Dica de mangá: A Menina do Outro Lado

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O recente mangá que encanta e desperta a curiosidade de quem lê.

Recentemente, a editora Darkside lançou o mangá A Menina do Outro Lado, de Nagabe.

A Menina do Outro Lado

Sempre me dá uma alegria enorme quando editoras brasileiras conseguem trazer mangás que fogem do padrão shonen e shoujo. Para quem não sabe, shonen são histórias voltadas para meninos de 7 a 18 anos e os shoujos a mesma faixa etária, mas para meninas. E não há nada de errado com eles – inclusive AMO/SOU.

São bem divertidos, mais populares, roteiros semanais, que muitas vezes seguem fórmulas, corridos, e geralmente pouco aprofundamos. E por serem tão populares, rola, às vezes, de acharem que mangá se resume a eles.

Mas isso é apenas uma faceta dos mangás.

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E A Menina do Outro Lado traz algo como um estranho conto de fadas sombrio e misterioso, que enfeitiça.

A HQ possui uma capa bucólica e misteriosa, que, imediatamente, gera aquela curiosidade para saber o que tem ali dentro.

Daí que você se depara com Shiva – quer ver a Flávia Gasi falando de Shiva? Clique AQUI -, uma menina perdida da sua família que mora com um ser estranho, o Sensei. De feições animalescas – bizarra, assustadora – pele negra como que queimada pelo fogo, rosto pontiagudo, chifres, olhar perscrutante, alto e bem magro, mãos finas e nodosas, de unhas afiadas, de rabo fino e vestindo roupas humanas. Inclusive, roupas essas de alto garbo que demonstram um certo refinamento estético e talvez cultural.

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Eles vivem numa casa no meio do mato. Ela espera ansiosamente pela sua tia que, segundo o Sensei, um dia virá pegá-la.

Será?

Enquanto isso, ele proíbe Shiva, a garotinha, de nunca sair sozinha, em hipótese alguma, pois, lá fora é perigoso.

Mas como qualquer menina dos seus 6, 7 anos (não diz), tudo ela quer ir pro mato, desbravar as pequenas belezas que uma floresta pode oferecer. Afinal, ainda é uma criança. E ela não sabe dos perigos que pode sofrer.

Daí vem a construção do mistério e uma crítica não tão velada:

O medo do desconhecido que mata. Não importa quem.

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Rodeado por esse mistério, aos poucos o autor vai explicando o universo de A Menina do Outro, daqueles que são do Mundo de Dentro e aqueles que são do Mundo de Fora. Dos humanos e dos infectados, amaldiçoados. Mas do quê? E como? E por que?

Esses questionamentos geralmente permeiam bons suspenses. E o fato de estarem presentes nesta história com ar tão bucólico e inocente, deixaram a leitura cativante e atraente.

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A narrativa é compassada. Tudo é apresentado ao seu tempo. Afinal, é uma pequena garotinha e um ser muito, muito, MUITO estranho. E eles apresentam uma estranha cumplicidade. É a experiência dessa criança, ainda inocente dos preconceitos que permeiam a sociedade, que simplesmente aceita o outro do jeito que ele for.

E à medida que essa relação é apresentada, rola uma sensação de confiança do leitor para com os personagens. Mas ali, num canto escuro, meio escondido, numa frestinha, contudo, sempre mostrando evidência da sua existência, mora a desconfiança. Talvez não do Sensei. Mas do ambiente tóxico em que a história se passa.

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E aqui eu chamo, sim, de ambiente tóxico aquele que é regido pela ignorância, medo do desconhecido e imediato julgamento pautado no “bem da sociedade”. Aquele que não investiga, não estuda, não dá a oportunidade para compreender o que se passa para, então, procurar por uma única solução – de várias. Que abusa do poderio militar para forçar essa solução. Qualquer semelhança com nossos tempos é mera coincidência (será?).

Ou seja, a toxicidade apresentada neste volume não tá na tal maldição, mas no comportamento humano perante o problema.

Além disso, o roteiro vai, cadenciadamente, abordando temas mais complexos e filosóficos. A forma abordada aqui não é direta e explícita, mas realmente como um elemento que existe e causa reflexão e (mais) questionamentos.

Um deles é  “o que nos torna humanos”. Ele é suscitado quando o ser que parece ter saído diretamente das trevas é mais amável, cuidadoso, compreensivo e humano, do que os próprios humanos.

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A leitura é delicada, tanto pela história quanto, principalmente, pela arte. De traço fino e leve, os detalhes estão na composição dos quadros. No estilo de traço japonês, mas sem exageros de estilização, os corpos são proporcionais, na medida do possível e o desenho é limpo nos personagens. Principalmente os rostos.

A simplicidade de traços usados para criar a face de Shiva chama a atenção. Às vezes, são apenas dois pontos e um traço para dar a expressão de espanto ou incompreensão infantil perante o que acontece.

Ou apenas um par de olhos claros em meio a um emaranhado de negritude que podem tanto passar atenção, carinho ou raiva.

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A obra é recheada de momentos de passagens, lindos, de uma delicadeza incrível e que retrata bem o relacionamento de Shiva e Sensei: confiança e afabilidade. E tanto nesses momentos quanto em outros, me peguei admirando as páginas e absorvendo o clima e a mensagem que Nagabe deixava explícita em seu traço.

Se deixar levar pela HQ é o natural.

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E por isso me encantei por A Menina do Outro Lado, de Nagabe, HQ de capa dura e papel offset, que terá continuação em breve.

Uma pequena análise do nome Shiva:

Quem escreve? Belle Felix

Belle Felix, ou Lilo para os íntimos, não sabe dançar a hula, mas veste sua roupa de coelho e tenta sempre fazer seu melhor! Tradutora do material da editora Valiant no Brasil, resenhista no Universo HQ e tem um site e canal no YouTube, o Plano Infalível. E, sim, pretende dominar o mundo.