Dez personagens de quadrinhos que estavam muito a frente de seu tempo

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Muitos fãs de quadrinhos sabem que a indústria sempre teve um lado progressista, abordando conceitos e ideias que talvez fossem muito arriscados para serem publicados por outros meios. E isso é demonstrado pelo fato de as ideias de Stan Lee, Jack Kirby, Jerry Siegel e Joe Shuster hoje alimentarem franquias multimídia que movimentam centenas de milhões de dólares ao redor do mundo anualmente. Obviamente, nem todo quadrinho acaba atingindo esse nível de sucesso, mas muitos podem ser grandes incubadores de ideias.

Muitos artistas e escritores de quadrinhos acabam sendo tomados pelo espírito da época, e acabam seguindo as tendências da cultura em massa, mas uma pequena virada sobre algum tema problemático permite a eles fazerem isso melhor do que muitos outros meios de comunicação. Isso quer dizer que muitas vezes as ideias acabam sendo incorporadas nos quadrinhos antes do resto do mundo. Para defender esse ponto, vamos mostrar dez heróis e vilões que surgiram antes do mundo estar “preparado para eles”.

Pantera Negra

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Jack Kirby era o grande cara das ideias no Universo Marvel, uma fonte de conceits que ainda se mantém fortes hoje. Quando ele introduziu o Rei T’Challa, o Pantera Negra, nas páginas de Quarteto Fantástico #52, ele liberou o primeiro super-herói africano nos quadrinhos mais famosos, mudando o jogo completamente. Kirby amou inverter os estereótipos para fazer algo completamente novo e a nação fictícia de Wakanda não era uma selva primitiva, mas uma utopia tecnológica escondida do mundo ocidental. O Pantera apareceu esporadicamente nos livros da Marvel por um tempo, se unindo aos Vingadores para uma xícara de café, mas apenas em 1998 é que o personagem se concretizou como um personagem relevante no universo Marvel.

American Flagg

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Em 1983, no auge da era Reagan, ninguém poderia prever que Donald Trump poderia comandar os Estados Unidos em uma era saturada por tecnologia em um mundo de hiper-violência e controlado pelas corporações. Ninguém senão Howard Chaykin, que lançou a primeira edição de American Flagg naquele ano. Claro, ele errou sobre o Trump, mas o resto da série é absolutamente presciente. O protagonista, Reuben Flagg é uma ex-estrela da televisão que aceita um trabalho como segurança no Chicago Plexmall, uma massiva corporação bastante similar aos grandes mercados de hoje em dia. Ainda mais estranho é que na segunda parte da série, Flagg se muda para a Rússia.

Besouro Bisonho

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Quando Rob Liefeld apresentou Deadpool nas páginas de Novos Mutantes #98, ele era apenas outro sombrio e sanguinário assassino com seus pequenos pés, em uma cópia descarada do popular Exterminador, da DC. Mas sob a tutela de Joe Kelly no final dos anos 90, ele se tornou o mercenário com a língua que conhecemos e amamos hoje – um divertido anti-herói conhecido por quebrar a quarta parede. Apesar disso, os fãs mais antigos de quadrinhos provavelmente devem se lembrar de um vilão bastante similar, que se tornou protagonista de sua história, de uma forma similar. O Besouro Bisonho foi criado como inimigo do Super Homem em 1982, mas rapidamente desenvolveu seu jeito bizarro de se teletransportar pelo universo, causando desordem e falando diretamente ao leitor, cerca de 15 anos antes de Deadpool fazer o mesmo.

Estrela Polar

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Representatividade LGBT em quadrinhos de heróis é algo até certo ponto comum hoje em dia. Todas as grandes empresas possuem personagens com as mais diversas identidades sexuais. Até mesmo Moleza (de Archie) é oficialmente assexual. Mas nos anos 1990 a ideia de um herói masculino que amasse outro homem era algo chocante. Então, quando Scott Lobdell revelou em 1992 que Estrela Polar, da Tropa Alfa, era gay, e isso se tornou notícia no país inteiro. Antes apresentado como frio, distante e grosseiro, o personagem canadense apresentou sua identidade sexual de forma desastrada – nos anos 90, era mais normal a gritaria e as poses – mas ao menos foi algo. A representação gay na mídia era virtualmente inexistente na época, então apenas a ideia de um personagem sair do armário de forma tão corajosa foi algo enorme, que firmou o caminho para que muitos outros pudessem fazer o mesmo.

