Entrevista: Mary and The Witch’s Flower e o conselho de Hayao Miyazaki para a PONOC

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Conheça mais sobre o filme super fofo de uma bruxinha super carismática!

Uma das animações mais esperadas dos últimos anos, Mary to Majo no Hana (Mary e a Flor da Bruxa) – que falamos sobre o lançamento AQUI – foi o primeiro lançamento do Studio Ponoc, um novo grupo formado em grande parte por antigos funcionários do Studio Ghibli. E os fãs das icônicas animações do Studio Ghibli sem dúvidas aguardaram muito por essa obra, que possuía inúmeras similaridades com relação ao estilo dinâmico e a presença de jovens personagens inspiradoras em um mundo cheio de magia e encantamentos.

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Baseado no livro infantil de Mary Stewart “A Pequena Vassourinha” (1971), a história apresenta uma jovem garota chamada Mary, que está entediada de sua vida cotidiana ao lado de sua tia-avó Charlotte. Mary é então lançada em um mundo mágico ao descobrir uma flor rara e uma velha vassoura que a carrega para o Colégio Endor (uma escola de magia administrada pela Madame Mumblechook e pelo brilhante Dr. Dee). Neste mundo, Mary descobre que existem coisas terríveis acontecendo na escola e que ao mentir, ela deverá arriscar a sua vida para tentar corrigir as coisas.

Longe de quebrar com o estilo do Studio Ghibli, é possível para os fãs encontrar cenas e imagens que os remetam ao “Castelo Animado” (Howl no Ugoku Shiro), ao Serviço de Entregas da Kiki (Majo no Takkyūbin) ou à Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi). Apesar disso, o sentimento transmitido pelo filme não é de uma “cópia” ou algo do tipo, mas sim uma oportunidade de reviver a magia dos filmes de Miyazaki, em um verdadeiro atestado que o Studio Ponoc carregará consigo uma linda herança.

  1. Com a ajuda de um tradutor, tivemos a oportunidade de conversar com o fundador e produtor Yoshiaki Nishimura (O Conto da Princesa Kaguya) e com o animador e diretor Hiromasa Yonebayashi sobre o filme e sobre a forma como ele poderia ser um novo começo. Algumas frases foram editadas para melhor compreensão.
  2. Em entrevista ao site TheMarySue, o fundador (e produtor) do estúdio, Yoshiaki Nishimura e o animador/diretor Hiromasa Yonebayashi contaram um pouco sobre o filme e sobre como ele seria um novo começo. E tentaremos reproduzir aqui os principais pontos, em uma tradução livre.

Os dois trabalharam juntos em Memórias de Marnie (Omoide no Marnie) e o diretor também trabalhou como animador em A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado e Ponyo, antes de dirigir o Mundo Secreto de Arrietty. No ano de 2014, o Studio Ghibli encerrou sua divisão de produção e de acordo com Nishimura, os criadores acabaram se separando por um tempo, mas muitos deles desejavam continuar fazendo animações do estilo, usando para isso a herança que haviam recebido do Studio Ghibli.

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Nishimura então procurou Yonebayashi porque queria um diretor que também fosse capaz de utilizar o seu talento como animador, da mesma forma que fazia Miyazaki nos tempos de Ghibli. O produtor afirmou que essa era uma das principais armas para se avançar no campo da animação, e para isso também seria necessário encontrar uma história com bastante dinâmica.

“A Pequena Vassourinha” é certamente uma história bastante dinâmica, cheia de ação e com magias fascinantes. E um dos principais aspectos dos filmes do Studio Ghibli é a forma tão natural que a magia se integra ao mundo cotidiano dos personagens. Por vezes, é possível ver coisas absolutamente fantásticas e estranhas acontecerem sem qualquer explicação ou comentário, e ainda assim seguir a história como se nada tivesse acontecido. Mary e a Flor da Bruxa é cheio desses momentos, que duram poucos segundos dentro de uma sala de aula ou de um salão cheio de artefatos. Nesse sentido, a escolha do estúdio não poderia ser melhor.

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Nishimura também contou que um dia sua filha o abordou e fez a seguinte pergunta: “Papai, eu amo seus filmes, mas por que eles são tão tristes?”. Aquela conversa serviu como gatilho para buscar uma história mais feliz para a personagem principal, de acordo com ele.

Mas o filme também não desaponta como uma história infantil. Yonebayashi, tratando de forma bastante séria o assunto, afirmou que em seus filmes anteriores (especialmente As Memórias de Marnie) teve a chance de conversar com o público antes da exibição dos filmes, sendo surpreendido pela enorme quantidade de crianças que estavam presentes. Assim, seu objetivo é o de fazer filmes que sejam divertidos para as crianças que os assistam. E se isso soa familiar, é porque claramente isso faz parte da herança deixada por Miyazaki, que sempre pregou o respeito pelas crianças.

Yonebayashi também afirmou que logo após a abertura do Studio Ponoc, procurou Miyazaki e além de receber sua bênção, também recebeu um importante conselho: “Você realmente precisa ter a convicção para criar um novo estúdio de filmes e também para mostrar às crianças filmes que valham a pena”. As crianças, de acordo com ele, são muito afetadas pelos filmes que assistem, então não é correto ir contra essa confiança que elas tem em quem fez o filme. O objetivo do estúdio é portanto, não apenas poder satisfazer as crianças, mas também causar impacto nos adultos.

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A arte é comumente reconhecida como algo “autobiográfico”, de forma que Yonebayashi também declarou querer melhorar seu estilo e se reconhecer nos pequenos progressos que conseguir em seus personagens. “Os três filmes que dirigi apresentavam jovens garotas como heroínas, e cada um desses filmes foi um pequeno passo para frente. Nenhum desses filmes demonstrou um crescimento gigantesco ou mudança repentina nas personagens, e esse segue os anteriores. Mary é capaz de dar um passo a frente. E assim como as garotas avançaram em seus filmes, eu também quero mudar.”

Por fim, o diretor deseja que a audiência possa se sentir da mesma forma: “Eu acho que há muitos jovens na plateia que assistirão ao filme pensando que podem mudar a si mesmos, dando o próximo passo. E eu espero que as ações de Mary possam encorajá-los a isso”. Considerando que o estúdio tem seu nome originado na palavra croata “ponoć” (cujo significado é meia-noite, representando o início de um novo dia), Mary e a Flor da Bruxa é uma declaração de sua vontade de seguir em frente.

O filme foi lançado no Japão em 08 de julho de 2017 e nos EUA em 19 de janeiro de 2018. Ainda não há previsão para o lançamento oficial no Brasil.


Fonte: TheMarySue

Créditos das imagens: GKIDS

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).