Mulheres na Ficção Científica: Se Mary Shelley inventou o gênero, por que há tão poucas escritoras conhecidas?

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Dois séculos. Duzentos anos. A ficção científica existe por esse tempo todo. Do nascimento de Frankenstein até a morte de Ursula K. Le Guin. Duzentos anos.

Esse texto foi inspirado no post sobre o filme da Mary Shelley e originalmente contaria a história de Frankenstein, publicado em 1º de janeiro de 1818. Mas com a morte de uma das maiores escritoras de ficção científica do século no começo desse ano, Ursula K. Le Guin, aos 88 anos, o foco mudou um pouco do planejado: o papel das mulheres na ficção científica.

Ursula K Le Guin

Ursula K Le Guin

A Gênese de Frankenstein; ou O Prometeu Moderno, seu título completo, é um conto frequentemente tratado como a verdadeira história de Shelley sobre o cientista Victor e sua criação monstruosa. Com apenas 18 anos, a escritora visitava a Villa Diodati, próxima do Lago Genebra com seu marido, o poeta Percy; o local era alugado por Lord Byron e John Polidori para veraneio em 1816 e os Shelley estavam por perto. Em uma noite, Byron sugeriu que todos eles escrevessem suas histórias de terror. Mary Shelley escreveu em sua introdução à Edição de 1831 de Frankenstein: “Eu me ocupei pensando em uma história – uma história para competir com aqueles que haviam me empolgado com essa tarefa. Uma que falasse com os misteriosos medos de nossa natureza, e que pudesse acordar verdadeiro horror – uma para fazer o leitor ter pavor de olhar para o lado, para coagular o sangue e acelerar o batimento do coração.”

Mary Shelley

Mary Shelley

E ela certamente conseguiu. O monstro de Frankenstein faz parte do Hall da Fama do terror. Todo mundo conhece a criatura. Mas será que realmente conhecemos a história? O básico, é claro, está preso na nossa consciência cultural coletiva, graças a adaptações para filmes. Victor Frankenstein quebra o último tabu, ousando brincar de deus e criar vida, coletando eletricidade para reanimar um monstro gigante feito de partes roubadas de cadáveres e costuradas, e então a fera surta.

A grande diferença é que, diferente dos contos de terror como Drácula, Lobisomem e Múmias, o monstro de Frankenstein é uma história de ficção científica. Ele foi criado pela ciência, não é uma criatura sobrenatural. E a história de Mary Shelley é muito mais complexa do que a imagem caricata que temos do monstro verde com parafusos no pescoço, correndo atrás de mulheres aos berros.

Frankenstein

Frankenstein

Após abandonar sua criação, enojado, Frankenstein sente uma grande culpa e vai atrás do monstro nos Alpes. Lá descobre que o tempo de isolamento da criatura serviu para sua erudição, e que o monstro se educou utilizando livros, desenvolvendo sensibilidade e emoções ao observar de longa distância, uma família atingida pela pobreza. Com esse aumento de consciência, veio também o conhecimento sobre seu lugar no mundo, sobre o que ele é, não é, e sobre o que quer. Tentando convencer Frankenstein a criar uma mulher para dividir o espaço único que o monstro ocupa, a criatura finalmente abraça seu lado obscuro quando Frankenstein recusa o pedido, matando a esposa de seu criador na noite de seu casamento.

É uma história poderosa e que perdura até hoje, mas há algo curioso em tudo isso. A explicação detalhada de Mary Shelley sobre a origem da história, citada rapidamente no início do texto, não aparece na primeira edição. Há uma introdução diferente nesse livro, que afirma: “Dois outros amigos (um conto surgido da caneta de um deles seria muito mais aceitável ao público do que qualquer coisa que eu jamais seria capaz de sonhar em produzir) e concordamos em escrevermos cada um uma história, baseada em algum acontecimento sobrenatural. O clima, porém, ficou subitamente agradável; meus dois amigos me deixaram em uma jornada pelos Alpes, e perderam nas magníficas cenas que eles presenciaram, todas as memórias fantasmagóricas. O conto a seguir é o único que acabou sendo finalizado.” É curioso como o texto é autodepreciativo. Mary Shelley está basicamente afirmando que os garotos se distraíram de suas tarefas de escrever histórias de terror, porque estavam se divertindo lá fora, e que se tivessem terminado suas tarefas, seu trabalho seria certamente melhor do que qualquer coisa que ela poderia escrever. Sua apresentação é quase um pedido de desculpas, porque isso seria tudo que ela teria para oferecer daquela noite em Villa Diodati. H oje sabemos que isso estava errado, porque uma fração da história de Byron apareceu no final de seu poema “Mazeppa”, e o Vampiro de Polidori foi publicado em 1819. A introdução é o que mais assusta, porém, porque não foi Mary Shelley quem a escreveu. Seu marido, Percy Bysshe Shelley a fez, sutilmente apagando suas conquistas ao compará-las com o “trabalho amplamente superior” que ele e seus amigos poderiam ter feito, caso tivessem ligado para isso.

