[Mangá] Kare First Love e uma outra versão de “Cinderela Nerd”

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Esse mangá foi a minha porta de entrada para o misterioso mundo do clichê dos mangás shoujo. Kare First Love, que seria traduzido como O Primeiro Amor de Karin, foi lançado no Brasil pela Panini com o título original, escrito pela mangáka Kaho Miyasaka em 10 volumes, publicados de 2002 a 2004 pela revista Shojo Comic, com gênero de romance e drama (alguns classificam como slice of life ou vida cotidiana e vida colegial também), sendo licenciado em inglês pela Viz Media.

Sou apaixonada nas capas! <3

Sou apaixonada nas capas da Kaho! <3

Quem não se cansa de ver e/ou ler histórias de um primeiro amor, já tem a confirmação nº 1 de que vai adorar o mangá. Sobre isso, ainda que seja um tema que tenha gerado inúmeros contos e histórias diversas pelo mundo afora, não pode ser compactado e generalizado como tendo um caminho e fim únicos. São pessoas diferentes, trajetórias diferentes, tipos diferentes de amor. Provavelmente esse é um dos maiores motivos para que os romances sejam, desde as épocas mais remotas, tão populares, principalmente entre as mulheres.

A confirmação nº 2 é o próprio título: Cinderela Nerd é só um apelido tosco meu para aquelas histórias de garotas que são lindas mas que ainda não sabem disso porque durante toda a sua vida se acostumaram com o estereótipo de nerd a não se preocupar tanto com a aparência em geral e, claro, por usar óculos.

Se querem saber a minha sincera opinião, ainda quero encontrar um mangá em que a garota continue a ser nerd, ligando o foda-se para padrões de beleza e para tudo que vem nesse pacote. Enquanto não acho essa maravilha, leio os mais razoáveis nesse estilo.

Mas vamos logo ao que interessa.

A personagem principal, Karin Karino, é uma tímida e desprezada garota de óculos. Para compensar sua aparente falta de beleza, Karin decide que teria de se tornar boa em pelo menos alguma coisa para fazer seus pais orgulhosos de alguma forma, então ela começa a se esforçar o máximo que podia nos estudos. Com dezesseis anos, introvertida, baixa auto-estima e sendo quase anti-social, Karin preferiu estudar em uma escola só para meninas, mas nem assim ela conseguiu fugir das humilhações cotidianas por não ter força de vontade ou coragem suficiente para revidar aos insultos e às falsas amizades.

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Exemplo de força de vontade!

A história apropriadamente dita começa com Karin reclamando sobre sua maldita rotina no ônibus para a escola: estudava só com garotas mas tinha que sobreviver ao asco de conviver por alguns minutos com um grupo irritante de garotos do colégio masculino Takashiro, sempre tirando fotos de garotas bonitas e rindo alto. Enquanto um dos garotos caçoa dela chamando-a de “quatro-olhos”…

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QUANTOS ANOS TU TEM, GURI?

…Aoi Kiriya, o mais atraente e extrovertido do grupo (oh rly?), se aproxima de Karin ao perceber o livro que a garota lia: um portfólio de fotos de um fotógrafo chamado Yuuji. A reação exagerada de Karin em relação à aproximação inesperada de Kiriya a fez passar por uma situação inusitada e embaraçosa: Karin deixa seu livro cair e Kiriya sem querer acaba levantando a saia de Karin quando tenta devolver o livro.

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Ops!

O resultado: um tapa na cara do sujeito. Morta de vergonha, ela foge e toma ódio pelo garoto, decidindo evitá-lo até descobrir que ele teria ido à porta de sua escola para supostamente devolver o livro que ela deixara cair no episódio embaraçoso de antes. Para o azar de Karin, uma de suas “amigas” mais queridas, a bela e interesseira Yuka Ishikawa – a antagonista da história – acaba arrastando-a para um Goukon (espécie de encontro coletivo muito popular no Japão) com o grupo de Kiriya.

Yuka, por assim dizer, é aquele tipinho desprezível de antagonista feminina que usa de todos os meios para tentar se sobressair e tomar vantagem, sem perceber ou ignorando o quanto isso machucava Karin, que não conseguia simplesmente dizer não. Ao mesmo tempo que queria amigos, Karin não queria que ninguém a odiasse e isso fazia com que ela acabasse deixando até mesmo suas próprias vontades de lado. Por sorte, ao contrário do que pensa a protagonista, Kiriya é um ótimo observador e acaba por perceber a situação durante o encontro grupal. Por razões misteriosas, Karin chama cada vez mais a atenção dele, mesmo que inicialmente as ações dela também fossem um pouco mal entendidas.

