Review: A Infância do Brasil, de José Aguiar

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Uma HQ para ler e refletir

Lançamento da editora AVEC, A Infância do Brasil, de José Aguiar, é dividida em seis capítulos. Cada um deles intercala cenas do século XVI ao XXI com o presente, sendo que o último, claro, se passa apenas na atualidade.

A Infância no Brasil

A dinâmica da obra é simples. Acompanha-se as infâncias características de cada século, sempre rolando uma comparação com o que temos hoje. O autor realizou muitas pesquisas para escrever esta HQ, além de ter contado com a consultoria da historiadora Claudia Regina B. Moreira e o prefácio da premiada escritora, e também historiadora, Mary del Priore.

O resultado não chega nem a ser um soco na boca do estômago. Mas nele todo. E vários. Sucessivos. Um mais forte que o outro.

A Infância no Brasil

A graphic trata do machismo do homem branco que quer porque quer um filho homem, colocando suas expectativas e passando esse peso para a criança. Há o abuso das crianças indígenas que não podiam ser crianças, mas tinham de ter suas almas salvas pelas missões jesuítas,. E isso porque era sua melhor opção diante da situação. Afinal, elas poderiam ir parar nas mãos dos bandeirantes, com quem sofreriam injúrias ainda piores.A Infância no Brasil

Mais adiante, a criança que cresce na rua por vários motivos diferentes. Desde sustentar a família que passa fome, a abandono e, claro, racismo, que vem através dos séculos e existe firme e forte até hoje. E ela aprendeu a sobreviver, a roubar, a ser tudo menos criança. E nisso toca a questão da meritocracia. Imagino que se dependesse, mesmo, de trabalho e afinco, essas pessoas seriam hoje ricas. Mas não são e estão longe disso.

 

A Infância no Brasil incomoda por um ser um espelho tão claro da nossa história e realidade.

 

Eu fiquei mal após a leitura. Não daquele jeito em que dez minutos depois já estava bem. Negativo. No dia seguinte, ainda estava com aquele pesar. Na verdade, já tô mal de novo só de escrever esta resenha.

A Infância no Brasil

Daí, você pode pensar: “Nossa! Não quero isso pra mim. Melhor nem ler, nem chegar perto”.

E eu afirmo: por favor, não seja essa pessoa. Não seja alguém que fecha os olhos e aceita a nossa realidade passivamente. Essa dor e tristeza que eu senti é necessária. Ela traz reflexões e aprendizados. Pois a obra não só trouxe informações sobre como as crianças brasileiras são maltratadas, mas fez um link histórico, que, em momento algum, tenta justificar a situação. E sim mostrar um ciclo vicioso que precisa ser quebrado.

A forma como Aguiar conseguiu juntar essas informações numa narrativa fluida (na medida do possível, pois é meio difícil não parar pra respirar fundo após cada soco/capítulo), inteligente e dinâmica, resultou em um quadro bastante didático e rico da situação brasileira.

Ele demonstrou ter sensibilidade e técnica ao construir cada capítulo e criar essa narrativa progressiva que culminou num final nem um pouco inesperado, contudo, chocante.

A Infância no Brasil

Quanto à arte, ela é estilizada, bem angulosa, nem muito detalhada, nem limpa. Os enquadramentos e os cenários ajudam a destacar o sentimento e, às vezes, as palavras não são necessárias. Auxiliando na narrativa gráfica, tem as cores de Joel de Souza, no estilo digital e que refletem bem a época em questão.

Este trabalho se tornou realidade antes como webcomic, graças ao edital do Mecenato Municipal de Curitiba, que viabilizou sua criação. O resultado disso se encontra no site  http://ainfanciadobrasil.com.br/

A Infância no Brasil

A Infância do Brasil é um livro necessário não só para aqueles que são interessados no tema, mas também para quem quer viver num lugar melhor. E, quem sabe, a gente deixar de dizer que isso é bem coisa brasileira.

A Infância no Brasil

Quem escreve? Belle Felix

Belle Felix, ou Lilo para os íntimos, não sabe dançar a hula, mas veste sua roupa de coelho e tenta sempre fazer seu melhor! Tradutora do material da editora Valiant no Brasil, resenhista no Universo HQ e tem um site e canal no YouTube, o Plano Infalível. E, sim, pretende dominar o mundo.