Capitã Marvel é sobre a força de uma mulher, não exatamente sobre seu empoderamento

Carol-Danvers

Outro ponto de vista sobre o filme da heroína.

Se há uma frase, uma citação, que será lembrada de Capitã Marvel, provavelmente será uma proferida por Carol Danvers para si mesma:

O que acontecerá quando eu finalmente me libertar?

É uma pergunta retórica.

Carol faz essa afirmação no momento em que começa a perceber o quão incríveis são os seus poderes. Por anos, ela teve seu passado apagado, foi forçada a acreditar que precisava conter seus poderes para ser uma guerreira melhor para os Kree. E isso não era verdade. Ela esteve lutando todo esse tempo “com uma mão amarrada atrás das costas”, e quando percebeu por quem deveria estar lutando, seu poder foi liberado. Ela é imparável.

Sim, bem no finalzinho, Capitã Marvel demonstra por que a sua protagonista é tratada como a mais poderosa super-heroína do MCU. (E também fica muito claro que Thanos está prestes a levar uma surra em Vingadores: Ultimato). E a fonte de sua força demonstra que ela pode facilmente enfrentar qualquer vilão ou arma mortal. Sua descoberta dessa força é o centro do filme, uma história de origem especificamente feminina, que enfrenta muitas das outras que a antecederam.

No início de Capitã Marvel, Carol Danvers está lutando contra um homem. Ela está treinando em Hala com Yon-Rogg, outro guerreiro Kree que a incentivava a se conter e controlar a força que podia disparar de suas mãos. Se essa força não for canalizada – ele diz – as coisas podem dar muito errado. Mas quando uma missão de resgate de um soldado Kree em uma emboscada Skrull acaba dando errado, Vers (como Carol é conhecida em Hala) acaba caindo em uma Los Angeles dos anos 90, e a heroína lentamente vai percebendo que a guerra entre Kree e Skrulls não é exatamente o que ela pensava, e que sua força é maior do que ela imaginava.

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Essa é uma história de origem pouco convencional, sejamos sinceros. Os Vingadores homens geralmente recebem ou nascem com seus poderes e raramente são incentivados a contê-los. Eles usam seus poderes com tudo e sem nenhuma vergonha disso. Hank Pym explicou para Scott Lang como usar o traje de Homem-Formiga e o Scott simplesmente fez tudo o que quis com ele. Tony Stark não hesita em construir trajes cada vez mais poderosos para o Homem de Ferro. O martelo de Thor era seu direito por nascimento. Steve Rogers foi um experimento científico e tudo que fizeram foi dar um escudo pra ele. De todos eles, talvez apenas o Hulk seja o único que precisa ser de certa forma controlado, mas o cara grande é como uma segunda personalidade, não o próprio Bruce.

Carol Danvers, por sua vez, não foi incentivada a se conter por não ter domínio sobre o seu “Mr. Hyde” (O Médico e o Monstro). Assim como as bruxas, as sufragistas e Alexandria Ocasio-Cortez, a Capitã Marvel foi ensinada que sua raiva em uma luta era excessiva, que isso lhe colocaria em problemas. E não era verdade.

A verdade é que todo mundo tinha medo do quão poderosa ela era.

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E empoderamento tem pelo menos duas definições: receber de alguém (ou de algo) um poder ou perceber seu próprio potencial, se empoderando. Muitos heróis se enquadram no primeiro caso. Capitã Marvel incorpora o segundo.

Talvez possam me acusar de estar interpretando excessivamente as informações. Mas devo discordar. Capitã Marvel é o primeiro filme solo do MCU protagonizado por uma mulher e o estúdio não poderia decepcionar. E também era seu dever fornecer uma alegoria sobre o porquê de tantas super-heroínas foram deixadas de lado até então. Essa noção é sutilmente reforçada repetitivamente. Carol, em sua vida na Terra, era uma piloto da Força Aérea, que ao lado de sua melhor amiga, Maria Rambeau, não podia voar em missões de combate por ser mulher  (coincidentemente, a primeira piloto americana a entrar em uma missão de combate – Martha McSally, hoje senadora nos Estados Unidos – foi enviada em 1995, após a proibição ser revogada em 1991).

Outra questão é a trilha sonora, que incluiu Elastica, TLC, Hole, Garbage e uma utilização bem-humorada de Just a Girl, de No Doubt. Os anos 90 foram uma época de riot grrrls e rock e hip-hop feministas, algo que foi sempre descreditado e desvalorizado. Talvez os codiretores Anna Boden e Ryan Fleck talvez só quisessem colocar umas músicas nostálgicas no filme, mas não há como negar que o filme tem um espírito revisionista, um olhar sobre como o mundo poderia ter sido caso as pessoas levassem a sério as coisas que Courtney Love gritava em suas caras.

Ainda assim, apesar de a mensagem de Capitã Marvel ser clara, se ela será ouvida ou levada a sério é outra questão. O filme foi alvo de ataques de trolls antes de seu lançamento, que tentavam atrapalhar sua recepção, o que não parece ter dado muito certo (afinal, a bilheteria do filme já bateu a cifra de um bilhão de dólares). Além disso, a internet está recheada de trolls que espalham mentiras tentando ofender Brie Larson, por conta de um discurso defendendo a diversidade de imprensa – que nós já comentamos em detalhes aqui no site. Ativistas dos “direitos dos homens” e incels ao redor do mundo, de acordo com a Daily Beast, “estão perdendo a cabeça”.

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O fato é que muitas pessoas gostaram do filme e outras não. Alguns podem achar “feminista demais”, outros que não foi o suficiente. Outros podem amar ou odiar por motivos que não tem nada a ver com o significado do filme, direta ou indiretamente. A beleza de ser fã de algo é que você tem direito a opinião.

Alguns podem considerar essa análise como positiva demais, e afirmar que isso aconteceu pelo fato de ser escrita por uma mulher. Tudo bem.

Muitas das coisas que causaram essa identificação com o filme vieram do fato dele ter sido feito pela perspectiva de uma mulher.

O público de filmes de heróis teve de buscar essa identificação com histórias masculinas por décadas, e até se divertiu fazendo isso. Se colocar no lugar do protagonista é parte do filme. Mas é que por muito tempo, todos esses heróis eram homens.

Todo mundo pode gostar ou não de Capitã Marvel. Mas dizer que só as mulheres vão gostar de Carol ou que seu filme é apenas sobre a Marvel finalmente fazendo uma heroína mulher é amarrar uma mão atrás das costas. E é hora de se libertar disso.


Post traduzido do Wired.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).