Em defesa da “agenda politicamente correta” da Marvel

capa - sjw

Ou como devemos parar de nos preocupar e começar a nos acostumar com heróis de gênero, sexualidade ou raça diferente dos nossos.

Quando Pantera Negra foi lançado, para surpresa de ninguém, o filme foi tão excepcional quanto todos os outros filmes da Marvel – se não muito melhor! Mesmo antes de seu lançamento, o filme já estava sendo elogiado como um marco cultural, com o fato de ser o primeiro filme de super-herói de quadrinhos liderado por negros dentro de uma franquia de filmes mainstream. Não foi à toa que o filme conseguiu 3 estatuetas do Oscar e nominações para mais 3 categorias além das vencedoras.

Infelizmente, para cada ação, há sempre uma reação oposta, com a tal da “reação oposta” chegando através de uma reação online de uma minoria raivosa composta de duas facções. Uma facção era de um punhado de fãs da DC que estavam amargurados porque seus filmes de quadrinhos preferidos aparentemente não eram tão bem recebidos quanto os da Marvel (essas pessoas são conhecidas como más perdedoras). A outra facção era de trolls amargurados com o fato de que um filme popular de Hollywood apresentava atores que não eram predominantemente homens brancos heterossexuais como eles (essas pessoas são conhecidas como racistas).

Com ambas as facções unidas em uma aliança profana, eles tentaram “sabotar” o filme através das agora famosas “bomb review” no Rotten Tomatoes – e eles teriam se safado não fosse por esse intrometido do Facebook fechando o grupo de racistinhas! E honestamente, essa tentativa triste e patética de dar classificações ruins pro Pantera Negra não seria tão digna de notícia se fosse apenas um incidente isolado; mas, infelizmente, como qualquer outro exemplo de drama na internet, esses incidentes raramente são isolados. Como a gente já anda acompanhando, aconteceu também com Star Wars: O Despertar da Força e com Capitã Marvel.

Essa reação contra esses filmes reflete uma reação similar que a Marvel Comics vem enfrentando nos quadrinhos, com a acusação de que estão querendo empurrar uma nefasta “agenda feminista” e de “Social Justice Warriors” para arruinar a indústria dos quadrinhos – criando personagens de quadrinhos que não são heterossexuais. E não são homens brancos, é claro. Sim, o grande problema vem sempre de homem branco hétero né, colegas, chocantemente.

marvel 1

Mas vamos começar por partes.

Existe mesmo uma “agenda SJW” na Marvel?

Para ser justa, muitos desses “novos” personagens que estão surgindo são contrapartes de outros super-heróis da Marvel que são mais populares. Entre eles estão um Homem-Aranha negro (Miles Morales), uma Miss Marvel paquistanesa (Kamala Khan), um Homem de Ferro que na verdade é uma mulher negra (Riri Williams), uma Thor Garota (Tarene Olson) e uma mulher lésbica e latina no lugar do Capitão América, a Miss America (America Chavez). Entre outros personagens

Embora essas tentativas de “reciclar” personagens de super-heróis recebessem, na melhor das hipóteses, um revirar de olhos de alguns fãs dos quadrinhos, na pior das hipóteses eles eram acusados pelos fanáticos mais obcecados de fazer parte de uma tentativa malévola dos SJWs feministas de “des-masculinizar” os personagens, de tirar a “civilização ocidental” dos quadrinhos através do “marxismo cultural” e do “genocídio branco”. (Não, é sério. Parem de rir. É nisso que eles realmente acreditam! Aparentemente esse delírio não é exclusivo do Brasil. Aliás, outra coisa importada do “estilo” norte-americano, né…)

Para apoiar suas teorias de conspiração, esses fãs de quadrinhos frequentemente usavam como maior argumento o suposto declínio das vendas de quadrinhos como a maior prova de que a Marvel estava sendo arruinada por sua chamada “agenda SJW”. Curiosamente, quem parecia concordar com essas afirmações era a própria Marvel. Seu próprio vice-presidente de vendas alegou que suas vendas ruins de quadrinhos foram devido à “pressão pela diversidade”, e vários meses depois, a empresa anunciou o cancelamento da maioria de suas histórias em quadrinhos mais diversificadas.

