Como Capitã Marvel quebra o molde dos filmes de super-heróis

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Uma retrospectiva de como as mulheres conseguiram (e arrasaram) a liderança nos filmes de super heróis.

Guerra Infinita diminuiu seriamente o número de super-heróis que podem enfrentar Thanos no quarto filme dos Vingadores. Se a equipe superpoderosa planeja derrotar o alienígena da Manopla do Infinito, ela precisará de apoio. Aí entra a Capitã Marvel, a primeira super-heroína da Marvel para fazer um filme solo, como a gente já falou bastante por aqui no site. Seu épico homônimo, ambientado na década de 1990, descreve a história da origem da personagem: Carol Danvers é uma piloto de caça com poderes alienígenas. Ela pode voar, atirar raios de energia poderosíssimos e socar inimigos com uma força amedrontadora. Em suma, ela é a super-heroína mais poderosa do Universo Cinematográfico da Marvel.

São sete semanas entre a estréia de Capitã Marvel e Vingadores: Ultimato, e sua presença no Ultimato foi pressagiada em 2018 com o Guerra Infinita: Nick Fury envia-lhe um sinal SOS em um pager quando ele percebe que Thanos está destruindo metade de toda a vida no universo.

As fãs vêm implorando a Marvel por um filme de super-heroínas desde que viram Scarlett Johansson como Viúva Negra em Homem de Ferro 2, em 2010. Mas naquela época, muitos executivos de estúdio ainda consideravam os filmes de quadrinhos femininos uma aposta arriscada. Filmes “flopados” como Mulher-Gato e Elektra acabaram dando uma noção de que os garotos adolescentes que compunham boa parte do público de filmes de super-heróis simplesmente não se interessariam em ver uma mulher salvar o mundo. Em e-mails da Sony vazados de 2014, um executivo da Marvel classificou os filmes femininos de super-heroínas como um “desastre”. Assim, durante anos, os combatentes do crime na tela permaneceram homens, brancos e heterossexuais. Ocasionalmente, personagens secundários ou vilões quebraram esse molde, mas nunca conseguiram seus próprios filmes.

Claro, Mulher-Gato e Elektra eram simplesmente filmes terríveis, infelizmente não tem como negar. Assim que os estúdios começaram a fazer bons filmes de gênero com protagonistas, boa parte do público superou a velha visão misógina. Jogos Vorazes provaram que as heroínas podiam atrair audiências massivas. Star Wars: O Despertar da Força, estrelado por Daisy Ridley como a primeira mulher proeminente Jedi, quebrou recordes de bilheteria. Mad Max: Estrada da Fúria mostrou que uma personagem feminina provocante poderia ofuscar sua contraparte masculina, mesmo que ele seja o único com fãs de décadas atrás.

Em 2016, a Marvel anunciou que Brie Larson, recém-saída da premiação de Melhor Atriz do Oscar por O Quarto de Jack, retrataria a Capitã Marvel em um filme de 2018. Mas o filme foi adiado até 2019 e, de qualquer forma, a Warner Bros. bateu a Marvel Studios com um grande golpe: Mulher Maravilha, da DC, fez sua estréia nas telonas em 2017.

O sucesso crítico e comercial desse filme tirou certa pressão de Capitã Marvel. Mulher Maravilha estabeleceu vários recordes, incluindo o filme de maior bilheteria ao vivo dirigido por uma mulher. Em teoria, o sucesso da Mulher Maravilha colocou um fim no debate cansativo sobre um filme de super-heroínas não ter sucesso. Mas, como a pioneira, Mulher Maravilha teve que pisar em ovos: seu traje não podia ser muito sexy nem muito masculino, sua filosofia nem conservadora nem combativa. A Mulher Maravilha, originalmente concebida durante a Segunda Guerra Mundial, é uma heroína distintamente feminina: ela usa saltos e saia. Ela se apaixona por Steve Trevor. Ela prega amor e paz. Seu poder é inspirador, não assustador. Como resultado, ela teve de lidar com as críticas das feministas de que era sexy demais e passiva demais, enquanto se esquivava de comentários de misóginos que não queriam ver nenhuma mulher com poder nas telonas. 

