Como Game of Thrones falhou na adaptação de Arya, Sansa e Catelyn Stark

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Analisamos as mulheres Stark nessa primeira parte do post, aguardem que no próximo falaremos sobre outras.

Apesar de conterem algumas falhas, As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, compõe uma ótima série de livros. E mesmo com tantos personagens masculinos interessantes, um dos pontos que mais prende as leitoras na obra são os sentimentos causados pelas personagens femininas escritas por Martin.

Os livros são alguns dos melhores na desconstrução de estereótipos típicos do gênero fantasia, aproveitando os diversos pontos de vista, dando voz e sentimento às personagens que normalmente não são protagonistas – as donzelas em perigo, a mãe do rei escolhido, os deficientes, a “escolhida” – e analisando o que cada um deles pode significar em um mundo onde os modos antigos estão morrendo e novos heróis estão surgindo.

Apesar de a série Game of Thrones ter feito um bom trabalho em alguns pontos, em vários outros ela falhou em capturar as nuances de algumas de suas personagens femininas mais quietas, para poder contar uma história que, apesar de manter parte da complexidade da história de Martin, mais escorrega em direção aos clichês de histórias de fantasia do que consegue evitá-los.

O post abaixo contém SPOILERS da série.

Catelyn Stark

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Desde o início da série, já existia o sentimento de que a adaptação não havia entendido Catelyn Stark ou seu ponto de vista. Em quase toda oportunidade, ela foi apresentada como sendo muito mais cruel do que realmente era com Jon Snow. E boa parte das decisões que ela tomava nos livros acabava sendo transferida para outros personagens. Cat nunca foi uma personagem muito popular; sua frieza com Jon e muitas de suas decisões foram etiquetadas como evidência de sua estupidez, quando na verdade, de sua maneira, ela lidava o melhor possível com as informações que possuía, ou no caso da soltura de Jamie, tentava salvar seus filhos enquanto tudo ao seu redor desmoronava.

Um ponto que sustenta a tese de que os produtores Benioff e Weiss não entenderam a personagem é o monólogo inventado em que ela fala sobre o quão terrível ela é por não amar Jon Snow, mesmo ele não tendo mãe. É um discurso difícil de engolir. Ela foi má e não gostava dele? Sim. E apesar de isso não ser legal, o discurso ignora o contexto dos sentimentos de Cat. Não é só o fato de Ned ter um bastardo – assim como muitas mulheres nobres, era esperado que ela ignorasse isso – o problema era a criação do filho bastardo junto aos seus filhos legítimos ser um insulto. E mais importante, uma ameaça.

Historicamente, a criação de filhos bastardos no mesmo ambiente de seus filhos legítimos os torna legítimos aos olhos de outros nobres. É esta a razão pela qual as pessoas seguem Jon, quando na série ele assume o papel de seu pai (na verdade, tio) como Guardião do Norte e Rei do Norte. As pessoas sabem que Ned Stark criou seu filho, e isso o torna digno. O medo de Cat era que Jon, após a morte de Ned, poderia passar por cima de seus filhos e se tornar um líder, uma vez que ele possuía enorme semelhança com o pai, além de ter o amor de seus irmãos devido à criação próxima.

E foi exatamente isso que aconteceu.

Martin afirmou ter escolhido o ponto de vista de Cat porque queria explorar como seria ser a mãe de um rei e contar essa história. A história de uma mulher que ajudou a liderar ao lado de seu marido por anos, mas que por causa de seu gênero, teve de descer de sua posição e seguir a lei de seu filho. Robb comete seus próprios erros, como enviar Theon às Ilhas de Ferro, casar com Jeyne Westerling, não buscar a paz com os Lannisters. Cat não sabia que Petyr Baelish, seu amigo de infância que quase havia morrido por ela, e sua irmã não eram confiáveis. Robb, por sua vez, sabia de seu compromisso com os Frey e se casou com uma estranha por “honra”, uma vez que haviam dormido juntos.

Além disso, nos foi negado pela série a oportunidade de ver Catelyn como a vingativa, ressuscitada, Lady Stoneheart. Ela apenas desapareceu…

Sansa Stark

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Ah, Sansa… Conheci Sansa em um momento da minha vida em que estava conhecendo meu lado feminino, e como resultado, eu me senti profundamente ligada a ela. Uma garota criada sob todas essas expectativas de bondade e nobreza, completamente socializada para ser uma mulher passiva e encaixada em um ambiente que não estava nem de longe preparada para estar. Manipulada por pessoas mais espertas e experientes do que ela, aos poucos foi aprendendo a entender sua situação e como sobreviver.

