Dica de filme anime: Mirai no Mirai – a fantasia que reforça laços de amor familiar

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Com entrevista do diretor no final!

Filmes sobre famílias podem ser divertidos, mas o assunto acaba um pouco batido por ser assunto cotidiano e por exigir algumas características unidimensionais: personagens estáticos, a promessa de que tudo ficará certo para sempre ou conflitos exagerados.

Nosso objetivo apontando isso não é simplesmente criticar essas histórias, que podem ser maravilhosas e nos fazer derramar algumas lágrimas, mas sim de chamar a atenção sobre o quão habilidosa e surpreendente Mirai é capaz de nos prender no mundo de seus personagens.

O filme começa com o protagonista, o garotinho Kun, esperava em casa enquanto brinca com seus trenzinhos, quando seus pais chegam e o apresentam para sua nova irmãzinha, Mirai (que significa Futuro). É uma situação maravilhosa dentro do contexto familiar, mas não uma que deixa de exigir esforços por aceitação dos filhos mais velhos – especialmente se eles são, ou eram, filhos únicos. A mãe de Kun tem de voltar a trabalhar enquanto seu pai cuida de casa, então Kun começa a sentir ciúmes da irmã. Ao que parece, mesmo mudanças felizes requerem adaptação.

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A história é marcada por vários chiliques de Kun, de forma bem realista, levando em conta que o diretor Mamoru Hosoda (também diretor de filmes maravilhosos como Toki o kakeru shôjo, Wolf Children, Summer Wars e Bakemono no Ko) se inspirou em sua própria família.

A dinâmica familiar não é estranha para qualquer um que tenha irmãos, mas daí Hosoda adiciona um elemento fantástico à história: Kun, após suas birras, começa a se encontrar com figuras do passado e do futuro. Sua própria irmã Mirai já em sua adolescência, seu falecido bisavô e outros parentes começam a interagir com ele, de forma que ele começa a compreender melhor a história de sua família.

Mirai é um filme que trabalha a intimidade das famílias, suas vidas cotidianas, e o resultado é super amável e acalentador.

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Através dessa jornada no tempo, Hosoda nos lembra que famílias são constantes de mudança, aceitação e crescimento. Algumas situações podem causar mudanças óbvias, como a morte de um parente, um casamento ou nascimento, que são eventos grandes que marcam nossa memória coletiva. Mas outras vezes, as coisas mudam simplesmente pelo passar do tempo. Há incontáveis momentos que podem não parecer ter quaisquer consequências na hora, mas que acabam se tornando cruciais quanto a nossa formação de caráter e relacionamentos com os outros.

O filme é uma representação sincera da infância e da infantilidade.

Em Mirai, Hosoda demonstra que o mundano e a rotina são tão dignos do nosso tempo e admiração quanto o dramático e animador – mas não se preocupem, o filme possui ambos os elementos.

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Em entrevista concedida por e-mail ao site TheMarySue, o diretor comentou sobre os desafios de criar uma família que fosse ao mesmo tempo amável e imperfeita, falar sobre compreensão da infância e da habilidade que crianças têm de unir o fantástico com o familiar. A entrevista traduzida pode ser conferida abaixo:

Entrevistadora – Eu acho interessante que apesar da história, em sua maior parte, ser contada pela perspectiva de Kun, ainda há um bom tempo gasto no filme com seus pais. Você estava tentando intencionalmente fazer um filme que tanto os pais quanto os filhos pudessem se sentir representados?

Hosoda – Normalmente quando você faz uma criança ser o protagonista, os pais costumam ser os antagonistas. Como se a criança fosse a justiça e os pais apresentados como pessoas que restringem a criança ou que roubam sua liberdade. Ou eles são apenas uma pequena parte da história. Eu não queria fazer isso. Eu queria mostrar ambos como humanos imperfeitos, que vão crescer e mudar. E mesmo os assuntos abordados pelos pais… Em filmes normais de animação, eles possuem pais perfeitos que só pensam em seus filhos, mas neste filme eles são como nós.

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Eles falam sobre seus filhos, mas também se preocupam com trabalho e com a vida pessoal. Eles possuem muitas coisas para se preocuparem. Desenvolver pais realistas como eles foi uma parte importante do enredo do filme, e também na forma de utilizar a animação como uma forma de arte.