Fantomah

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No início da indústria dos quadrinhos, podemos facilmente afirmar que se tratava de um Clube do Bolinha. E muitos consideram que a Mulher Maravilha de William Moulton Marston foi a primeira super-heroína, mas mais de um ano antes de seu lançamento em 1941, o artista iconoclasta Fletcher Hanks lançou a protetora com rosto de caveira, Fantomah, nas páginas da Jungle Comics. Amplamente reconhecida como a primeira super-heroína de todas, Fantomah possuía poderes místicos e um doentio senso de humor, lançando vingança contra caçadores ilegais e outros babacas pelos quatro anos seguidos de seu lançamento. A tomada bizarra e pessoal de Hank no gênero foi redescoberta nos anos 2000, tendo sido a obra republicada em diversas coleções. Fantomah passou para o domínio público e teve diversas aparições em outros quadrinhos.

Capitã Marvel

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Ok. Vocês sabem como um exército de reacionários tem se erguido contra a Marvel pelo fato de a empresa ter substituído alguns de seus heróis mais conhecidos, com Jane Foster assumindo o manto de Thor, Riri Willians ganhando um traje de Homem de Ferro e etc? Se fossem realmente fãs raiz, eles saberiam que isso não é novidade. Até 1982, o manto da Capitã Marvel era na verdade de um homem branco cis conhecido como… pasmem… Capitão Marvel. Foi ai que o escritor Roger Stern e o artista John Romita introduziram uma nova possuidora para o manto de herói mais forte da franquia: Uma mulher negra chamada Monica Rambeau. E isso aconteceu trinta anos antes da muito criticada “onda de diversidade” da Marvel, e Mônica inclusiva passou um bom tempo liderando os Vingadores.

Garota-Esquilo

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Uma prova do sucesso da Marvel é o fato de uma personagem criada como uma piada em 1991 ter se tornado um sucesso meteórico. O escritor Will Murray e o lendário artista Steve Ditko introduziram a personagem Doreen Green, também conhecida como Garota-Esquilo, nas páginas de uma edição especial de inverno da Marvel Super-Heroes. Ela mal apareceu na história até ser reintroduzida em 2005 como membro dos Vingadores de Great Lakes. Em 2015, ela ganhou sua primeira série solo, e desafiando todas as previsões, A Imbatível Garota-Esquilo se tornou um enorme sucesso de público entre adolescentes, se tornando item colecionável em capa dura e inspirando muitas obras originais. Milana Vayntrub está sendo cotada para interpretá-la na nova série dos Novos Guerreiros, da Freeform.

Dinossauro Demônio

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O trabalho de Kirby tanto para a Marvel quanto para a DC nos anos 1970 foi amplamente reconhecido como o ponto mais baixo de sua carreira, já que nenhuma das companhias confiava nele para comandar, rejeitando sua lista bizarra de ideias para quadrinhos. Mas uma de suas mais absurdas criações naquela década é considerada hoje uma das mais aclamadas obras da Marvel. Originalmente, o Dinossauro Demônio era um T-Rex vermelho que andava acompanhado por um hominídio azul peludo chamado Menino da Lua. Sua série durou apenas nove edições, mas quano o lagartão apareceu em outros livros, começou a ser tratado como piada. Mas tudo isso mudou com o lançamento de Garota da Lua e o Dinossauro Demônio, em 2015, que trouxe o Demônio de volta ao presente ao lado de Lunella Lafayette, uma garota de nove anos superinteligente. Levou quase 40 anos para o grandalhão encontrar seu lugar, mas felizmente ele conseguiu.

Lord Fanny (DC)

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Grant Morrison é considerado um dos mais progressistas quadrinistas da modernidade saltando da Vertigo para criar algumas das maiores franquias de Marvel e DC. Mas em 1994, ele introduziu uma personagem em sua série própria, Os Invisíveis, que estava muito além de seu tempo. Lord Fanny nasceu como Hilde Morales, uma brasileira introduzia em uma linhagem de bruxas, apesar de ser biologicamente um homem. Hoje em dia, a transgeneridade é uma questão cultural relevante, mas no início dos anos 1990, seu papel era apenas de alívio cômico em comédias pastelão como Ace Ventura. Fanny por sua vez, era importante na história, sendo responsável por diversas vitórias importantes de seu grupo, mesmo que para isso não conseguisse encontrar seu final feliz.

Gata

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Os anos 1970 foram uma época bastante produtiva para a Marvel na questão de personagens femininas, o que atraiu um grande público. Mas o exemplo mais feminista em todas essas personagens foi o de Greer Grant, também conhecida como Gata. Criada pela escritora Linda Fite e pela artista Marie Severin, a Gata recebeu seus poderes da “super ciência” do Dr. Tumolo, um físico devotado à causa da superioridade feminina. Entre seus poderes, Grant recebeu força e agilidade sobre-humanas, que utilizava para combater o crime. A pesquisa de Tumolo acabou falindo por culpa de um industrialista corrupto com fetiche por mulheres bombadas, e Grer teve de lutar com seu próprio feminismo por várias vezes, mesmo após tomar a identidade de Tigresa, após se tornar um híbrido mutante de mulher e gato.


Texto traduzido do Geek.com.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).