Mas isso era verdade? A Marvel estava realmente forçando uma “agenda SJW” maléfica destinada a destruir seus próprios quadrinhos? E as vendas de quadrinhos estavam realmente sofrendo por causa disso? Ou isso é tudo apenas uma grande conspiração sendo empurrada por fanboys de quadrinhos com muito tempo disponível na vida pra falar merda? Mais importante ainda, mesmo que a Marvel realmente estivesse pressionando essa tal agenda, seria realmente “ruim”? Porque a gente definitivamente não pensa assim.

Thor Girl

Novamente tentando ser justa, faz sentido a reclamação de que “reciclagens” são ruins? Vamos analisar:

  • Homem-Aranha: a máscara pode ser usada por qualquer pessoa, como o próprio Stan Lee afirmou;
  • Homem de Ferro: é uma armadura, passível de uso de qualquer pessoa;
  • Thor: qualquer pessoa “digna” de levantar o Mjölnir terá os poderes provindos dele;
  • Hulk: experimento científico passível de ser replicado em qualquer pessoa;
  • Capitão América: mesmo caso do Hulk.

E assim por diante. As reciclagens são totalmente justificáveis. Elas são ressignificações dos personagens e isso não precisa ser interpretado necessariamente como uma coisa ruim.

Ps.: Felizmente muita gente mudou de ideia a respeito da “agenda SJW” quando esse vídeo do Bob “Moviebob” Chipman foi postado, que é informativo pra caralho e super interessante de assistir se você tem algum domínio do inglês (ele fala rápido pra caralho mas o vídeo é MUITO bom mesmo):

Além disso, seria realmente interessante que a Marvel considerasse, além de reutilizar personagens já-existentes (que a gente até aqui entende não ser uma coisa necessariamente ruim), contratar autores mais diversos para criar personagens originais! E também, é bom criticar a reação da Marvel em relação à reação negativa contra seus personagens, já que isso não fez nada além de dar um tiro no próprio pé adicionando combustível ao já furioso mar de merda de indignação dos fanboys da internet. Enfim, eu  realmente desejo que a Marvel crie mais personagens originais vindo de autores que façam parte das minorias (que deem significado, profundidade e identificação real com seus personagens e o contexto social deles) e que ela aja com mais tato em resposta às críticas.

Mas que outra companhia de histórias em quadrinhos respeitável ousaria trocar o gênero e a raça de seus personagens mais icônicos? Bem, tem a rival da Marvel, a DC Comics. Sabe? Se os fãs de DC estão bem com personagens como a Supergirl, a Batwoman e a Mulher Gavião, por que os fãs da Marvel deveriam se sentir ameaçados por personagens como a Capitã Marvel ou o Miles Morales?

Mas e as vendas?

Daí pode vir alguém pra dizer “Mas esses novos quadrinhos de super-heróis não estão vendendo bem. Eles estão matando as vendas de quadrinhos da Marvel. Até mesmo o vice-presidente de vendas admitiu isso!” E esse seria um bom ponto se os números das vendas de quadrinhos fossem uma métrica objetiva confiável, mas por várias razões, eles não são.

Como pessoas como Nick Rowe e Nash Bozard explicaram no Twitter, o declínio nas vendas de quadrinhos tem menos a ver com uma “agenda SJW” e mais a ver com um modelo de negócios ultrapassado, que coloca o peso dessas vendas em lojas de quadrinhos através de pré-vendas mensais.

Como Nash explica:

Por causa do mercado direto, os títulos de quadrinhos vivem ou morrem não por vendas de graphic novels ou mesmo vendas mensais, mas por *pré-vendas* das próximas edições. As lojas de histórias em quadrinhos se tornam os árbitros do que vende, porque estão tentando sobreviver e não querem fazer apostas arriscadas. Se todo esse sistema te soar estragado e uma maneira bem ruim de avaliar o público e o que eles querem: VOCÊ ESTÁ CERTO. Os títulos de revistas em quadrinhos não têm espaço para crescer ou decolar. É tudo sobre buzz [o que cria hype]. É tudo ou nada saindo do portão.

Mas mesmo que as vendas de revistas em quadrinhos fossem uma métrica confiável, e mesmo se seu recente declínio fosse causado por super-heróis de gênero/raça, a verdadeira questão deveria ser… e daí?

