“Coisa Mais Linda” da Netflix retrata a força de mulheres na toada da bossa nova

Adélia, Lígia e Malu leem um jornal na praia carioca

Quer saber se vale ou não a pena assistir? Chega junto para saber do que se trata!

A Netflix inaugurou a primeira minissérie de drama de época brasileira que mistura a história de quatro mulheres ao ritmo do samba, jazz e bossa nova com uma nostálgica fotografia da cidade carioca dos anos 50.

Qual é a história de Coisa Mais Linda?

Malu ao telefone: Eu acho que a gente não deve misturar as coisas.

Roberto na linha: Se tem uma coisa que carioca faz bem, Malu, é misturar as coisas.

Uma das conversas entre Maria Luiza (Maria Casadevall) e Roberto (Gustavo Machado) em “Coisa Mais Linda” parece definir em poucas palavras para o quê a minissérie veio: misturar tudo. Tanto que é o que ela usa em um dos seus discursos sobre seu clube de música.

Apesar da embalagem pronta para se exportar como cenas marcantes do Rio que parecem fora da realidade (bom, não conheci o Rio dos anos 1950…. Pode ser que esteja de acordo) e The Girl From Ipanema na abertura em vez da versão brasileira, engana-se quem acredita que a minissérie contará o surgimento do gênero musical.

A música é apenas o ritmo para narrar a busca de identidade de quatro personagens com seus dramas e violências que parecem ser de época, mas são muito atuais.

Sem respostas ou soluções, a produção levanta questões e retratos dignos de reflexão em seus apenas sete episódios. E você não leu errado essa última parte. A minissérie é curtinha e dá para maratonar numa boa.

Bora valorizar as produções brasileiras? Confira o trailer!

Quem são as mulheres de Coisa Mais Linda?

Quer mais tempero para se entrosar na história dessas quatro protagonistas antes de dar o play? Então continue lendo um resumo sobre quem são as três mulheres retratadas na minissérie.

Maria Luiza, uma paulistana no Rio:

Apesar de a produção anunciar que se trata de quatro protagonistas, para mim, um dos pontos negativos da minissérie é que evidentemente há muito mais destaque para a história de, antes em São Paulo, Maria Luiza que é chamada de Malu ao chegar no Rio, lugar onde ela assume sua nova personalidade forte e independente.

Entendo que é ela quem entrelaça as outras narrativas, só que o mundo privilegiado de Malu faz com que ela seja a personagem com fraca identificação, pelo menos para mim. Talvez fosse mais interessante se a minissérie tivesse abordado uma camada com a vida suburbana no Rio, com uma protagonista de classe média em vez de uma releitura da série A Maravilhosa Sra. Maisel da Amazon.

A semelhança é tanta que até o trailer começa com Malu ao microfone, relatando seus dramas e tentando ser engraçada como Midge. Assim como sua contemporânea nova-iorquina, Malu é uma socialite com todos os estereótipos: vinda de família rica, pais tradicionais e que foi abandonada pelo marido que tinha uma amante, deixando para trás casa, planos e filhos. A diferença é que Midge aposta no stand-up comedy enquanto Malu quer inaugurar um clube de música.

Entre dor e sofrimento, ela descobre uma nova vida no Rio de Janeiro e, com ajuda de outras mulheres, Malu “pode fazer uma escolha” que poucas mulheres têm: a de ser independente e dona da sua vida com o “Coisa Mais Linda”, nome do clube de música hospedado no edifício onde ela construiria um restaurante com seu ex-marido, inaugurado graças a sociedade e amizade de Adélia.

Apesar de focar muito em Malu, o bom de Coisa Mais Linda é que, felizmente, a série não fica apenas nela e tenta explorar os dramas de outras mulheres.

Adélia, quem não tem o privilégio de esperar

Um das coisas mais lindas da série é o papel incrível de Adélia (Pathy Dejesus), que mostra claramente a diferença e fardo a mais que mulheres negras têm em uma sociedade opressora. Como a atriz disse nesta entrevista: “A Adélia não tem tempo para muita lamentação. […] Não é que ela não sofra, mas não lhe é dado o tempo. O tempo urge. Ela não tem o privilégio de sentar e chorar.”

Adélia é mãe solteira de Conceição e tem que esconder a existência de sua filha para conseguir ou manter um emprego, necessário desde a infância para se sustentar. Durante todas as relações de Adélia, fica nítido o racismo estrutural e escancarado que não passou impune nem mesmo na amizade de Adélia e Malu, que age como uma “branquela mimada”, assim definida por Adélia em uma briga.

Assista este trecho incrível mostrando Adélia e suas diferentes lutas em relação à Malu:

Thereza, jornalista de vanguarda

De cara, uma das personagens mais marcantes e modernas da trama. Thereza (Mel Lisboa) morou anos na França em contato com correntes feministas que a libertou sexualmente e como mulher no mercado de trabalho.

No Brasil, além de manter seu casamento aberto, ela trabalha como jornalista em uma revista feminina, tentando levar mais mulheres para a redação e aumentar a representatividade do veículo.

Jogando dentro e fora do sistema, apesar de ser uma personagem corajosa e cativante, a minissérie não a transforma como perfeita e mostra seus dilemas e dores, como todas nós sofremos para tentar mudar o nosso meio pouco a pouco.

Lígia, casada e com sonhos roubados

Lígia (Fernanda Vasconcelos) é uma amiga de juventude de Malu que vive no Rio de Janeiro, esposa de um vereador que almeja alçar voos mais altos na política carioca.

Ela é uma das bases mais importantes para que Malu não perdesse as forças e abandonasse seu sonho de ter um empreendimento, enquanto ela mesma negava seus próprios sonhos e sofria sozinha e em silêncio com as constantes agressões de seu marido.

Quer conhecer melhor essas quatro amigas? Corre na Netflix que a primeira temporada inteira está lá!

Quem escreve? Kátia Kishi

Jornalista e mestra em divulgação científica e cultural que adora assistir a filmes, séries e animes, ler livros, arriscar um karaokê e tomar uma boa breja. Tem um canal no YouTube sobre cultura japonesa chamado Zatsudan Now!. Pode chamar de Lilo, Harumy, Kishi ou só Kátia mesmo.