Precisamos conversar mais uma vez sobre Capitã Marvel e sobre a Brie Larson.

Depois do texto sobre as bomb reviews, acho importante falar sobre o que significam os ataques e de onde eles vêm.

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Você já se viu observando pessoas se irritando de forma irracional com alguma coisa e questionando por que diabos isso está acontecendo? Em 2019 d.C.??? Recentemente, essa tem sido a minha experiência com todo o “discurso” ao redor de Capitã Marvel. Na verdade eu não vejo isso exatamente como um discurso, mas sim como homens reclamando que as mulheres estão se dedicando/participando da cultura nerd. Olhando para trás através da história, isso pode ser visto de igual forma com inúmeros exemplos, como o caso da Princesa Leia (Star Wars), das atrizes de Caça-Fantasmas (2016), da Mulher Maravilha e basicamente de quaisquer mulheres mais poderosas ou com algum protagonismo no cinema.

Começando com Leia e o fato de que muitos não a veem como uma heroína no mesmo nível de seus colegas masculinos em Star Wars, mesmo levando em consideração que Luke Skywalker e Han Solo estariam 100% mortos se ela não os tivesse salvo das garras do Vader. O argumento aqui é que ela teve que ser “resgatada” primeiro, mas se você olhar direitinho para a cena em que Leia pronuncia o icônico “você não é meio pequeno para um stormtrooper?”, ela está casualmente sentada em sua cela sem se preocupar com uma vírgula sequer no mundo. Isto depois de ter assistido seu planeta inteiro morrer. Antes de qualquer coisa, Leia foi uma personagem foda desde o início e a gente pode falar com tranquilidade que ela foi de fato a única a conseguir libertar Han Solo do carbonite e das garras do Jabba the Hutt.

Então… por que os homens estão tão bravos que Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força focou na Rey como a protagonista ao invés de Luke Skywalker?

Esses homens não gostam da ideia de uma mulher ser a heroína no que eles viam como uma história dominada por homens, e não é a única nem a primeira vez que isso acontece.

Mulher Maravilha foi recebida com homens gritando sobre como ela nunca seria mais forte do que os super-heróis masculinos (quando não é muito difícil perceber que em vários cenários da DC, Diana Prince é sim mais forte que Super Homem). E também quando nós, como mulheres, ousamos fazer uma exibição só para mulheres do filme, eles deram chilique porque os homens estavam sendo deixados de fora.

E agora temos Capitã Marvel. Pela primeira vez em DEZ anos, está sendo produzido um filme de super-heróis no Universo Cinematográfico Marvel liderado por uma mulher – e isso significa também que tanto o Twitter como o IMDb se tornaram um campo de guerra cheio de homens chamando Brie Larson de “Loudmouth Larson” (Larson Bocuda, em tradução livre), alegando que suas “polêmicas” declarações na questão de igualdade dentro da imprensa e o futuro de sua personagem na MCU é o que vai afundar o filme (mesmo que ele já esteja no caminho certo para ser um sucesso de bilheteria).

Então, o que toda essa “história” significa?

Há uma subdivisão de fãs do sexo masculino que não quer ver as mulheres em “seu espaço nerd”.

Eles não querem que as Caça-Fantasmas ou que as heroínas tenham equipamentos e uniformes práticos quando lutam (se os peitos das heroínas preferidas deles não estiverem aparecendo, esses homens urram com raiva!), porque isso significa que eles têm que olhar criticamente para suas próprias visões distorcidas dessas personagens.

Vamos começar por aí.

Mas vamos falar um pouco dos dois maiores problemas que esse público de fanboys teve até o momento com Capitã Marvel:

O primeiro é que Carol Danvers parece “sem emoção” no trailer. Nós já falamos desse absurdo aqui no site, mas não custa nada reforçar.