As vendas de revistas em quadrinhos não são um problema porque não é onde a Marvel está ganhando mais dinheiro com suas propriedades intelectuais. O dinheiro real, claro, está sendo gerado, não pela loja de quadrinhos, mas pelas bilheterias.

Como o Moviebob mencionou no vídeo acima, a Marvel, a esta altura, só vê suas histórias em quadrinhos como laboratórios de testes para potenciais enredos e conceitos de filmes.

O verdadeiro Ultimato da Marvel

marvel crew

Dizer que a Marvel tem ganho muito dinheiro com seus filmes seria até eufemismo. O total de bilheteria de todos os seus filmes supera o PIB de todos os principais países. Que a franquia da Marvel continua a durar firme e forte por dez anos seguidos e contando não é nenhum milagre, apesar de levantar a questão de quanto tempo esse sucesso pode durar.

Enquanto a maior vantagem dos filmes é que eles ganham mais dinheiro do que os quadrinhos, sua maior desvantagem é que seus super-heróis, ou melhor, os atores que os interpretam, não são tão atemporais. Ao contrário dos super-heróis de seus quadrinhos, feitos de tinta, os super-heróis de seus filmes são retratados por atores de carne e osso que envelhecem. Mesmo que o MCU continue por mais dez anos, o mesmo não pode ser dito de seus atores, especialmente porque muitos deles verão seus contratos expirarem após o próximo Vingadores.

E mesmo se assumirmos que o Chris Evans e os outros estão dispostos a estender seus contratos, é apenas uma questão de tempo até que eles se tornem velhos o suficiente para se cansarem de seus papéis (ou decidirem que já têm riqueza o suficiente) e decidirem se aposentar. Nesse ponto, supondo que o MCU continue a continuar forte, a Marvel ficará com um dilema sobre o que fazer com a franquia, e eles terão duas opções possíveis:

  1. Reiniciar o MCU inteiro do zero;
  2. Substituir os personagens antigos com novos atores.

Considerando o quanto os filmes de MCU definiram o gênero, seria quase impensável reiniciar a franquia inteira; e considerando o quanto o público se apegou aos personagens e aos atores que os retratam, substituí-los por novos atores parece quase igualmente impensável.

news characters marvel

Mas e se houvesse uma terceira opção? E se a franquia tivesse permissão para continuar fazendo com que os personagens mais antigos passassem seus mantos para personagens novos e mais jovens para servirem como seus sucessores?

Nós já estamos vendo uma parte desse conceito com Tony Stark tomando o jovem Peter Parker como um pupilo, um super-herói em treinamento. E com a estréia da Capitão Marvel, ela pode muito bem acabar tendo uma jovem adolescente paquistanesa como protegida em um futuro próximo.

Fora o fato de que com o desaparecimento de muitos personagens no Vingadores: Guerra Infinita, o filme poderia servir como um ponto de partida para personagens secundários para levar a tocha no lugar dos personagens principais. E se o Falcon aceitasse o escudo e título de Steve Roger como o novo Capitão América? E se o próximo Homem de Ferro for passado pra frente e se desenvolver nas mãos habilidosas da Shuri? As possibilidades são infinitas. Eu não posso falar oficialmente pela Marvel, claro, então não sei se é isso que eles têm em mente; mas se for, eu não ficaria surpresa, pra dizer no mínimo.

A Marvel claramente tem um trem de dinheiro andando pelo mundo com seus filmes, e como esse trem não parece que vai desacelerar tão cedo, claramente ela quer manter o trem andando por muito tempo, mesmo depois que seus atores originais eventualmente desembarcarem.

Então quem sabe? Talvez então, quando o MCU lançar a fase cinco, veremos um Peter Parker mais velho liderando um novo grupo de Vingadores, incluindo super-heróis como a Kamala Khan, Riri Williams, Kate Bishop, America Chavez e talvez até mesmo a Garota Esquilo.

E se essa é realmente a rota que os filmes da Marvel vão seguir, não seria melhor do que ver o MCU acabar? Se este é o jogo final da “agenda SJW” da Marvel, então vamos todos dar as boas-vindas às nossas novas heroínas feministas! ¯\_(ツ)_/¯


Texto traduzido e adaptado da Medium.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).