Meu Vizinho Totoro, Túmulo dos Vagalumes e a triste nostalgia da infância

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Dezesseis de Abril de 1998. Um dia marcante para a história da animação e de filmes como um todo. Após lançar o Studio Ghibli com O Castelo no Céu (1986), os cofundadores Hayao Miyazaki e Isao Takahata começaram a trabalhar em seus próprios filmes. Ambos apresentariam crianças como personagens centrais, atacando temas como solidão, as dificuldades durante o crescimento e a melancolia da infância. As duas histórias se passavam em versões realistas e nostálgicas do Japão, mas com elementos mágicos e fantásticos sendo usados para efeitos completamente diferentes. Meu Vizinho Totoro e Túmulo dos Vagalumes foram lançados há 30 anos, em dose dupla, e continuam a ser marcas registradas de seus criadores.

A ironia em ambos os filmes serem lançados dessa forma, é que eles representaram um grande “Olhem o que podemos fazer” para os filmes do Studio Ghibli e são os filmes mais similares que os diretores jamais fariam. Mas nenhum deles representa a direção que cada diretor e o estúdio seguiriam em um nível microcósmico. Sim, Totoro é um filme fofinho, com criaturas mágicas abraçáveis e crianças se metendo em aventuras, mas não deixa de ser o mais melancólico filme de Miyazaki. Túmulo dos Vagalumes, na direção oposta, é um filme sobre a terra e história do Japão, algumas das paixões do cinema de Takahata, mas ele nunca mais dirigiu algo tão trágico. Se alguém assistisse aos dois filmes achando que sabia exatamente o que era o Studio Ghibli, essa pessoa não poderia estar mais errada.

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Meu vizinho Totoro é a história sobre duas jovens – uma ainda bebê, a outra, de forma importante, uma pré-adolescente – que se mudam com seu pai para uma casa pequena no interior. Sua mãe, como descobrimos posteriormente no filme, está internada em um hospital próximo com uma doença de longa data. A irmã mais velha, Satsuki, acaba tendo de tomar conta de sua irmã, Mei, e juntas elas exploram o bosque próximo de sua casa. Mei acaba encontrando um espírito da natureza chamado Totoro, que lembra um gato-coelho, peludo e gigante, e por mais que insista, não consegue convencer sua irmã da existência de Totoro. Porém, uma noite, enquanto Mei dorme nas costas de Satsuki esperando pelo ônibus na chuva, Totoro aparece próximo a elas e as leva em uma viagem em um ônibus que também é um gato. Totoro e seus pequenos companheiros espíritos, ajudam as crianças, plantam árvores e aproveitam de forma geral o tempo em sua nova casa.

Totoro e os outros espíritos no filme representam tanto a imaginação infantil quanto a tendência que as crianças têm em interagir com o mundo natural de forma mais íntima do que os adultos. É importante ressaltar que Mei encontra Totoro de cara, mas Satsuki demora um pouco até encontrá-lo. Ela está na idade em que deveria brincar, mas foi forçada a amadurecer mais rápido por causa das circunstâncias. Ela faz escolhas erradas e eventualmente acaba tendo de procurar por sua irmã quando ela se perde.

Apesar de Totoro ter se tornado a mascote do Studio Ghibli e de haver algumas sequências fantásticas no filme que acendem a imaginação, Meu Vizinho Totoro acontece em uma versão bastante realista do Japão. O filme se passa no ano de 1958, quando Miyazaki tinha apenas 17 anos, e ele teve bastante cuidado para repetir como aquela parte do país se parecia naquela época. O filme também não possui uma estrutura tradicional, preferindo utilizar seu tempo curto para apresentar o dia a dia das duas garotas. Elas se envolvem com a fantasia de Totoro da mesma forma que vão à escola, fazem tarefas em casa e lidam com a doença de sua mãe. As coisas nem sempre vão bem, mas não há antagonistas e tampouco Totoro age como uma benevolente figura de mentor. Ele está ali para ajudar as garotas, mas é etéreo e não permanente.

