I want to break freeeee!

Personagens LGBT são algo relativamente novo nos quadrinhos americanos, em boa parte porque as editoras eram proibidas de inclui-los nas histórias. Foi apenas em 1989 que a CCA (Comics Code Authority) oficialmente removeu a proibição de personagens LGBT e algumas poucas edições não autorizadas da DC (e nenhuma da Marvel) haviam ousado tocar no assunto até então. Assim, alguns personagens foram sendo introduzidos nas histórias, mas tendo em vista a preferência de DC e Marvel por manter o foco nos personagens preexistentes, boa parte da representatividade LGBT envolveu personagens “saindo do armário”.

Essa lista abordará não apenas personagens dos quadrinhos, como também da televisão, mas personagens que sempre trataram abertamente a sua sexualidade não serão incluídos. A Mulher Maravilha e outros personagens que foram revelados fora de suas histórias também não irão fazer parte. Assim, em ordem cronológica, tentamos listar personagens importantes que “saíram do armário” para mostrar como a sua atitude evoluiu com o tempo e qual foi o impacto sobre suas histórias.

Aviso: o post contém SPOILERS dos universos da Marvel e DC, Buffy, Steven Universo, A Lenda de Korra e Sense8.

15 – O Flautista (DC)

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A edição #53 de The Flash, lançada em 1991 foi o primeiro quadrinho a vencer um GLAAD Media Award por representação positiva LGBT. A edição continha diversas histórias e a responsável pela premiação foi “Fast Friends” (Amigos Rápidos). Ela começa com Flash e o ex-vilão e agora herói Flautista conversando em um telhado. O assunto da sexualidade do Coringa então surge (os possíveis sentimentos dele pelo Batman, explorados no Retorno do Cavaleiro das Trevas). O Flautista então afirma pensar que o Coringa não possui qualquer sentimento humano, duvidando até mesmo da existência de supervilões gays… Exceto por ele mesmo.

Flash tenta esconder sua surpresa com a revelação e corre para tentar evitar conversar sobre o assunto, mas isso não fere a amizade entre eles e o roteiro de William Messner-Loebs lida com o tema de forma bastante madura para a época. Andy Mientus interpretou o Flautista na série Arrow.

14 – Estrela Polar (Marvel)

 

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Por algum tempo, Estrela polar era o mais conhecido super herói gay. Apresentado em 1979, ele já havia sido criado como um personagem homossexual e as edições 7 e 8 da Tropa Alfa já davam dicas sobre isso ao contarem sobre seu “amigo especial” Raymonde. A revelação, porém, aconteceu em 1992, na edição #106. Ler a história hoje pode causar bastante vergonha, já que é uma confusão enorme. Estrela Polar se revela durante uma batalha contra o Major Plátano, que resolveu atacar a Tropa Alfa ao descobrir que eles estavam protegendo um bebê infectado pelo vírus HIV. O Major odeia bebês com HIV porque eles recebem tratamento melhor do que o seu filho gay que morreu de AIDS recebeu. A história não faz sentido algum.

Por mais estranha que a história seja, porém, a revelação de Estrela Polar foi devastadora. Os X-Men sempre apelaram para que os fãs LGBT encontrassem nos mutantes uma referência ao seu próprio esforço por aceitação, então foi bastante significativo que o primeiro grande personagem homossexual da Marvel fosse um dos mutantes. Apesar disso, a forma como o personagem foi tratado ainda é alvo de críticas de muitos fãs.

13 – Willow (Buffy, a caça vampiros)

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Em 1999, o jornal Boston Herald declarou Buffy, a Caça Vampiros como “A série mais gay da televisão no ano”, apesar de não haver nenhum personagem abertamente homossexual até aquele momento. No ano seguinte isso mudou quando Willow entrou em um relacionamento com Tara. Sua relevação  foi tratada de forma bem fraca, com quase todos aceitando completamente, à exceção de seu ex-namorado Oz. O foco da história então ficou muito mais na parte de romance do que tratando questões enfrentadas pelo grupo LGBT.

