Os gêneros são duas raras formas de entretenimento que apresentam um espectro maior de mulheres negras.

Quando Javicia Leslie foi anunciada como a nova Batwoman da Warner, substituindo Ruby Rose, várias garotas nerds negras comemoraram ao redor do mundo.

E então se prepararam para o impacto. Afinal, todos sabemos que quando uma atriz negra é escalada para um papel tradicionalmente branco, sempre surge uma reação racista e por vezes violenta de parte do público.

Sim, toda vez que uma personagem é interpretada por uma atriz negra ou uma mulher negra é introduzida em uma franquia popular, a internet é mergulhada em comentários racistas disfarçados de “fãs de verdade”. Esses autodenominados “fãs” não são capazes de perceber que a ficção científica e a fantasia sempre apresentaram algumas das melhores personagens negras na indústria do entretenimento.

E tudo começou com Uhura.

A Sargento Uhura (Nichelle Nichols) foi vista na ponte de comando da USS Enterprise semanalmente por três temporadas. Quando Nichols quis deixar a série, o reverendo Dr. Martin Luther King Jr. a convenceu de que seu papel era importante e que ela precisava continuar na série. Relatos apontam que ele teria dito algo como “Você não pode fazer isso… Pela primeira vez, nós estamos sendo vistos por todo o mundo como deveríamos ser vistos”.

Uhura era a oficial chefe de comunicações da nave, mas frequentemente era vista fazendo outros trabalhos na ponte de comando. Ela trabalhava com frequência também nas equipes de campo, assumindo o comando por exemplo, quando os membros homens da tripulação foram controlados pelas Sirenas. A versão moderna, interpretada por Zoe Saldana, também é uma especialista em línguas. Sua representação como uma membro igual ao resto da tripulação pavimentou o caminho para que as mulheres negras tivessem esse impacto na ficção científica e fantasia.

Nos anos 1960 e 1970, mulheres negras eram apenas apresentadas como empregadas domésticas, secretárias ou garotas de programa. Uhura só podia ser vista como uma igual porque Star Trek era “apenas” uma série de ficção científica. Não era o mundo real. Porém, para as mulheres negras, esses mundos fantásticos se tornaram extremamente importantes. Ficção científica e fantasia são duas raras formas de entretenimento que apresentam um espectro maior de mulheres negras.

No Arrowverso, da Warner, Iris West é uma jornalista, Charlie é uma deusa do destino e estrela do rock, Jennifer Pierce é uma atleta colegial, Anissa Pierce é uma professora e guerreira da liberdade e Lynn Stewart é uma doutora se especializando em biologia meta-humana. Elas podem demonstrar todo tipo de emoção e possuem experiências de vida que não se encaixam em um molde pré-determinado.

Doctor Who, a série de ficção científica televisionada por mais tempo na história, se tornou notícia quando Freema Agyeman foi escalada como a nova companheira do Doutor durante a terceira temporada do revival. Sim, muitos fãs tiveram problemas em ver Martha Jones viajando na TARDIS.

Martha era uma estudante de medicina que começou como uma ajudante, mas com o tempo se tornou uma heroína. Ela encarou Daleks, Sontarans e a Família de Sangue para salvar o mundo do Mestre. Como ela acompanhou o Doutor entre Rose e Donna, sua contribuição acaba sendo por vezes ignorada. Porém, após ele ter o seu coração partido por sua separação de Rose, ela foi a responsável por trazê-lo de volta para a Terra, assim por dizer.

Em The Walking Dead, nós vimos Michonne (Danai Gurira) evoluir de uma guerreira solitária para uma mãe e líder que protegia seus amigos. E essa ampla possibilidade de caracterização é o que atrai as mulheres negras para o gênero.

Seguindo a tradição de Star Trek em apresentar mulheres negras em papéis importantes, Guinan de The Next Generation foi criada especialmente para a fã de longa data da série, Whoopi Goldberg. Na verdade, foi o desempenho de Nichols como Uhura que atraiu a sua atenção e fez com que a atriz se tornasse fã da série. De acordo com a página StarTrek.com, Goldberg teria afirmado o seguinte:

Bem, eu tinha nove anos de idade quando Star Trek foi lançado. Eu assistir e comecei a gritar pela casa ‘Vem aqui mãe, todo mundo, corram, corram, tem uma moça negra na TV e ela não é uma empregada!’. E eu sabia naquele momento que eu poderia ser o que quisesse ser.

