Vamos fazer alguma justiça à personagem, ela merece mais que isso.

CUIDADO COM SPOILERS DA 8ª TEMPORADA!

Por sete temporadas, os espectadores de Game of Thrones assistiram a Daenerys Targaryen lutar com o que significa ser um bom governante à sombra de seu pai, o infame Rei Louco. Até recentemente, parecia que, apesar de alguns surtos, ela estava determinada a ser a governante que contrariasse tudo o que seu pai tinha sido. A oitava temporada, no entanto, está determinada a apagar tudo isso, ao sugerir que sua ambição e impulsividade levarão Daenerys a se tornar a Rainha Louca. Mas, ao tentar forçá-la a ser a herdeira da loucura de seu pai, a série perdeu a complexidade que fez de Daenerys uma heroína singular desde o começo. O pior crime que os criadores da série cometeram em “The Last of the Starks” foi usar contratempos emocionais reais para sinalizar a descida de Dany à loucura. Eles estão equacionando a raiva legítima de uma mulher como “loucura” e esse argumento eu não compro.

Por algumas temporadas, Daenerys Targaryen, rodeada por três dragões adultos, um exército Imaculado disciplinado, um exército indestrutível de Dothraki, uma frota invejosa, aliados poderosos e conselheiros dedicados – era a líder imbatível da série. Se nos perdermos no glamour de seu poder, é fácil esquecer que Daenerys, ao contrário de Cersei ou mesmo Jon, não nasceu no colo do privilégio. Ela galgou seu caminho até o topo. Sofrendo e resistindo.

Desde bebê, ela viveu em exílio, sempre se mudando de um lugar para outro com medo de ser morta. Ela foi criada por um irmão mais velho petulante e abusivo que era obcecado com o Trono de Ferro. Ele a vendeu para o líder de uma tribo rebelde, que a abusou durante a noite de núpcias – e várias vezes após essa noite. Daenerys foi obrigada a crescer na adversidade e acabou tomando um pouco de controle da situação, pra no final das contas desenvolver sentimentos pelo marido. E então perdeu tanto o marido quanto seu filho para a magia de uma bruxa. Mesmo após isso, Daenerys seguiu seu rumo, conseguiu seguidores, praticamente do nada, e reuniu um exército devotado, libertando-os da escravidão. Ela é Mhysa, uma mãe capaz de muito carinho e simpatia. Sua busca pelo Trono de Ferro é, então, também uma busca por algo que foi roubado de sua família.

Helen Sloan/HBO

Mas, na 8ª temporada, a série reduziu Daenerys a uma personagem mais vulnerável. A abnegação que ela demonstrou ao abandonar sua missão e unir forças com Jon para salvar a humanidade nunca foi agradecida. Ela ainda não é bem-vinda no norte, ainda é vista como estrangeira. Em apenas quatro episódios, ela perdeu dois de seus dragões (que ela considerava como seus filhos), seu conselheiro de maior confiança (Sor Jorah), sua confidente mais próxima (Missandei), e uma boa parte do exército que prometera sua lealdade a ela, não por dinheiro ou uso de força, mas porque ela conquistou isso. No entanto, a série insiste em pintar a raiva que ela sente, a vingança que ela, sem dúvida, anseia, como um sinal de loucura. E isso soa como algo que nós, mulheres, estamos muito acostumadas a ver acontecer.

Prender um candidato do sexo masculino ao Trono de Ferro por cima de uma mulher que trabalhou duro para chegar aqui parece um esquema especialmente maquiavélico.

Em “O Último dos Starks”, com o parentesco de Jon descoberto, graças às atitudes incrivelmente incaracterísticas e mesquinhas de Sansa, insinuando seus esquemas com Tyrion, todos os conselheiros sobreviventes de Daenerys estão começando a considerar Jon Snow uma opção melhor para o trono. “Ele é uma opção equilibrada”, eles dizem. Como um Targaryen e um Stark, ele será o único capaz de unificar o Norte e o Sul. Mas a razão subjacente a isso é mais sinistra. “Ele é um homem”, diz Varys, “o que o torna mais atraente para os Lordes de Westeros”. Varys está convencido de que é a sua falta de interesse em governar que faz de Jon o melhor governante. Onde estava essa premeditação do famoso mestre dos sussurros quando ele correu atrás de Daenerys para colocá-la no trono, pra começo de conversa?

Ao posicionar Jon como o governante mais aceitável, a série está voltando aos seus primórdios patriarcais, desfazendo o arco de caráter heroico de Daenerys Targaryen.

Game of Thrones sempre serviu como um espelho da fantasia para os nossos tempos contemporâneos. O patriarcado, a separação de classes e as políticas fascistas dos governantes fazem com que a série pareça relevante para os dias atuais. Mas, novamente, sustentar um candidato do sexo masculino ao Trono por cima de uma mulher que trabalhou duro para chegar até aqui parece um esquema especialmente maquiavélico. Ao projetar Daenerys como “emocional, imprevisível e incontrolável demais” para o Trono e Jon como alguém muito calmo e calculista, a série nos lembra da ginástica mental que as pessoas passam no mundo real para declarar mulheres incapazes de manejar situações de poder. (Vamos todos, aliás, fazer de conta que o Jon tem, até agora, demonstrado alguma habilidade pra decisões reais.)

Helen Sloan/HBO

Pra deixar bem claro: se houver alguém próximo de ser uma Rainha Louca na série, é muito mais provável que esse alguém seja a Cersei Lannister. Ela é quem explodiu o Septo, matando boa parte das pessoas da cidade em nome da vingança. Ela é quem abriu os portões para que houvesse vítimas mais comuns na guerra pelo poder. Quem escolheu ficar para trás e deixar o resto do mundo morrer na luta pela humanidade. Quem enviou um assassino para matar seu próprio irmão. Quem ajudou a manipular todos os esquemas políticos malignos da série. Daenerys fez pouco para ganhar o título em comparação. E mesmo a própria Cersei poderia ser vista apenas como uma mulher vil, má e egoísta muito antes de ser considerada insana.

Apesar de muitos não entenderem isso, mulheres podem ser más sem serem loucas. Existe uma romantização da feminilidade, o que faz com que haja uma dualidade superficial em classificações de mulheres: ou é santa, ou é bruxa. E mulheres cabem em espectros muito mais profundos do que esses.

Daenerys certamente tem o temperamento ardente dos Targaryens – especialmente dada toda endogamia (pessoa que só se casa com outra porque ambas pertencem a mesma classe e/ou tribo, visando preservar suas nobrezas, raças etc), há motivos para acreditar que ela seria indomável. Mas em “The Last of the Starks“, ela foi notavelmente refreada. Ela concordou com as negociações de paz e resistiu invadir a capital. Após as mortes das pessoas mais próximas a ela, é compreensível que ela agora procure vingança.

E se virmos isso acontecer no próximo episódio, a vingança será nada mais nada menos do que justa.


Texto traduzido e adaptado do Bustle.
Crédito de imagens:  Helen Sloan/HBO/Bustle

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