Os fãs amaram ver Willow e Tara como um casal. A série foi alvo de críticas, especialmente pelo fato dela se identificar como “gay” apesar de ter demonstrado clara atração sexual e ter entrado em relacionamentos com homens nas três primeiras temporadas. Alguns fãs entenderam isso como uma forma de apagar a identidade bissexual. Além disso, a posterior morte de Tara também causou controvérsias, uma vez que grande parte dos personagens LGBTs acabavam sendo mortos em filmes e séries de TV. Apesar disso, Buffy ainda assim foi revolucionário pela representação em TV aberta dessa temática.

12 – Questão – Renee Montoya (DC)

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Originalmente criada para a série animada de Batman, a detetive de Gotham, Renee Montoya fez algumas aparições em diversos quadrinhos de Batman ao longo dos anos 90. Sua personagem foi explorada mais a fundo na série Gotham Central (2002-2006), sendo tratadas inclusive questões sobre sua sexualidade. Sua revelação porém, é uma história bem mais triste do que a maioria desta lista, já que não foi exatamente uma escolha.

Em “Half a Life”, o terceiro arco da história, Duas Caras expõe Montoya como lésbica e a incrimina por um homicídio. Ela consegue provar não ter cometido o crime, mas seus pais a deserdam por conta de sua sexualidade. Essa história é provavelmente a mais aclamada de toda a série Gotham Central, vencendo um Eisner e um Harvey Awards. Montoya veio a se tornar posteriormente a nova Questão, se qualificando para essa lista, ainda que a sua revelação tenha ocorrido antes de se tornar uma super-heroína.

11 – Karolina Dean (Marvel)

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A batalha pela representação LGBT nos quadrinhos envolveu o combate a dois grandes preconceitos: o primeiro é que quadrinhos são para crianças e o segundo, e mais grave, é que a representação LGBT seria “inapropriada” para essas crianças. Os primeiros quadrinhos a lançarem personagens homossexuais enfrentaram mais esses preconceitos do que os mais atuais, especialmente dos leitores mais antigos. O que fez Fugitivos ser revolucionário, mesmo em 2005, foi o fato de que a série que era de fato direcionada a um público mais jovem apresentou personagens lésbicas e genderfluid.

Karolina Dean, uma garota alienígena que brilha nas cores do arco-íris (sutil) se revelou na edição #7 ao acreditar que sua companheira de time Nico estava flertando com ela. Posteriormente, a garota acaba se irritando ao descobrir que havia sido prometida à herdeira Skrull Xavin, com fins absolutamente políticos. Por sorte, Xavin não possui um gênero definido e pode transitar entre eles livremente, se tornando uma garota para deixá-la mais confortável. O relacionamento improvável acabou dando certo, uma vez que nenhuma das duas estava contente com os fins políticos e ambas então resolvem fugir para a Terra, se tornando parte dos Fugitivos.

A formação do casal recebeu críticas e elogios: o tratamento da fluidez de gênero de Xavin foi elogiado, mas o fato de Karolina ter sido colocada como par romântico de um personagem que se apresenta por vezes como masculino foi visto por alguns fãs como um sinal de que a Marvel estaria desconfortável em enfrentar as críticas a apresentação de um casal lésbico.

10 – Wiccano (Marvel)

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O ano de 2005 ofereceu mais uma outra grande revelação nos quadrinhos da Marvel, essa causada por um mal entendido entre personagens. Na sétima edição dos Jovens Vingadores, Wiccano tenta abrir o jogo com seus pais… sobre ser um super-herói. Acontece que ele é gay e está namorando com Hulkling, mas esse parece ser um problema menor. Seus pais, no entanto, acreditam que ele quer assumir ser gay e aceitam isso plenamente. Os Jovens Vingadores ganharam um GLAAD Award em 2006.