Ter uma premiada atriz como Goldberg assumindo o papel da sábia e misteriosa Guinan dá ainda mais credibilidade para a personagem, além de seu relacionamento com Picard. Após receber um convite pessoal de Patrick Stewart no programa The View, Goldberg fará seu retorno como Guinan na segunda temporada de Star Trek: Picard.

De Uhura a Guinan, até Michael Burnham de Discovery, Star Trek consistentemente ofereceu espaço em sua obra para inclusão. A franquia sempre apresentou mulheres bem trabalhadas, complexas e capazes de lidar com quaisquer situações. Mulheres negras costumam viver sob a ideia de “seja boa, e então ninguém poderá ignorá-la”, e essa é a história de Michael Burnham.

Apesar de ser presa por traição, sua genialidade científica era uma necessidade do capitão da Discovery, e então ela foi reintegrada à Frota Estelar. Ela foi adotada por Sarek e cresceu dentro da cultura Vulcana como a primeira humana a estudar na Academia de Ciência Vulcana, então sua personagem fala sobre a mistura de mundos que acontece com mulheres em certos ambientes de trabalho. Essas representações raramente são encontradas em dramas diretos.

Ainda que os gêneros sejam inclusivos em situações do tipo e outras, eles não chegam a ser imunes aos erros comuns aos demais. Por vezes, essas mulheres acabam sendo as únicas pessoas não brancas da história, o que as torna ainda mais importantes.

E isso é particularmente claro em uma das maiores séries de fantasia do mundo, Game of Thrones, da HBO. Uma vez que Missandei (Nathalie Emmanuel) e Verme Cinzento (Jacob Anderson) eram os únicos personagens negros do elenco principal, para boa parte do público, suas histórias eram mais importantes do que os arcos principais da série.

Imagem: HBO

Missandei poderia ser apenas uma personagem de fundo na história da Daenerys, mas o poder silencioso de Nathalie a tornou peça central no mundo de Dany. Seu romance com Verme Cinzento deu a ambos os personagens uma história de fundo e motivações separadas de sua rainha. Ela era tão importante para Dany que a sua perda (muito mal trabalhada) levou Dany a uma (igualmente mal trabalhada) espiral de fúria tirana. Mas é verdade que, sem Missandei, talvez nós ligássemos menos para a jornada de Daenerys.

E mesmo quando as mulheres negras não são capazes de ver sua melhor representação nos filmes e televisão, sempre existem quadrinhos como X-Men e Pantera Negra apresentando sua força e beleza para o mundo.

Através de suas histórias, Tempestade sempre representou a consciência dos X-Men. Assim como muitas mulheres negras, Ororo Munrow é a responsável por manter a sua família unida apesar de todo o preconceito do mundo exterior.

Quando começaram a fazer os filmes e a super estrela Halle Berry assumiu o papel, Tempestade se tornou ainda mais influente. Ela tinha o poder de controlar o tempo, o que significa que uma mulher africana era basicamente apresentada como a mãe natureza.

Quando ela finalmente se unir ao MCU, ela possivelmente irá interagir com as mulheres de Wakanda: a Rainha Ramonda (Angela Bassett), a genial Shuri (Letitia Wright), a espiã Nakia (Lupita Nyongo) e a incrível guerreira, General Okoye (Danai Gurira), líder das Dora Milaje.

T’Challa e Killmonger eram os principais personagens de Pantera Negra, mas Ramonda, Shuri, Nakia e Okoye são as responsáveis por atrair o público e fazê-los sentir que estão em Wakanda. Elas são o verdadeiro coração e alma da história, e é com elas que queremos passar mais tempo.

Em um momento em que parte do mundo tem de encarar sua história racista, é mais importante do que nunca ver a influência e impacto dessas mulheres no mundo.

Talvez estejamos dando os primeiros passos em direção a um futuro sem preconceitos, no estilo Star Trek. Enquanto esperamos pelas novas temporadas de Star Trek: Picard e Discovery, Batwoman, The Flash, Westworld e o lançamento de filmes como Pantera Negra 2 e da franquia X-Men, podemos imaginar como as mulheres negras têm motivos para estar empolgadas com essas obras de ficção científica e fantasia.


Texto traduzido do The Mary Sue.

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