Diretor de Assassin’s Creed Odyssey se desculpa por obrigar personagens a entrarem em relacionamento heterossexual

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Depois de tanta bola dentro, um vexame…

Quando Assassin’s Creed Odyssey foi lançado no ano passado, gamers e resenhistas (nós inclusive) elogiaram o RPG por permitir que os usuários se envolvessem em romances do mesmo sexo. O sistema do jogo permite que os jogadores controlem um mercenário masculino ou feminino (Alexios ou Kassandra) enquanto atravessam a Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta.

Após o anúncio do jogo na E3 2018, os desenvolvedores da Ubisoft Quebec apresentaram aos jogadores a possibilidade, além de escolha entre um protagonista masculino ou feminino, opções de romance com personagens do mesmo sexo, elementos presentes pela primeira vez nos 11 anos da série.

Porém, o diretor criativo do jogo emitiu um pedido de desculpas por causa de uma parte da história da última expansão que obriga o protagonista a se envolver em um relacionamento heterossexual, quebrando a promessa de liberdade sexual e invertendo as histórias pessoais construídas por diversos jogadores.

Esse resultado ocorre independentemente de o jogador aceitar ou rejeitar os avanços do personagem, deixando furiosos os jogadores queer e assexuais. Muitos foram para fóruns e mídias sociais para expressar sua raiva pelo desenvolvimento da trama.

*** Alerta: o texto a seguir contém spoilers de Shadow Heritage, segundo capítulo da expansão Legacy of the First Blade de Assassin’s Creed Odyssey. *** 

Em entrevista à EW, o diretor do jogo, Jonathan Dumont, disse inicialmente:

Como a história é voltada para a escolha, nunca forçamos jogadores em situações românticas com as quais possam não se sentir à vontade … Os jogadores decidem se querem se envolver com os personagens romanticamente. Eu acho que isso permite que todos construam os relacionamentos que eles querem, o que eu sinto que respeita o estilo e os desejos de todos.

No entanto, depois da última DLC, o diretor fez uma publicação no fórum do jogo, afirmando que “apesar das boas intenções dos desenvolvedores para o capítulo dois, ficou claro que nós perdemos o ponto”. Dumont afirmou que neste arco da história, independente da escolha do jogador por Kassandra ou Alexios, o protagonista terá um filho, que seria o elo que ligaria o personagem à linha sanguínea dos Assassinos. Na prática, isso quer dizer que ainda que o jogador rejeite o envolvimento romântico, ainda acabará tendo um bebê com o filho (caso jogue com Kassandra) ou filha (caso jogue com Alexios) de Darius, apresentado em Odyssey como um proto-assassino e o primeiro a utilizar uma lâmina oculta. Dumont ainda afirmou:

Alexios/Kassandra acabam percebendo sua própria mortalidade e o sacrifício feito por Leônidas e Myrrine para manter o seu legado a salvo e sentem o desejo e dever de preservar sua importante linhagem. Nossa meta era permitir que os jogadores escolhessem entre uma visão utilitarista da manutenção de sua linhagem e a formação de um relacionamento romântico.

Porém, o peso dessa escolha – que é a perpetuação biológica de sua linhagem, apesar de sua orientação sexual – não ficou claro. A clareza e motivação dessa decisão foram mal executadas. Ao continuar a aventura (no próximo episódio, Bloodline), por favor saibam que vocês não precisarão se envolver em um relacionamento romântico duradouro caso não desejem.

No fórum do jogo no reddit, os fãs criticaram a mudança repentina (e importante) na direção da história, e a mudança soou mal mesmo entre os jogadores que seguiam uma “rota heterossexual”. Um dos usuários afirmou se tratar de algo “realmente preguiçoso e burro por parte da Ubisoft”, afirmando que a empresa deveria “ou se manter em histórias lineares ou garantir a liberdade aos jogadores. Essa porcaria de meio-termo estranho acaba tornando todos os diálogos opcionais e fazendo as ‘escolhas’ parecerem uma completa perda de tempo”. “Ser forçado em uma história do tipo ‘lol aqui, vamos embarcar nessa aventura sexual e ter um bebê?’ … Eu literalmente dei para trás.”, escreveu outro jogador que afirmou que os personagens são bissexuais. “Isso honestamente mata qualquer vontade que eu tinha de jogar o resto do DLC. Eu realmente não tenho nenhum desejo em ter uma história romântica forçada garganta abaixo em um jogo que até agora, pelo menos me dava a opção… Que péssima decisão.”, comentou outro jogador.

Dumont respondeu:

Nós lemos as suas respostas online e as levamos ao coração. Essa foi uma experiência de aprendizado para nós. Entendermos o quão ligados vocês se sentem às suas Kassandras e Alexios nos tornou mais humildes e saber que os decepcionamos não é algo que não levamos a sério.

Outra coisa que irritou alguns jogadores foi o nome do troféu (achievement) conquistado após a cena em que o personagem tem o filho. Intitulado “Growing Up” (Crescendo), o troféu soou extremamente ofensivo, dando a crer que ser homossexual ou não ter filhos é uma “fase que passa quando você cresce”.

Questionada, a Ubisoft afirmou que irá alterar o nome do troféu em uma atualização futura. Porém, nem a história e tampouco as escolhas da DLC serão alteradas. As promessas são de que os futuros capítulos vão “tornar o desenvolvimento e a escolha do personagem muito mais claros para os jogadores, e é aí que eles serão capazes de decidir como eles querem lidar com seu relacionamento agora” sem interromper a linhagem de Assassinos.

Uma solução simples para o problema seria manter o relacionamento que o player escolher e deixar que o irmão/irmã do protagonista continue a linhagem, aliás. Simples e fácil. Mas vamos ver quais rumos a história vai tomar…

 

ATUALIZAÇÃO

Ao que parece, a Ubisoft mudou de ideia sobre a DLC e resolveu alterá-la. O diretor se pronunciou da seguinte forma:

Após ouvir a repercussão entre os jogadores e discutir com a equipe de desenvolvimento, estamos fazendo mudanças em uma cena e em alguns diálogos no Shadow Heritage para melhor refletir a natureza do relacionamento para jogadores que selecionam um enredo não romântico. Essas mudanças, junto com a renomeação do troféu/conquista, estão sendo feitas agora e serão implementadas em uma atualização futura.

Menos mal! Parabéns a Ubisoft pela atitude.


Fontes: Polygon | TheMarySue – Imagens: Ubisoft

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).