Doctor Who agora tem uma DOUTORA, e o seu argumento é inválido

Jodie Whittaker é a nova doutora e nós estamos chorando de felicidade

É 2017 e essa mudança já estava DEMORANDO, mas ainda assim uma parte do fandom não está feliz.

BBC anunciou que a 13ª regeneração do Doutor será, pela primeira vez na história, uma mulher. Precisamente a atriz Jodie Whittaker, que talvez seja mais conhecida pelo episódio “The Entire History of You“, de Black Mirror (aquele em que todo mundo grava tudo em um chip atrás da orelha). Mas mesmo em 2017, o anúncio veio com um volume considerável de controvérsia. O que isso significa para a mais longeva série de ficção científica da TV? Vamos analisar essas e outras questões do fandom sobre a escolha inédita.

‘PODE ISSO ARNALDO?’ docto who 1

PODE! Regeneração em diferentes gêneros É CANON em Doctor Who! Isso sempre foi especulado pelos fãs, desde a década de 60, e com a retomada da série, diversas evidências apontam para isso. Quando o doutor de David Tennant regenera para o de Matt Smith, o personagem brevemente acha que é uma mulher por causa do cabelo longo. No episódio Hell Bent, da nona temporada, o doutor atira em um general de Gallifrey, que então se regenera em uma mulher (a atriz T’nia Miller). Então a resposta é SIM, dentro da série isso sempre foi possível, e não, não foi inventado de uma hora para a outra.

‘É A PRIMEIRA MESMO?’

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Sim e não! Oficialmente, dentro do canon da série, é a primeira vez que uma mulher se junta ao panteão de doutores. Mas em uma comédia produzida pela BBC em 1999, chamada Doctor Who: The Curse of Fatal Death, o doutor, interpretado por ninguém menos que Mr Bean (Rowan Atkinson), regenera na forma feminina, interpretada pela atriz Joanna Lumley. Não está dentro da timeline oficial da série, mas é um especial da BBC. O episódio, no entanto, é sempre lembrado principalmente pelas piadinhas sexistas do roteiro.

‘MAS TRADICIONALMENTE O DOUTOR É HOMEM!’

doctor who 3 E DAÍ? Isso não significa NADA, especialmente numa série conhecida por ser inovadora e ousada. O próprio conceito regeneração já é uma quebra de paradigma. E por mais que Doctor Who seja inovadora em vários aspectos, a dinâmica de um herói centenário com uma sidekickjovem e atraente é atrasada e baseada em arquétipos sexistas. O primeiro doutor, um velho sábio e professoral, ensinava sobre o universo para sua neta, uma jovem ingênua e atrevida. Depois, com a chegada de doutores mais jovens e atraentes, a dinâmica entre o protagonista e sua companion foi mudando para um relacionamento mais romântico, e talvez ainda mais problemático. Afinal, o que um faz um alien com centenas de anos se atrair por uma jovem humana com menos de 20? Alguns argumentam que essa tensão sexual contribuía para a trama, mas a boa parte do fandom sempre desaprovou essas romances. O doutor de Capaldi quebrou essa corrente, para o alívio dos fãs, mas o personagem principal ainda era um homem, assim como todos os showrunners e a maioria dos roteiristas.

‘UMA MULHER NO PAPEL PRINCIPAL VAI MUDAR ALGUMA COISA?’

doctor who 4SIM! Representatividade importa! Especialistas e pesquisas afirmam que o apagamento e a relegação de certos grupos na mídia diminui a autoestima e aumenta níveis de depressão desses grupos. Em contrapartida, quando se coloca mulheres e pessoas não brancas em papéis que são tradicionalmente de homens brancos, passa-se a poderosa mensagem de que essas pessoas são relevantes, e que podem ser donas da narrativa. Além disso, para uma série que tem 35 temporadas e um filme, ter uma protagonista que altera TODA  dinâmica da narrativa é empolgante e abre novos caminhos. E essa infinidade de possibilidades é a marca registrada de Doctor Who.

Além disso, a maior parte do fandom de Doctor Who é composta por mulheres, de todas as idades. A maioria delas cresceu querendo ser o Doutor, mas acreditando que seu lugar é como companion. Não que as companions não sejam INCRÍVEIS, mas faz toda a diferença ser a dona da história.

‘MAS O PÚBLICO VAI REJEITAR ESSA DOUTORA!’

doctor who 5 Sempre que um protagonista querido deixa a série, e um ator novo é anunciado, a reação da maior parte do fandom é de luto e rejeição. Isso aconteceu quando Christopher Eccleston deu lugar a David Tennant, quando Tennant deu lugar a Matt Smith, e quando Smith deu lugar a Peter Capaldi. É inevitável! E Capaldi foi provavelmente o mais odiado de todos, justamente por quebrar a linhagem de doutores jovens e atraentes. PORÉM, a BBC sabe o que faz quando se trata de casting. Em poucos episódios os novos doutores são sempre abraçados pelos fãs. Tudo o que é preciso é uma BOA HISTÓRIA.

‘ISSO É SÓ PRA AGRADAR FEMINISTAS’

docto who 6 Ok, tecnicamente isso é “culpa das feministas”mas não pelos motivos que as pessoas que estão reclamando pensam. O movimento feminista mudou a sociedade de várias maneiras, desde o direito ao voto até uma maior presença feminina em todas as instâncias sociais, inclusive dentro do fandom de Doctor Who, que é majoritariamente femininoIsso faz com que seja cada vez mais difícil justificar o fato de que o protagonista seja sempre um homem.

Simplesmente não existe um bom motivo pra isso, especialmente em ficção científica! Por que é possível aceitar que um saleiro gigante com um desentupidor de pia como arma seja a raça mais perigosa do universo, e ao mesmo tempo é TÃO DIFÍCIL aceitar que uma mulher possa salvar o mundo.

‘TÁ MAS EU SOU MULHER E QUERO TER O DOUTOR COMO CRUSH!’

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Falando por experiência própria, não tem NADA de errado em ter crush numa mulher. Especialmente se ela for a Doutora. Mas entendo que ter um cara bonitão pra admirar é sempre 10/10, só que esse cara não precisa ser o protagonista! Companions atraentes sempre estiveram por aí, e os homens heterossexuais nunca reclamaram que elas não eram as personagens principais. É só botar um companion gatinho ou voltar com o Capitão Jack Harkness que os seus problemas acabaram!

‘OK, OK! MAS EU NÃO QUERO QUE O DOUTOR SEJA MULHER!’

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 Aí já é um problema seu, né, meu anjo?

Texto originalmente publicado no Storia Brasil.

Quem escreve? Micheli Nunes

Jornalista, especialista em séries de TV, cinema e cultura pop. Apaixonada por desenhos animados, tem um gato chamado Gunter e compete com ele pra ver quem gosta mais de dormir. Aspirante a ilustradora e confeiteira, é SJW e feminista nas horas vagas.