Precisamos falar sobre Dear White People e o silêncio na internet

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Desde que a série Dear White People foi lançada no Netflix, parece que a internet está fazendo força para fingir que ela não existe. Raros são os sites que fizeram posts comentando sobre a qualidade do seriado, que é muito bom, ou falando sobre a temática tão atual: o racismo. Por que isso acontece? Por que 13 Reasons Why recebeu uma atenção mil vezes maior de toda a mídia e redes sociais, sendo que ambas tratam de assuntos que precisamos discutir? Em pleno século XXI, pleno 2017 as pessoas decidiram boicotar Dear White People pelo motivo de ser uma série “afrontosa”, com um título horrível e cheio de racismo reverso – QUÊ?

Mas nós do Garotas Geeks não vamos fazer parte desse silêncio. Conversei com a jornalista e membro do coletivo AfriCásper, Lívia Martins, e com a idealizadora do site Preta, Nerd & Burning Hell, Anne Caroline para entendermos melhor esse cenário e sabermos mais sobre a série!

Conheça nossas entrevistadas: Lívia e Anne

Conheça nossas entrevistadas: Lívia e Anne

As duas acharam que os dez episódios muito bons e pertinentes. Lívia até afirma que é uma representação fiel dos 22 anos que já viveu. Apesar de achar as questões estéticas ótimas, Anne aponta que existem alguns erros na maquiagem, principalmente da Sam, já que dá para perceber o tom diferente da base para a pele da atriz.

Diferente de agora, assim que o trailer da série foi lançado os haters fizeram muitos comentários negativos e incentivos a boicotes. Anne diz que é porque o “trailer da série é muito potente e, em certa medida, tenta se conectar com o público negro sem delongas”, o que fez com que o brancos tentassem “inverter o discurso e insistir na negação”. Mas como agora parece que ninguém comenta nada, a blogueira diz que isso mostra “o desprezo real que o sujeito político branco precisa manter para que a realidade se mantenha a mesma”.

As entrevistadas apresentam dois motivos para o silêncio a série gerou na internet. Para Anne a questão da divulgação influencia muito, pois “enquanto a Netflix investe em divulgar séries e documentários biográficos nem tão interessantes assim, em pontos de ônibus, outdoor e propagandas no YouTube, o que é mais relevante como Crazyhead, Luke Cage e Dear White People são mais divulgadas no boca a boca e tem recepções bastante negativas. Falar sobre racismo incomoda, sobretudo quem se beneficia dele, então nada mais natural que mantenham ignorando a realidade.” Já Lívia acha que a expressão “lugar de fala” faz as pessoas não quererem comentar assuntos polêmicos, gerando esse silêncio, e que “ao invés de ocupar esse dito lugar com alguém com muita propriedade, os sites continuam reproduzindo a bolha branca e privilegiada que existe desde que a Terra é Terra.”

Série é baseada no filme Dear White People, de 2014, e alguns aotres fizeram parte dos dois elencos

Série é baseada no filme Dear White People, de 2014, e alguns aotres fizeram parte dos dois elencos

Outra série da Netflix que foi muito criticada e pouco comentada foi Luke Cage, e muitos comentários negativos giram em torno do elenco ser quase 100% negro. Lívia diz que “o público não está acostumado e não quer ver preto em ascensão. Isso incomoda, e como o racismo é ‘feio’, eles arranjam maneiras de acabar com produções 100% afros com ferramentas não ofensivas”. Anne até reforça que acha a série muito superior aos quadrinhos, mas concordando a jornalista diz que “dar voz as perspectivas historicamente silenciadas causa incomodo na maioria, por isso sempre há espaço prum Eminem em trilhas sonoras e quase nunca pra uma Tamar-Kali.”

Falando em outras séries, como 13 Reasons Why foi citado no começo deste post Anne fez uma comparação entre as duas. Novamente ela fala sobre a divulgação ser bem diferente: “Há primeiro uma diferença no enfoque, na divulgação. Santa Clara Diet e Stranger Things, quando estrearam, praticamente não havia como não assistir o trailer, não é? Mas focando em 13 Reasons, acredito que é um sucesso pela clara ode ao narcisismo da branquitude. A série se constrói a partir de um discurso racializado, que finge  ‘diversidade’ atribuindo as minorias sociais atitudes negativas, ao passo que a vítima é uma garota branca como costumamos ver, ao menos, desde o século XIX. Fingir indiretamente que bullying e racismo estão no mesmo patamar, faz com que a maioria se identifique, ao passo que denunciar o racismo e ridicularizar o sujeito que se beneficia com ele (como faz Dear White People) já é incomodo.”

Eu perguntei para as duas se existe alguma diferença entre o que é mostrado no seriado Dear White People e a vida real, e as duas disseram que não. Lívia afirma que o que assistimos não é ficção, que nada foi inventado. “Eu vivi. Minha prima viveu. A Michele Obama, a Thaís Araújo e o Rico Dalasam viveram. Tenho certeza. É a vida transcrita na arte. Sem tirar nem por. Sem dose de dramaticidade. Sem efeitos especiais!”. Anne já faz uma reflexão mais profunda, dizendo que a arte reflete visões de mundo, sem se dissociar da realidade social, e afirma que “Ignorar a conexão entre o real e o ficcional é um engajamento político comprometido em manter as desigualdades.”

"Acho bastante contraproducente elencar quem sofre mais, mas não.se pode ignorar que ter pele menos pigmentada possibilita à Sam ser mais ouvida que Coco." - Anne.

“Acho bastante contraproducente elencar quem sofre mais, mas não se pode ignorar que ter pele menos pigmentada possibilita à Sam ser mais ouvida que Coco.” – Anne.

Para encerrar o post, Anne e Lívia deixaram um recado para nossos leitores! E fiquem de olho aqui no site que vai sair review da série na sequência!

Anne: “Eu quero enfatizar o quanto o jargão ´lugar de fala´ tem sido mal utilizado. Tanto atitudes ´deixa disso´ quanto atitudes ´prefiro não comentar´ prejudicam o debate racial. É preciso que influenciadoras/es se comprometam a comentar e analisar séries como The get down, Luke Cage e Dear White People e parar de deixar tudo na responsabilidade de pessoas negras. Querendo ou não, chamar pessoas negras para Guest post, pra explicar e para falar de racismo é tanto tokenizar quanto se isentar dá responsabilidade de pesquisar, ler e tentar entender qual o seu papel no mundo racista. Perguntar-se sempre o que é ser branco, ou como personagem X é construído na narrativa como branco é um bom começo. Por que há uma lacuna no entendimento de séries, poesias e ensaios produzidos por negros? É preciso enfatizar que racismo não é um problema negro, racismo é uma problemática branca. Por isso é necessário que pessoas brancas busquem refletir sobre suas atitudes, pensamentos e estratégias em vez de aguardar por interpelações e assumir a mea culpa.”

Lívia: “Assistam a série fora da bolha confortável e de privilégios de vocês. Ponham a mão na consciência. Apenas reflitam e não achem que é vitimismo. Não é e nunca vai ser!”

Quem escreve? Gabi Orsini

Aspirante a jornalista e bailarina. Conversa até com poste e acha que sabe cantar. Desde que descobriram que é uma sereia, não esconde mais isso. Ama tirar fotos e por o pé na estrada. Tem o dom de ler em qualquer hora e lugar. Sonserina sim.