Com relação aos pais, você mostrou diferentes tipos de famílias nos filmes anteriores, como em O Rapaz e o Monstro (Bakemono no Ko) e Crianças Lobo (Ookami kodomo no Ame to Yuki). Desta vez há um casal que inverteu os papéis domésticos. Me explique o porquê da escolha dessa dinâmica familiar para ser explorada.

O fato de o pai ficar em casa cuidando das crianças está se tornando algo muito comum em Tóquio hoje em dia. Talvez seis anos atrás você não visse muitos pais carregando seus bebês por aí. Mas hoje isso é algo comum. Então não é como se eu estivesse tentando passar uma mensagem com o filme, mas apenas reproduzindo um fato comum hoje.

Eu acho que o conceito atual de “família” mudou muito do que era antes. Famílias estão tentando entender como devem ser sem precisar se conformar aos padrões antigos.

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Com filmes como A Garota que Conquistou o Tempo, você habilidosamente integrou histórias fantásticas com personagens muito similares às nossas vidas cotidianas. Qual a sua estratégia para combinar esses dois mundos?

Eu acho que os outros tendem a fazer filmes de fantasia apenas pela vontade de criar fantasia. Eles querem criar um mundo fantástico, e por causa disso, acabam deixando o foco nos personagens como algo secundário ou não existente. Eu vejo isso e penso que minha prioridade é o contrário.

Eu gosto de usar a fantasia como uma ferramenta para entender o sentido da vida. Para apresentar a verdadeira natureza das pessoas. Por exemplo, você pode usar a fantasia para apresentar humanos de uma forma que não poderia caso eles vivessem normalmente. Assim você pode ver o verdadeiro caráter da pessoa, e até mais longe, sua alma nua. Eu acredito que isso é importante em um filme. E para fazer isso, eu utilizo a fantasia. Talvez seja por isso que você utiliza essas palavras dóceis afirmando que eu “habilidosamente integrei os dois elementos”.

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Você afirmou que o filme era um tanto biográfico, e que se inspirou nas birras do seu filho. Você sente que aprendeu alguma coisa sobre crianças e seu amadurecimento ao desenvolver Mirai?

Normalmente, nós pensamos que nossas memórias de quando tínhamos quatro anos de idade desaparecem. Mas isso não é verdade, elas estão ali, e você consegue lembrar desde que tenha o gatilho certo. E eu me lembrava de minha infância enquanto interagia com meu filho. E como resultado, pude reviver minha infância. Eu acho que lembrar de como se sentia quando era uma criança é importante quando você se comunica com seus filhos. E eu percebi o quanto isso era importante enquanto fazia Mirai. Quando nós crescemos, vamos esquecendo nossa infância, e por estar esquecida, tendemos a pensar que ela não foi significativa ou importante. Mas isso não é verdade. Infância – especialmente quando você tem entre 4 ou 5 anos de idade – é o momento em que você passa por tantas primeiras experiências. E como você vive essas experiências muda a forma como você vive seu futuro. Foi isso que aprendi.

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Eu achei as cenas com o bisavô de Kun muito bonitas – a forma como elas mostraram como mesmo alguém que não está mais vivo, a vida deles ainda é ligada na sua e é um importante aprendizado. Você pode falar um pouco sobre a linha de história e como você tentou falar sobre as conexões de família?

Quando meu filho era mais novo, o avô da minha esposa – bisavô de meu filho – faleceu. Quando isso aconteceu, eu fiquei triste por esperar que ele pudesse ensinar muitas coisas ao meu filho. E quando vi uma foto antiga dele – ele também tinha uma perna ruim, assim como o bisavô no filme – ele estava fazendo pose em uma motocicleta. E eu pensei em que tipo de passado que ele poderia ter vivido.

Pouco depois disso, meu filho aprendeu a andar de bicicleta sozinho. Eu fiquei realmente surpreso imaginando que talvez alguém pudesse tê-lo ensinado, ou que talvez seu falecido bisavô pudesse ter ensinado. Foi daí que tirei a ideia daquela história.

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Enfim, o filme é super, super fofinho e recomendamos muito. Mirai no Mirai (Mirai do Futuro) foi lançado no Japão em julho.


Texto traduzido e adaptado do TheMarySue.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).