Seguindo em frente, em 1983, a autora Joanna Russ publicou um livro chamado “Como Suprimir a Escrita de uma Mulher”. A capa do livro ficou famosa, não por uma imagem ou por seu visual, mas porque se tornou um mantra que explica a incisividade do argumento de Russ: “Ela não escreveu isso. Ela escreveu, mas não deveria. Ela escreveu, mas olha sobre o que ela escreveu. Ela escreveu, mas só um deles. Ela escreveu, mas não é realmente uma artista e isso não é arte. Ela escreveu, mas teve ajuda. Ela escreveu, mas ela é uma anomalia. Ela escreveu, MAS…”

Joanna Russ era autora de sci-fi, feminista e lésbica.

Joanna Russ era conhecida por ser autora de sci-fi, feminista e lésbica.

Desculpas, motivos, explicações, mansplaining. A escrita das mulheres é geralmente marginalizada e subestimada desde que os seus livros começaram a ser publicados, e isso acontece muito mais frequentemente por meio de campanhas de sussurros, do que com a retirada das máquinas de escrever de suas mãos e seu banimento da escrita. Semeando a dúvida. Justificativas do tipo: “Certo, esse livro não é ruim, mas duvido que ela conseguiria fazer outro.”, ou “Um homem deve ter ajudado ela, com certeza”, ou até mesmo “Certo, ela é uma boa escritora, mas ela é a exceção. Mulheres não escrevem bem assim”.

Não é coincidência que a autora desse livro, Joanna Russ, também foi uma autora de ficção científica, até o dia de sua morte em 2011. Russ começou a ser publicada nos anos 1960, com a série de histórias curtas “Piquenique no Paraíso” em 1968, mesmo ano em que Ursula K. Le Guin publicou O Feiticeiro de Terramar”. O livro mais conhecido de Russ é “The Female Man” (O homem mulher), de 1975, que apresenta quatro mulheres em universos paralelos que visitam as realidades umas das outras, comparando e contrastando as vidas e tratamento destinado às mulheres.

Russ e Le Guin escreveram em um grande momento da ficção científica, os anos pós Segunda Guerra Mundial, com os avanços tecnológicos e a exploração do espaço, culminando na Guerra Fria e na ainda presente ameaça da aniquilação nuclear. Mas pergunte a algumas pessoas quais são os maiores escritores de ficção científica da segunda metade do século XX e aposto que terá uma lista composta por nomes de homens.

Se não acredita, dê uma olhada no site www.ranker.com, página que permite aos usuários avaliarem praticamente qualquer coisa. Vá até a lista dos “Maiores Autores de Ficção Científica” (“Greatest Science Fiction Authors”: Isaac Asimov, Philip K. Dick, Arthur C. Clarke, HG Wells, Robert A. Heinlein, Frank Herbert, Ray Bradbury). Gigantes, é verdade. Mas o primeiro nome feminino na lista aparece na décima posição: Ursula Le Guin. A próxima na lista é Mary Shelley, na 29ª posição. Anne McCaffrey (autora da série Dragonriders of Pern”) aparece em 30ª. Em uma lista com 100 nomes, apenas 13 são mulheres, e em sua maioria em posições no final da lista. Isso em uma lista com participação de mais de 70.000 usuários.

Por que não há mais mulheres? Porque provavelmente a ficção científica, particularmente em seus anos dourados, era vista como algo que apenas homens faziam. Talvez porque a atmosfera de clubinho masculino tenha expulsado as mulheres. Talvez as mulheres não fossem bem-vindas. A primeira edição de Frankenstein foi publicada de maneira anônima. Em 1967, um novo autor de ficção científica surgiu no cenário, James Tiptree Jr. Levou mais de uma década até que o autor de dúzias de histórias deliciosas, inteligentes e subversivas revelasse ser uma mulher chamada Alice Sheldon. Em entrevista para a revista de ficção de Isaac Asimov, ela comentou sobre a carreira sob pseudônimo: “Um nome masculino parecia uma boa camuflagem. Eu senti que um homem seria observado menos de perto. Eu tive experiências demais na minha vida sendo tratada como a primeira mulher em alguma porcaria de trabalho.”

