Review e teorias – Game of Thrones – Beyond the Wall

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Saiba o que achamos do sexto episódio da temporada 7

Primeiramente, você deve ter notado que não tivemos nenhuma análise do quinto episódio aqui no blog Garotas Geeks. Isso aconteceu por conta da live e dos dois vídeos que gravei em parceria com a Mikannn, porque a Carol Moreira estava viajando. Você pode ver todo esse conteúdo aqui:

Pronto, agora podemos começar a falar de Beyond the Wall, e o primeiro tópico que eu queria ressaltar é da direção técnica – especialmente em fotografia – que foi espetacular. Todos os produtores e criadores de computação gráfica comentam que existe grande dificuldade com certo tipo de visuais e partículas, como o gelo. Claro, que a série se beneficia por realmente gravar em locais gelados, mas as cenas grandiosas (e maravilhosas) que vimos certamente tomaram um trabalho árduo e detalhista de grande parte da equipe técnica.

Dito isto, também vale comentar que alguns problemas de roteiro da série vêm se tornado cada vez mais aparentes ao decorrer da sétima temporada, e algumas núcleos eclodiram essas questões no sexto episódio. Não acredito, contanto, que seja um problema de roteiro específico desta apresentação, mas algo que, eventualmente, teria que aparecer, por conta de decisões passadas. Também acho que devemos os atentar àquilo que realmente é falha (ou uma construção malfeita) e àquilo que pode parecer falha, mas que faz sentido se tomarmos por base episódios passados.

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Sansa versus Arya, round 2

Assim, começamos com o núcleo de Winterfell. A primeira conversa entre Arya e Sansa foi esclarecedora, não em termos do que é verdade e o que é mentira para os espectadores externos à ação, mas que diz respeito à realidade interna das personagens. Arya voltou para casa para se encontrar com Jon, a quem ainda não viu, e descobriu um irmão morto, um ausente, e uma irmã, a que menos se relacionava, tomando conta de sua casa. Até mesmo para uma garota treinada em assassinato, o choque emocional ainda é muito: ela vê na irmã a morte do pai. Não porque Sansa necessariamente causou a problemática da família, mas porque elas viveram o acontecimento de locais distintos.

Claro que isso não faz com que o discurso de Arya seja coerente, a paranoia raramente é: ela se funda em algo verdadeiro, e depois é internalizada e aumentada em proporções ao ponto de se tornar delírio, ou muito perto disso. Faltava, no entanto, a explicação de porque a menina tratava a irmã tão mal depois do abraço de retorno à casa, e acho que a primeira conversa entre ambas explanou essa paranoia: Arya tem medo de que Sansa não deixe Jon reinar; e coloca nela a paranoia de seu pai ter sido assassinado em sua frente. Traumas são assim chamados exatamente porque não podem ser sentidos e vividos de forma cem porcento racional. Sansa é quem demonstrou esse outro lado: a racionalização. Inclusive, fico muito feliz que ela tenha afastado Brienne de Winterfell, depois que Mindinho sugeriu que a guerreia mediasse a desavença das irmãs. Sansa sempre demonstra ter aprendido algo com seu passado.

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O exagero de Arya, contudo, não me parece justificar a segunda cena, toda em tom de ameaça. A segunda conversa mostrou à Sansa que Arya tem mais potência do que ela imaginaria – pelo menos, é assim que eu vi a entrega da adaga: você até pode ficar com isso, não vai lhe salvar. Também manifestou que Arya faria muito para proteger os interesses de Jon. Mas foi isso. Poderia ser uma cena mais curta que realmente apontasse esses dois fatos sem grandes discursos, talvez não ficaríamos com o gosto contrafeito entalado na garganta. E se você se pergunta onde está o Bran, eu lhe respondo que nenhuma teoria que imaginei ainda acho bem fundamentada (coloquei algumas aqui). Caso o novo Corvo não apareça no próximo episódio, sua ausência terá que ser justificada na próxima temporada.

Sim, muita gente veio me perguntar se Arya não quis deixar implícito que ela confia em Sansa, mas acredito que não, senão teria feito as ameaças em público. Se for diferente, ótimo. Preferia estar errada nesse caso. 😊

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Jonerys parte 3: o renascimento

O tema de orgulho e preconceito pareceu finalmente chegar ao fim. Primeiramente por conta da conversa de Daenerys e Tyrion, em que a Mãe dos Dragões (apesar de dizer que ele é muito baixinho para ela), começou a colocar em palavras a sua atração. Ela colocou Jon no mesmo discurso que todos àqueles que a amaram e que ela amou (mesmo que Jorah seja um tipo diferente de amor). A conversa entre os dois foi bem interessante por abrir espaço para eleições representativas depois da morte de Daenerys, e também revelou que Tyrion tem, sim, receio de que ela morra antes de tudo acabar.

Não é a primeira vez que Jonerys aparece, inclusive foi construído ao longo dessa temporada (veja mais nos textos antigos), e acredito que se tomarmos como princípio a Jornada do Herói e da Heroína, existe, sim, o momento de encontro com a Deusa/Deus. Ou seja, com a parcela que complementa a (o) protagonista. Vale lembrar que a Jornada do Herói é extremamente funcional, mesmo que não seja a única maneira de se criar uma história.