  1. Então, as mulheres geralmente ouvem que são “muito emotivas” e agora ela não é “emotiva” o suficiente?
  2. Esse é o primeiro filme da Carol Danvers. Quando você olha para o primeiro filme do Capitão América, por exemplo, Steve Rogers é um pouco unidimensional no sentido de que ele é apenas um garoto que fará o que ele acha que é certo. Conforme seus filmes progridem, ele cresce, porque é assim que um bom personagem se parece. Julgar a Carol Danvers com base nas primeiras aparições dos trailers de seu primeiro filme é como olhar para um girino e gritar histericamente “ISSO NÃO É UM SAPO!”. Façam-me o favor…

Não só isso, mas quando os homens entenderão que as mulheres não existem apenas para julgamento deles?

As mulheres NÃO precisam de aprovação para liderar filmes. Os homens não são os únicos habitantes do planeta.

Esses caras não vão nos dizer quais mulheres têm valor e quais não têm. Esse é o coração da misoginia. E nós simplesmente não vamos aceitar isso.

Segunda coisa: a tal “polêmica” declaração sobre igualdade na imprensa (declaração, inclusive, emocionante e IMPOSSÍVEL de não ser entendida), que acabou sendo desonesta e descaradamente distorcida como “não quero homens brancos héteros me entrevistando” porque o ego masculino é uma coisa extremamente frágil.

O vídeo todo pode ser visto no link acima, mas vamos colocar as partes importantes do discurso dela a seguir:

Essa é uma grande desigualdade da população americana de 30% de homens brancos, 30% de mulheres brancas, 20% de homens negros e 20% de mulheres negras. Por que isso importa? […] Eu estou dizendo que eu odeio caras brancos? Não, eu não estou. O que estou dizendo é que se você fizer um filme que é uma carta de amor para as mulheres negras, há uma chance incrivelmente baixa de uma mulher negra ter a chance de ver seu filme e fazer a revisão dele. Precisamos ter consciência de nossa influência e garantir de que todos estejam juntos. […] Eu não preciso de um cara branco de 40 anos para me dizer o que não funcionou para ele fora de “Wrinkle in Time” [Uma Dobra no Tempo (2018)]. Não foi feito para ele. Eu quero saber o que esse filme significou para as mulheres negras, para mulheres birraciais, para mulheres adolescentes negras, para adolescentes que são birraciais. Estes são apenas fatos e não minhas emoções. Eu quero saber o que meu trabalho significa para o mundo, não de uma visão estreita.

Vamos então começar por partes: a vida inteira, por DÉCADAS, mulheres ouvem que tanto filmes quanto praticamente todo conteúdo geek não é “coisa de mulher”. Mesmo hoje, com toda essa difusão do conteúdo e com o aumento do público feminino consumindo, nós ainda escutamos as mesmas coisas. E somos todas nesse mesmo pacote: as atrizes têm suas capacidades questionadas, as fãs têm seus conhecimentos questionados. Sempre tem algum absurdo pra ouvirmos nesse meio. Sempre tem um cara pra exigir “carteirinha de nerd”, com o dedo em riste e o xingamento de “poser” na ponta da língua.

E isso acontece TODO ANO.

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É por isso que, por exemplo, a Amber Heard teve que ouvir perguntas retóricas e estúpidas sobre a peruca da Mera e não sobre coisas que realmente importavam em Aquaman (2018). E foi xingada e ofendida quando demonstrou incômodo com essas perguntas. É por isso que nos tapetes vermelhos, ao invés de perguntarem sobre nomeações ou sobre os filmes que participaram, atrizes escutam muito mais “quem é o designer da sua roupa?”. Dica: procurem saber sobre o Ask Her More e vão entender.

Tá aqui um exemplo de pergunta escrota, é só botar a legenda e esperar os ouvidos e olhos sangrarem:

A diferença de quando ISSO acontece pra quando homens têm de lidar com situações minimamente similares é que:

Quando nós mulheres ouvimos esses insultos machistas e somos excluídas desses campos, não tem “bomb review” negativa dos filmes. ¯\_(ツ)_/¯

As mulheres conseguiram com muito custo fazer parte desse público e agora finalmente podemos ter filmes que ao menos levam em conta as mulheres como público alvo. E aí é que está o x da questão: Capitã Marvel representa sim algo pra mulheres, principalmente por ela ser a personagem mais forte do MCU, PORÉM ele não é um filme com público restrito. A maior parte dos consumidores da Marvel continua sendo de homens. Mesmo se a Brie tivesse dito literalmente que preferiria estar mais em contato com mulheres que homens na imprensa, isso NÃO MUDARIA o fato de que o filme tem público amplo, sem restrição de gênero. 