Mulheres escrevem ficção científica e sempre escreveram. Mas normalmente são ignoradas, deixadas de lado, silenciadas ou deixadas fora do radar. Se elas são muito boas em ficção científica, podem ser empurradas para fora do gênero para a “literatura de ficção”. Vejam o exemplo de Margaret Atwood, cujos trabalhos entram e saem de ficção científica, de “O Conto da Aia” a “Oryx and Crake”. Atwood chegou a afirmar uma vez que seu trabalho não era ficção científica de forma alguma, porque o gênero seria sobre “lulas falantes no espaço sideral”.

The Handmaid’s Tale

The Handmaid’s Tale

Talvez tenha sido a partir do momento em que Atwood abraçou seus genes de ficção científica que as coisas tenham começado a mudar. Mais atenção começou a ser dada a aquelas que haviam a antecedido, e novas gerações de escritoras do gênero começaram a agarrar suas posições. Há um excelente site administrado por Ian Sales (um homem, mas não vamos usar isso contra ele), chamado SF Mistressworks (SFMistressworks.wordpress.com) que é dedicado a analisar livros escritos por mulheres, e não apenas os novos, mas também joias perdidas no passado. O nome pode parecer meio estranho, mas faz uma alusão e crítica direta a uma série de livros reimpressos de ficção científica sob a bandeira “SF Masterworks” (obras-primas da ficção científica). É um lugar legal para começar a montar sua lista de obras de ficção científica escritas por mulheres a ler.

Mas por que você deveria fazer isso? Bem, porque a ficção científica escrita por mulheres, de forma geral, parece ser bastante superior à escrita por homens. Por que? Boa pergunta. O Independent fez essa pergunta no Twitter e as respostas não desapontaram:

Porque estamos sempre navegando território desconhecido, onde o Outro é o padrão, mas onde aprendemos a caminhar

em seus sapatos. – @evilroostera mão esquerda da escuridão - ursula

Porque as mulheres são cobradas a considerar experiências fora de sua própria realidade e demonstrar empatia? (Se estivermos falando em generalizações). Ou talvez as mulheres queiram criar algo realmente diferente, enquanto os homens querem manter o status quo, mas com naves espaciais? – @FoxSpiritBooks

Talvez porque mais autoras do que autores escrevam livros que exploram problemas complexos? É só a minha imaginação ou muitos dos livros de ficção científica escritos por homens são tiroteios pós-apocalípticos? – @Bookworm369

Um dos motivos pode ser o fato de que elas sempre tiveram de se esforçar mais, imaginar mais longe e escrever melhor para serem publicadas. Escritores homens sempre tiveram facilidade e nunca tiveram de se esforçar nem de longe como elas tiveram. – @neilwilliamson

Porque o mundo é melhor para os homens, e as mulheres sempre tiveram que (re)imaginar um mundo que seja melhor para elas. – @piabesmonte

Talvez hoje, ao olhar a prateleira de ficção científica em sua livraria local, você possa encontrar argumentos para afirmar que o jogo sempre foi equilibrado. Escritoras como Kameron Hurley, N.K. Jemisin, Mur Lafferty, GX Todd, Ann Leckie, Naomi Alderman, Nina Allen, Nnedi Okorafor talvez marquem presença por lá. Tantos nomes, escrevendo tantas histórias emocionantes e diferentes, que fica até difícil tentar fazer uma lista, pois só arranharíamos a superfície.

Mas as coisas não foram sempre assim. Sempre houve a luta. Algumas vezes, na linha de frente como Joanna Russ, ou mesmo utilizando algum subterfúgio como Alice Sheldon. As vezes, até mesmo luta intersecional como a de Octavia Butler. Mas sempre houve a luta, e ela continua.

Mary Shelley também teve de lutar, é claro. A mulher que criou o gênero cujo livro foi inicialmente publicado sem seu nome, e depois, com uma introdução escrita por seu marido.

Mas lembrem-se: Mary Shelley foi incumbida de criar uma história de fantasmas. Em vez disso, inventou a ficção científica com uma história que falou de horrores capazes de perfurar o coração de toda a humanidade. Mulheres, né? Nunca obedecendo as ordens, sempre quebrando regras e criando coisas tão poderosas.


Traduzido e adaptado do Independent.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).