz não costuma ser literal quando fala pelas chamas, e geralmente a pessoa vê algum mais brumoso, enevoado. Então, vamos manter a mente aberta e pensar nas possibilidades dessa visão:

  1. Realmente o exército vai passar por uma montanha, provavelmente perto do castelo que os Selvagens estão indo defender. Acho uma teoria ok, porque se eles pudessem simplesmente passar em uma falha da Muralha, podiam ter feito isso durante a Longa Noite. Tudo bem, ela pode estar mais enfraquecida agora que as Crianças morreram, Bran passou por outro lado, etc. Pode acontecer, mas eu vou achar falha de roteiro (já deixo avisado). Olha: os mortos passam por aquela montanha que não conseguimos defender por conta desse pequeno erro na Muralha (zoom para uma casquinha saindo).
  2. Ele pode ter visto a Muralha misturada com a Terra de Sempre Inverno, e o local de moradia dos Caminhantes Brancos – e isso seria incrível. A montanha também pode ser a montanha de vidro de dragão que Sam citou.
  3. E, finalmente, ele pode ter visto um exército de mortos, e uma metáfora para outro morto-vivo – seu irmão, o Montanha. Eu torço para cleganebowl.

Isso sem contar a referência linda ao “gravedigger”, dos livros. Foram momentos que adorei demais.

 

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“Stannis me disse isso”

Talvez uma das cenas que rivaliza com a de Arya e a do Cão (vamos colocar que seria minha terceira favorita) é Sam em VilaVelha. Não apenas a montagem do dia-a-dia nojento do personagem me pegou de surpresa, como a conversa com o Meistre Horace Slughorn foi bem interessante.

O meistre colocou que é a memória que faz dos homens mais do que homens, e eu acredito que esse é um conceito muito importante para Game of Thrones: os livros, por exemplo, são do ponto de vista dos personagens, o que nos faz conhecer mais do que a história daquele mundo, mas as memórias que viveu nele. A série fez (e faz) um ótimo trabalho em adaptar exatamente isso – a maior parte dos heróis (e anti-heróis) têm motivos consistentes para fazer o que fazem, mesmo que sejam atrocidades. Os mapas mostrados no episódio (de Cersei e de Dany), e os locais onde eles estão, por exemplo, são mais do que decalques: contêm memórias.

Infelizmente, o núcleo terminou com uma inconsistência, em meu ponto de vista: Sam consegue entrar na sessão restrita apenas para descobrir o que ele já sabia. Claro, relembrar tem a ver com memória e isso é bem bacana, mas quando Stannis contou para Sam que existia uma reserva enorme de vidro de dragão em Pedra do Dragão, ele já tinha matado um Caminhante Branco. Ou seja, ele não se lembrar disso é um tanto esquisito.

 

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Euron versus Jaime. Round 1.

A montagem da passagem do tempo para Sam deixa claro que existiu um período entre as temporadas, mas será que tempo suficiente para edificar mil navios? Devo dizer que isso me incomodou um pouco no núcleo de Porto Real, contudo, a atuação descoladona de Euron Greyjoy me divertiu tanto, que resolvi deixar essa temporalidade estranha para lá. Depois da cena, fiquei com a sensação de que Lannisters e Greyjoys se merecem, deveriam todos casar e ter muitos filhotes. Euron daria respostas que poderiam ter saído da boca de Jaime, e vice-versa. E, nesse round, Euron venceu.

Fiquei intrigada com o presente que o Greyjoy quer levar para a Cersei, pois é simples pensar que seria Tyrion, ou algo tão grandioso quanto, mas esse feito seria bem difícil de acontecer. Talvez uma das Serpentes seja um pouco mais simples.

Enquanto ele parte em uma missão maluca, em que provavelmente ele será cruel e terrível (que são marcas do personagem nos livros), Jaime ganhou uma nova maturidade. Talvez seja porque apenas ele compreenda realmente o quão delicada é a situação dele e de seu novo aliado no momento, enquanto Cersei e Euron ainda agem por impulso. Eu imagino que a Rainha deve ter algo em sua manga, mas pode ser que seu fim esteja próximo mesmo assim.

 

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“Vamos começar?”

Por fim, as brumas também podem ser traduzidas em um tipo de silêncio que traz um ônus oracular, de quem sabe que as profecias serão cumpridas, no final das contas. Não a mudez completa, mas em uma contemplação serena que carrega o estampido do futuro com ela. Foi assim que li as cenas caladas, em que Daenerys, a nascida da Tempestade, tomou seus primeiros passos na terra que nasceu, e no castelo que lhe pertencia no passado. Ele estar vazio não é realista, mas é poético – como se ele clamasse e esperasse ser preenchido por a verdadeira monarca. Ela chegou. E agora, pode começar.

Quem escreve? Flávia Gasi

Flávia Gasi é doutoranda e mestre pela PUC-SP. Lançou o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é colunista do IGN Brasil, escritora de videogames; CEO da Ni Game Content; professora; e tradutora. Defende a democratização dos consoles, direitos iguais no game e o direito de comer sucrilhos sem leite.