E Capitã Marvel é uma personagem completamente diferente da Mulher Maravilha.

Mesmo antes de sua estréia, ela enfrentou um conjunto totalmente novo de críticas. Carol é controladora, com um grande ego e um temperamento explosivo. Ela é ocasionalmente imprudente e deliciosamente despreocupada em fazer com que qualquer pessoa ao seu redor se sinta confortável. E como os trolls da internet notaram na seção de comentários dos trailers do filme, ela não sorri. O tipo de mulher que caras machistas simplesmente não suportam.

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[E quando a gente disse que homens não gostam de mulheres na liderança de filmes de heróis, quem os trolls usaram pra dizer que houve ~sim~ aceitação desses filmes? A Mulher Maravilha. Por que ela, apesar de ser uma personagem foda que comparou o trabalho de uma secretária com escravidão – entre outros feitos e atitudes explicitamente feministas e emancipadores – aparentemente foi bem comportada e não desafiou homens o suficiente, não tinha “cara de feminista”. Só pensa no desaforo, haha… Assistam de novo porque vocês não pegaram a ideia da coisa, leiam as comics dela porque vocês DEFINITIVAMENTE não entenderam.]

Toma aqui um lembrete de como a Mulher Maravilha realmente é, ó. E calma que a Gal Gadot ainda vai chegar lá.

Opa, vamos de novo porque uma vez só não é o suficiente.

Vamos lembrar da série também, vamos? Vaaamos.

Mas voltando ao assunto: dizer a uma mulher para sorrir mais é uma das táticas favoritas dos misóginos, e um grupo de provocadores do Twitter rapidamente se irritou com rosto estóico de Larson quando o teaser foi estreado. A atriz retrucou uma resposta no Instagram:

Últimas notícias: você pode ser você. Isso significa que você pode sorrir ou não. Você pode ser forte do jeito que você quer ser. Você pode dominar quem você é. Se alguém disser que você é diferente, não confie neles.

Mesmo enquanto as espectadoras se animam com o sucesso da Mulher-Maravilha, a resposta sexista de uma pequena mas barulhenta minoria foi como um lembrete de que a sociedade ainda impõe certas restrições à força feminina.

A revolução desse cenário começa pelo traje da Capitã Marvel, que é perceptivelmente masculino em um cenário de cinema onde as personagens fodonas são frequentemente vestidas com couro ou com saias curtas. A segunda coisa é como a Carol intimida os homens e se diverte com esse poder.

Em suma, o público passou décadas observando apenas as concepções masculinas sobre o poder feminino: mulheres que podem ser fortes, mas não muito fortes (e não mais fortes que homens), intimidantes mas apenas se forem sexualmente atraentes, duras mas apenas se forem vulneráveis. Capitã Marvel viola muitas dessas noções – e já era hora de alguém como ela ter salvado a todos nós.

O título da Capitã Marvel originalmente pertencia a um homem. Carol Danvers era apenas uma personagem secundária em sua história, uma oficial da Força Aérea dos EUA. Na década de 1970, Carol conseguiu poderes e uma promoção. Ela assumiu o nome de Marvel, um aceno positivo para a revista feminista Ms. Magazine. Ela trabalhou como piloto de caça, uma cientista da NASA e editora de uma revista feminina que usava lenços e óculos enormes, em um tributo explícito à co-fundadora feminista Gloria Steinem.

Mas nas décadas que se seguiram, Carol perdeu muito de sua arrogância. Sua roupa de super-herói, uma roupa de banho com botas de cano alto, foi claramente projetada para ser olhada, não admirada. Finalmente, em 2012, a escritora Kelly Sue DeConnick ofereceu a Carol uma reformulação mais moderna e o nome de Capitã Marvel (o antigo portador do nome estava morto há anos nos quadrinhos.) O artista Jamie McKelvie reimaginou a fantasia e deu a ela um visual mais prático inspirado em seu passado militar, completo com um penteado curto e estilo moicano.