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A história de Túmulo dos Vagalumes por sua vez, se passa em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial e apresenta um Japão bem diferente, devastado pelas consequências da guerra, que Takahata conheceu quando tinha apenas nove anos de idade. É nostálgico quanto à infância e a inocência, quanto à realidade do mundo, mas sem o benefício de um amigo espírito da natureza, e sem a noção de que tudo vai ficar bem. A história foca em um adolescente chamado Seita e sua irmãzinha Setsuko. O filme começa com Seita morrendo de fome em uma estação de trem, agarrado a uma latinha de doces que pertencia à sua irmã, que já morreu. Então o filme corta para um flashback de vários meses atrás, quando Seita tentava dar à sua irmãzinha um pouco de diversão em sua infância, em meio ao caos dos ataques aéreos, racionamento de comida e transitoriedade. É absolutamente importante para ele que Setsuko não sinta o terror da guerra, sem deixar isso tão claro.

O trabalho de Takahata foca no Japão, no sofrimento de seu povo e sua história. O simbolismo do título vem de quando os personagens vão para um abrigo de bombas abandonado e soltam vaga-lumes na caverna para tentar iluminá-la. Setsuko ama os bichinhos, mas fica aterrorizada quando descobre que todos morreram, no dia seguinte. “Por que os vaga-lumes morrem tão rápido?”, ela pergunta e eles resolvem enterrar os insetos. Essa é a afirmação melancólica de Takahata sobre a inocência não durar para sempre, apontando ao mesmo tempo que em qualquer guerra, os inocentes são os que mais sofrem. Ao final do filme, os espíritos de Seita e Setsuko estão cercados por vaga-lumes, e flutuam sobre um Japão moderno, com toda sua prosperidade. Cidades e populações podem sobreviver a adversidades terríveis, mas não sem perder alguns vaga-lumes pelo caminho.

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Em ambos os casos, os filmes são profundamente pessoais, relacionados a educação recebida por cada um dos criadores. Ainda que o Túmulo dos Vagalumes tenha sido baseado em uma história curta de outro autor, ambos os filmes oferecem uma dose de nostalgia de suas infâncias, reconhecendo que aquela época era difícil, mas não durou eternamente. Ambos os diretores olham para uma juventude passada que não foi tão desperdiçada, apesar de subtraída rapidamente, em um país que teve de superar uma derrota na guerra. Os dois filmes terminam com esperança cautelosa, pelo futuro não só do país, mas das crianças em geral.

Miyazaki retorna à fantasia após Meu Vizinho Totoro, ainda que muitos dos filmes lidem com o fim da infância. Dois de seus mais aclamados filmes lidam com a destruição das maravilhas da natureza (Princesa Mononoke) e a corrupção e exploração infantil (A Viagem de Chihiro), mas os dois foram muito mais intensos e sem aquela melancolia presente em Meu Vizinho Totoro.

Já os filmes seguintes de Takahata seguiram na mesma linha sobre a vida no Japão, crescimento e família. Omohide Poro Poro lida diretamente com o retorno a sua cidade natal e lembranças de infância. O estranhamente bonito PomPoko – A Grande Batalha dos Guaxinins tem foco sobre os efeitos nocivos do crescimento da população humana para a natureza, especificamente pelos olhos de um animal venerado no Japão, o guaxinim.

Com a combinação de golpes certeiros, Miyazaki e Takahata fizeram o mundo – e não apenas o Japão – percebê-los. Os dois filmes acabaram fazendo parte do livro “Grandes Filmes” de Roger Ebert, ganharam vários prêmios, e consolidaram o lugar do Studio Ghibli entre os melhores em seu campo. Trinta anos depois, os dois filmes ainda desferem golpes precisos e certamente o farão daqui a mais trinta (provavelmente, sempre farão).


Traduzido da Nerdist.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).