Não tem polêmica: a mídia e a imprensa DEVEM ser igualitárias. Não é nenhum absurdo pedir que as coletivas tenham mais mulheres como entrevistadoras. Não é insensato dizer que minorias devem ter acesso às críticas especializadas dessas mídias, especialmente se o assunto delas for à respeito dessas minorias.

Capitã Marvel nem mesmo foi lançado e tem análises negativas que nem são sobre o filme, são sobre o quão ofendidinhos ficaram os caras que não conseguem suportar o fato de que ela tem o direito de querer ser mais do que material consumível pelo público majoritário da Marvel, de héteros brancos. Os tempos mudaram e ela, como mulher, se sente mais confortável conversando com pessoas que se identificam melhor com o trabalho dela, que fazem perguntas práticas e com honestidade, sem intenção de desmerecer o trabalho dela ou sexualizá-la. Porque, sinceramente, é o que acontece com todas as atrizes que fazem filmes épicos. Pode ter certeza que Lynda Carter nos anos 70 ouviu absurdos idênticos ou bem semelhantes aos que a Gal Gadot ouviu em 2017.

Porque infelizmente o mundo que a gente vive é assim, cheio de homens indignados com mulheres em posição de poder ou minimamente de protagonismo. Homens que se revoltam quando as mulheres ousam dizer que preferem ambientes em que elas não tem tantas chances de virar alvo de preconceito e de desdém; que preferem saber das opiniões de outras mulheres sobre seus trabalhos, em filmes que são sobre mulheres.

A fala da Brie Larson é uma contra reação ao sistema em que ela está submissa. E eu não a culpo.

Então, que tal todo mundo – no interesse de realmente criar igualdade em nossos espaços nerds de super-heróis – deixar os filmes e programas de TV liderados por mulheres simplesmente existirem sem essa constante reação obsessiva? É exaustivo, sinceramente.

E antes que venham com o ainda-mais-exaustivo “not all men“, homens nerds preconceituosos existem. Aos montes. Sempre que os fanboys têm uma reação explosiva para defender a si mesmos e seus companheiros das generalizações e de afirmações de não serem inclusivos, eu só tenho vontade de balançar uma bandeira gigantesca com a seguinte pergunta:

O que você está fazendo para impedir esse tipo de comportamento?

A incapacidade do fandom masculino como um coletivo para discutir personagens femininos, não-brancos ou LGBTs sem ter que entrar em linguagem misógina, racista ou homofóbica micro-agressiva tem sido um problema desde sempre – e só foi destacada mais explicitamente pela mídia social atual.

Esse é o ponto da coisa, para aqueles de vocês que não são racistas e machistas, especialmente se você é branco e homem: você precisa enfrentar essas pessoas. Isso não significa que você precisa chamá-los com linguagem abusiva ou trazer suas mães pra conversa, mas está na hora de dar nome aos bois: chamar um racista de racista, um machista de machista, um homofóbico de homofóbico – e parar de tentar ser legal (vulgo passar pano) ou deixar essa batalha para os membros marginalizados do fandom geek/nerd. Esses tipos de fãs preconceituosos estão fazendo VOCÊ parecer mal também. Eles estão perpetuando estereótipos sobre você, e toda vez que você deixa um deles pra lá porque você “meio” que concorda com eles sobre odiar uma personagem ou uma atriz que a interpreta, suas preocupações legítimas só estão sendo acumuladas num mar de merda. Parem de adotar, apoiar ou ignorar o discurso de ódio e a micro-agressão no debate de um filme.

Então, senhores nerds, brancos, héteros, vocês precisam ficar de olho no seu fandom.

Ilustração da Renata Nolasco
Ilustração da Renata Nolasco

Traduzido e adaptado do TheMarySue|idem|BrieLarsonBR.

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