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A Carol é um bom modelo, embora não seja perfeita. Seu pai acreditava que enviar mulheres para a faculdade era um desperdício de dinheiro, então ela se juntou à Força Aérea e foi motivada por um desejo de se provar melhor, mais inteligente e mais rápida que os homens. Como DeConnick disse sucintamente:

Quando o Capitão América cai, ele se levanta porque é a coisa certa a fazer; a Capitã Marvel se levanta porque ela está pensando “foda-se você” para a pessoa que bateu nela.

Poucos escritores imbuem heroínas em histórias de ação com tanta complexidade. As mulheres guerreiras na tela são muitas vezes “fundidas” do mesmo modo clichê: elas bebem muito, agem como tomboys e andam de moto vestidas com roupas à vácuo – mas o coração delas eventualmente se derrete quando elas se apaixonam no herói. Muitos roteiristas de filmes de ação ainda evitam assiduamente qualquer característica que possa tornar uma mulher “desagradável” e preencher seus filmes com mulheres insossas. DeConnick disse à TIME em 2014:

O teste que eu sempre dou a jovens escritores é: se você pode tirar sua personagem feminina e substituí-la por uma lâmpada sexy e sua trama ainda funcionar, você está fazendo errado.

Capitã Marvel representa uma pausa desses clichês ambulantes.

Isso é crucial porque meninas e meninos precisam de mais modelos femininos diversos nos telões. Neste momento, a escassez de tipos diferentes de super-heroínas força as meninas a aprenderem a se identificar com heróis masculinos quando elas não se identificam com os femininos existentes. Os meninos nunca são forçados a fazer o mesmo. O resultado: os homens que dirigem estúdios não sentem que podem se identificar com as mulheres e, portanto, não fazem filmes sobre mulheres. É um ciclo de autoperpetuação.

“Todo mundo quer se identificar, aspirar”, disse DeConnick na mesma entrevista.

Então, se você é mulher e, portanto, tem menos status em termos de poder cultural, é muito mais confortável se identificar com um herói masculino do que é com os homens para se identificar em um personagem de menor status.

Embora a Capitã Marvel nº 1 de DeConnick tenha esgotado imediatamente quando estreou em 2012, milhões de espectadores que não leem quadrinhos estão prestes a conhecê-la pela primeira vez nas telonas. Os diretores Anna Boden e Ryan Fleck apresentam Carol enquanto ela está sob a tutela de um guerreiro alienígena (Jude Law) que pertence à raça Kree. Em algum momento, Carol percebe que embora ela tenha os poderes de um Kree, ela é humana e tinha uma vida anterior na Terra que ela não consegue lembrar. Ela visita seu planeta natal para descobrir seu passado. Enquanto está lá, ela se junta a Nick Fury, de Samuel L. Jackson – no momento, o futuro chefe da S.H.I.E.L.D. é um humilde capanga do governo – para combater os vilões Skrulls, uma raça alienígena que muda de forma e que invadiu a Terra.

Considerando que a história da Capitã Marvel acontece na década de 90, isso deixa três décadas faltando para Carol se inserir aos Vingadores. Onde estava a Capitã Marvel quando Thanos estava coletando pedras do infinito? Se ela é tão poderosa, como é que nenhum dos Vingadores parece saber dela? E como ela evitou envelhecer entre os eventos de Capitã Marvel e Vingadores? Várias perguntas vão surgindo ao final do filme.

O que é certo é que os Vingadores estão contando com a Carol para salvar o dia. Foram 21 filmes para a Marvel colocar uma super-heroína no centro do palco. Agora, o estúdio espera que seja necessário apenas um filme para a Capitã Marvel provar que é o super-herói mais poderoso do universo.

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WHO RUN THE WORLD?


Texto traduzido e adaptado do Time.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).