Nisso, Karin se revolta e bebe demais. E claro, como alguém desacostumado a beber, começa a passar mal – e ta~dá! A parte mais legal dos clichês: Kirya a encontra soltando os bofes pelas ventas e a leva pra casa dele! A garota acorda no outro dia na cama do boy, surtando na batatinha. Mas a maior surpresa mesmo seria a de Kiriya quando Karin, despida de todas as suas estratégias de fazer com que parecesse o mais medíocre e normal possível, acaba por fazer seu coração balançar.

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E assim começa a longa história de amor entre Kiriya e Karin. Cheia de farpas e momentos extremamente bonitinhos.

Nesse tipo de romance, geralmente a trajetória da protagonista traduz uma espécie de arquétipo fundamental ou uma base da história, que, falando de maneira mais formal, significa o anseio natural da psiquê humana em ser reconhecida especial e levada a uma existência superior.  E Kare First Love me chamou muito a atenção na época (eu tinha 15 anos) tendo esse motivo como principal. Afinal de contas, qual adolescente não quer se sentir especial e amado? É um tema que acerta em cheio muitas garotas mais jovens por trabalhar com questões que são os maiores dilemas de alguém que está definindo caráter, forma de pensamento, personalidade, gênio, e, acima de tudo, segurança pessoal.

A amizade masculina, também tema do mangá, sempre foi algo que me intrigou e me divertiu muito.

A amizade masculina, também tema do mangá, sempre foi algo que me intrigou e me divertiu muito.

Kare First Love também aborda assuntos muito fortes nesse estilo, como os problemas comuns da adolescência: o relacionamento familiar, a construção de amizades verdadeiras, a retratação de etapas dentro de relacionamentos amorosos, virgindade, gravidez precoce, fofoca, bullying, trabalho, planos para o futuro e assim por diante. Temas como depressão e crises também parecem presentes de maneira um pouco menos clara.

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O amor entre os dois é algo óbvio desde o início do mangá, não tem segredo nem spoiler nenhum isso. A chave do tema é se o relacionamento deles vai durar e sobreviver às diferenças entre eles próprios e às indas e vindas da vida. Se os segredos e pequenos defeitos que cada um guarda serão descobertos e bem trabalhados na relação.

"Eu realmente quis dizer qu você é fofa quando digo isso, porque é a verdade" Owwn

“Eu realmente quero dizer que você é fofa quando digo isso, porque é a verdade” Own…

A forma como Kiriya faz com que Karin abra seus olhos para o mundo e para si mesma é bem bonitinha. E, com o passar do tempo, a retribuição disso de Karin para Kiriya também é uma das coisas que cativam o leitor. Alguns pontos do início da história são reacendidos no final, explicando muitos detalhes deixados nas entrelinhas. O que o tempo fará com os dois e com o amor entre eles é o segredo do destino que todos nos perguntamos de nós mesmos. Se os desafios da vida como sucesso no amor e no trabalho serão alcançados com êxito na maioridade.

Novamente, os traços da mangaká me deixaram apaixonada, apesar de que a história aqui acaba sendo o ponto definitivo para atenção de quem lê. Embora o início possa parecer batido, o desenvolvimento da história é emocionante e único. A forma como a autora trabalha o namoro é, de fato, quase educativa. As personalidades dos dois personagens principais são quase opostas e isso acaba por causar muitas brigas, mas é interessante notar como cada pequeno problema é ultrapassado com o crescimento interno e pessoal dos personagens.

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A vida jovem adulta é caracterizada por muitos, inclusive por estudiosos do assunto, como uma das fases mais difíceis que uma pessoa pode passar e isso é retratado minimamente no mangá – logo, a identificação acaba sendo automática. E também, por isso, houve uma profunda identificação pessoal minha com o mangá. Principalmente pela Karin tocar piano! <3

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Por fim, a história é divertida e gostosa de acompanhar. Não tem reviravoltas enormes, mas pequenos detalhes e coisas que poderiam acontecer – na vida real inclusive. É um romance leve e ao mesmo tempo picante, vai entender. A garantia mesmo é que, pelo menos por mim, vale a pena.

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Uma curiosidade interessante é que a Kaho Miyasaka criou esse mangá como uma espécie de adaptação de outro mangá anterior: Binetsu Shoujo, onde a história se passa anos antes e fala da história de amor de um personagem coadjuvante em Kare First Love.

Espero que vocês gostem de KFL! Ele com certeza sempre terá um cantinho especial para mim, mesmo que eu não saiba direito como explicar o porquê.

Vocês podem baixar aqui ou ler online aqui em português. A qualidade parece melhor aqui, em inglês.

Mais capas pra admiração do traço :3

Bjos da Liao!

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).