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Assim, eu compreendo aqueles que preferiam ficar fora do ship, e aqueles que amam o casal. Eu adoraria ver outras técnicas narrativas, mas acho que o encontro entre os dois não foi necessariamente criado às pressas, apenas um pouco clichê. Quem deu o tom de veracidade, para mim, foi Emilia Clarke, que conseguiu colocar nos olhos a amargura e tristeza pela morte de seu dragão, além de respeito e empatia pelo personagem à sua frente. Também fico grata que esse conflito, ou tensão sexual, fique ainda a ser resolvido totalmente, porque seria bem esquisito acontecer nesse sexto episódio – mesmo que a cicatrizes e o heroísmo deixem Jon mais interessante para Dany. Vale lembrar que ela estava em dúvida sobre o fato de Davos ter dito que Jon tinha se sacrificado e tomado facadas pelo seu povo, agora ela deve saber.

E muitos tópicos – Ou Benjen Apud Equus

São tantos tópicos e dúvidas com relação à parte que deu nome ao episódio: Para lá da Muralha, que vou realmente escrever essa parcela em tópicos para tentar clarificar o que posso, e também me ajudar a enxergar o todo:

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  • Esse plano nunca foi esperto.
  • Gostei muito das conversas dos personagens antes de toda a ação: elas salvaram o episódio de ser apenas faca, tiro e puxão de cabelo (você entendeu). Para mim, as mais interessantes foram as falas do Cão (menos quando ele decide tacar uma pedra em um zumbi), e o diálogo entre Jon e Jorah que parece remeter ao passado de ambos, e a uma nova possibilidade de futuro.
  • Ser “beijado por fogo” é um sinal de sorte entre os Selvagens, e vamos combinar que o grupo teve bastante sorte. Contudo, levar figurantes para morrer e não tocar nos personagens mais protagonistas é um recurso que não funciona em Game of Thrones. Sim, Thoros faleceu (a cena de seu funeral foi muito bonita), contudo já tivemos mais protagonistas morrendo em situações muito menos extremas. Ou seja, poderia fazer sentido em diversos seriados, mas não nesse.
  • Jorah finalmente explicou como alguns humanos poderão sobreviver à essa invasão dos mortos: só mirar na pessoa certa.
  • Por falar em mirar na coisa certa, acho que as lanças dos Caminhantes Brancos são incríveis e fazem muito sentido de existirem: pelo que podemos teorizar, eles acordaram de seu sono quando (ou por conta de) os dragões nasceram. Ou seja, o Rei da Noite realmente deveria saber que existiam dragões no mundo e ter um plano para eles. Contudo, porque não mirar no maior dragão que ainda leva uma pessoa em cima dele? Não faz sentido. Porque o irmão de Viserion não atacou os quatro caras branquelos que estavam parados lá? Também não sei. Uma coisa é certa: a morte de Viserion foi realmente bem apresentada: dolorosa e de partir nossos corações. Ademais, só podemos acreditar que as correntes já estavam no plano dos Caminhantes, e no meme do Rei da Noite mergulhador.

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  • Muito provavelmente, a turma do Esquadrão Suicida passou bem mais de um dia na ilhota até que a água congelasse. E eles tinham ao menos uma espada de fogo para não morrer de hipotermia. Sansa comentou que não escutava nada sobre Jon fazia semanas. Os zumbis que saíram da água estavam perto da borda, ou seja, tinham onde se apoiar para se levantarem. Nada disso me incomoda de verdade, o que fiquei frustrada foi com a escolha de enviar Gendry de volta para a Muralha, sendo que ele era o único personagem que disse abertamente que nunca tinha visto gelo e neve. O que faria dele o mais perdido, e o menos indicado para encontrar o caminho de volta.
  • Sim, ursos zumbis são legais.
  • Sim, um dragão zumbi é uma perspectiva aterrorizadora. E eu acho que ele vai cuspir gelo. – O olho azul, na minha opinião, é um indicativo de que ele foi tocado por gelo, não de que é um Viserion consciente e zumbi. Os bebês de Craster não eram mortos para se tornarem comandantes, lembram? O Rei da Noite apenas tocava neles.

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  • O local da batalha foi bem parecido com o local onde o Rei da Noite foi criado, não?
  • Arthas + Singradosa.
  • Benjen Ex Machina (ou Benjen Apud Equus)

Para finalizar, eu gostaria de lembrar porque as parcelas de conversa e as explicações no roteiro são tão importantes, com uma frase da própria temporada: “sem memória, os humanos são como animais, Sam”.

Quem escreve? Flávia Gasi

Flávia Gasi é doutoranda e mestre pela PUC-SP. Lançou o livro Videogames e Mitologia. Atualmente é colunista do IGN Brasil, escritora de videogames; CEO da Ni Game Content; professora; e tradutora. Defende a democratização dos consoles, direitos iguais no game e o direito de comer sucrilhos sem leite.