Assim como sua mãe, Sansa nunca foi muito popular, mas de muitas maneiras a série fez um desserviço gigantesco ao não encontrar uma forma melhor de apresentar seu desenvolvimento como personagem. Seguindo seu ponto de vista nos livros, nós estamos próximos de seu pensamento, e por ser uma refém, ela acaba guardando muito do que pensa para ela mesma. Mas é por meio desses pensamentos que podemos ver o crescimento de Sansa, de uma personagem passiva a uma participante do jogo, e isso não acontece na série. Muitas coisas foram cortadas e modificadas em sua história, mas uma das maiores mudanças foi a sua tentativa de fuga, completamente ignorada e apagada.

Em A Fúria dos Reis, Sansa é mantida refém, ameaçada com crueldade constante, além de agredida por várias vezes. Porém, ela utiliza todo seu treinamento em etiqueta para esconder seus sentimentos internos, e por vezes tenta salvar as pessoas. Uma das pessoas que ela salva é Dontos Hollard, que Joffrey quase mata por ter chegado à cerimônia do dia de seu nome completamente bêbado. Sansa, com a ajuda de Sandor, convence Joffrey a poupá-lo, fazendo dele o bobo da corte. Dontos, cheio de gratidão, ajuda Sansa a planejar sua fuga. No livro, ela finge encontrar religiosidade, e apesar do receio de se tratar de uma armadilha, acaba se encontrando com Dontos na Floresta dos Deuses. Tudo isso foi cortado da segunda temporada da série. Na verdade, foi Dontos quem a entregou a rede de cabelo adornada com as ametistas púrpuras que carregam o veneno que Lady Oleanna utilizou para envenenar Joffrey no terceiro livro.

No terceiro livro, como sabemos, Sansa está casada com Tyrion Lannister. Porém, quase tudo no caminho que levou a isso foi mudado de alguma forma. Inclusive o fato de que é Cersei quem conta para Sansa que ela casará com Tyrion no dia do casamento. Outra cena cortada foi a demonstração de coragem de Sansa ao não se ajoelhar durante o casamento, e ao contrário do que a série mostrou, Tyrion não aceita de maneira nobre que Sansa tem treze anos e está sendo forçada a se casar durante a noite de núpcias.

Nos livros, eles chegam a se despir e Tyrion quer sim dormir com ela. Ele apenas não faz isso porque sabe que ela não quer. Mas a cena é muito diferente da série:

Ela manteve seus olhos no chão, tímida demais para olhar para ele, mas quando terminou, olhou para cima e percebeu que ele a encarava. Havia fome em seu olho verde, ao que parecia para ela, e fúria em seu olho preto. Sansa não sabia qual deles a assustava mais.
“Você é uma criança”, ele disse. Ela cobriu seus seios com as mãos. “Eu já floresci”.
“Uma criança”, ele repetiu, “mas eu quero você. Isso te assusta, Sansa?”
“Sim.”
“A mim também. Eu sei que sou feio –”
“Não, meu –”
Ele se levantou. “Não minta, Sansa. Eu sou deformado, cheio de cicatrizes e pequeno, mas…” ela podia vê-lo tateando. “…mas na cama, quando as velas estão apagadas, eu não sou pior do que qualquer outro homem. No escuro, eu sou o Cavaleiro das Flores”. Ele tomou um gole do vinho. “Eu sou generoso. Leal a quem é leal a mim. Eu provei não ser covarde. Eu sou mais inteligente do que a maioria, e claramente esperteza conta para algo. Eu posso até ser doce. Doçura não é um hábito entre nós, Lannisters, temo eu, mas sei que tenho alguma. Eu poderia ser… Eu poderia ser bom para você.”
Ele está com tanto medo quanto eu, percebeu Sansa. Talvez isso devesse fazê-la sentir compaixão por ele, mas não fez. Tudo que ela sentiu foi pena, e pena era a morte do desejo. Ele estava olhando para ela, esperando que dissesse algo, mas todas as suas palavras haviam desaparecido. Ela só conseguia ficar ali tremendo.
Quando ele finalmente percebeu que ela não tinha resposta para ele, Tyrion Lannister terminou de beber o seu vinho. “Eu entendo”, ele disse amargamente. “Deite na cama, Sansa. Nós temos de cumprir nosso dever”.
                                          […]
“Minha senhora”, Tyrion disse, “você é amável, não se engane, mas… Eu não posso fazer isso. Dane-se o meu pai. Vamos esperar. A virada da lua, um ano, uma estação, quanto tempo levar. Até que você possa me conhecer melhor, e talvez possa confiar um pouco em mim”. Seu sorriso pode ter sido tranquilizador, mas sem um nariz, aquilo só o fez parecer mais grotesco e sinistro.
Olhe para ele, Sansa disse a si mesma, olhe para o seu marido, para todo ele. Septã Mordane disse que todos os homens são bonitos, encontre sua beleza, tente. Ela encarou as pernas atrofiadas, as sobrancelhas grossas e inchadas, o olho verde e o preto, a crua cavidade de seu nariz e a cicatriz rosada, a mistura de fios pretos e dourados que formavam o que deveria ser sua barba. Até mesmo sua masculinidade era feia, grossa e veiúda, com uma cabeça púrpura protuberante. Isso não era certo, não era justo, que tipo de pecado eu teria cometido para que os deuses fizessem isso comigo?
“Em minha honra como um Lannister”, disse o duende, “Eu não a tocarei até que queira que eu o faça.”
Ela precisou reunir toda a coragem que tinha para olhar aqueles olhos que não combinavam e dizer “E se eu nunca quiser, meu senhor?”
Sua boca entortou como se ela tivesse lhe dado um tapa. “Nunca?”
O pescoço dela estava tão apertado que ela mal conseguia acenar com a cabeça.
“Por que”, disse ele, “e é por isso que os deuses fizeram as vadias para duendes como eu”. Ele cerrou seus curtos dedos e desceu da cama.

O crescimento de Sansa aconteceu de tantas formas, mas isso não é apresentado na série, porque não há formas de fazê-lo. Então, em vez disso, eles preferem recorrer a elementos como estupro (algo que sequer existia nos livros e que inclusive já comentamos sobre no site), tentando buscar empatia pela personagem e permitir aos espectadores ver como ela é “legal” agora, e que pode soltar os cachorros sobre as pessoas.

A melhor parte da personagem da Sansa foi o fato de Martin ter entendido que só porque sua força vinha de um lugar diferente da de Arya, isso não a tornava fraca. Sua doçura foi o que a manteve viva e lhe conquistou aliados. Em vez disso, a série fez dela mais inocente em momentos em que ela já era mais esperta e abriu mão de seu conhecimento e relacionamentos. É frustrante ver isso tanto do ponto de vista de uma fã dos livros quanto de uma fã da personagem.

Arya Stark

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Arya é uma personagem tão popular na série que pode até ser estranho vê-la nesta lista. Mas o problema da personagem na série é o fato de que forçam tanto a barra para torná-la “fodona”, que eles acabam removendo essa característica de outros personagens. Na segunda temporada, Arya é levada para Harrenhal. Na série, essa é uma forma dela ter algum encontro com Tywin Lannister, reclamar sobre como outras garotas são burras, e deixar aquela dúvida nos fãs sobre o porquê dela não ter dado cabo dele ali mesmo, quando teve a oportunidade.

A resposta para isso é que nos livros, a pessoa que está na frente dela é na verdade Roose Bolton. Outra coisa que me incomodou sobre a escrita de Arya foi o fato de que ela podia ser porta-voz contra a violência contra a mulher ou tarefas femininas. Mas a frase “a maioria das garotas são idiotas” é uma das piores e mais irritantes frases a serem atribuídas a ela.

Sim, Arya é fodona, mas também passou por uma dolorosa perda da inocência, que é maquiada pela série. Nós vemos uma garota de nove anos de idade, com sonhos de exploração e aventura, alcançando essas coisas da forma mais extrema possível. Apesar do arquétipo da guerreira/criança selvagem ser algo até divertido, as vezes, neste caso veio com um monte de trauma emocional e a verdade é que Arya perdeu completamente a sua infância.

Vejamos só, no excerto de Os Ventos do Inverno, ela seduz um homem para poder matá-lo. Arya, que começou a história como uma criança de nove anos e agora tem onze. A mesma idade que Sansa tinha no início da série.


Texto traduzido e adaptado do TheMarySue.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).