O relacionamento entre Hulkling e Wiccano originalmente seria revelado por uma série de dicas sutis durante a história. Mas os fãs acabaram percebendo o que estava acontecendo muito rapidamente e então o escritor Allan Heinberg acabou confirmando isso antecipadamente. Mas a Marvel não estava tão confortável com a sua sexualidade quanto os fãs, levando mais de sete anos até que os dois aparecessem se beijando em um painel dos Jovens Vingadores (nona edição da Cruzada das Crianças).

9 – Manto Negro (DC)

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Manto Negro, o filho do Lanterna Verde Alan Scott e um dos fundadores da Infinity Inc., colecionou relacionamentos fracassados com mulheres antes de assumir ser gay. Em 2005, na 109ª edição da Liga da Justiça, Esmaga-Átomo o questionou sobre sua sexualidade, mas Manto Negro defletiu respondendo “Por que eu tenho de ter uma sexualidade? Por que eu tenho de ter um rótulo?”. No ano seguinte, na edição 18 de Caçador, ele já estava em um relacionamento com o advogado Damon Matthews e finalmente confortável com o fato de ser gay.

Quando o roteirista conservador Bill Willingham assumiu a Sociedade da Justiça da América, alguns fãs temeram que a sexualidade de Manto Negro fosse alterada. A edição 40 chegou a tratar dessa controvérsia quando Manto Negro fez uma piada sobre não ser mais gay. Com o relançamento da DC, Manto Negro foi completamente apagado do universo, porém em uma tentativa de corrigir o erro, o Lanterna Verde Alan Scott se tornou o personagem homossexual na história.

8 – Batwoman – Kate Kane (DC)

Batwoman

Em 2006, a DC Comics introduziu a personagem homossexual de maior relevância na história: Kate Kane, a nova (e lésbica) Batwoman. Kate foi introduzida na 7ª edição da 52 como a ex-namorada de Renee Montoya e veio a surgir usando o traje na edição nº 11. Sua relevação foi detalhada na Detective Comics #859, na graphic novel Batwoman: Elegy.

Kate era a melhor de sua turma na West Point, mas foi expulsa ao se negar a desmentir rumores de que era lésbica durante a política “Don’t Ask, Don’t Tell” do exército. Ela então abriu o jogo com seu pai após a expulsão, o que foi melhor para ela: seu pai agradeceu por ter contado a verdade, mantendo sua “honra e integridade”. As Detective Comics com foco na Batwoman e a série solo da personagem, ambas, receberam GLAAD Awards.

7 – Miss America (DC)

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Hulkling e Wiccano não estão sozinhos entre os Jovens Vingadores. Enquanto a viajante dimensional America Chavez testava o Nulificador Final na Brigada Adolescente para ver se conseguia sentir atração por homens, na 15ª edição dos Jovens Vingadores ela revelou ser lésbica. Sua revelação foi completamente casual, algo que você nunca veria em um quadrinho publicado nos anos 90, ou mesmo no início dos anos 2000. Miss America foi a primeira super-heroína latina e homossexual da Marvel.

A edição #0 dos Vingadores apresentou sua namorada, a técnica médica Lisa Holleran. Os criadores da heroína, Jose Casey e Nick Dragota sempre tiveram vontade de lançar uma série própria para a personagem, chegando ao ponto de ameaçarem lançar uma série “cópia”. Enfim, a Marvel aceitou a ideia e lançou a série solo da Miss América em 2017.

6 – Ultimate Spider-Woman/Viúva Negra – Jessica Drew (Marvel)

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No universo de Ultimate, Jessica Drew é um clone feminino de Peter Parker. Ela inicialmente combatia o crime como a Mulher Aranha, mas posteriormente assumiu o manto de Viúva Negra na série de 2014. Na quarta edição dos Novos Ultimates, ela declarou ser lésbica para seus companheiros. A justificativa seria que sendo um clone de Parker, ela havia retido algumas de suas memórias, inclusive sua atração por mulheres judias.

A ideia de um clone feminino de um personagem masculino criou algumas discussões interessantes acerca de identidade de gênero e problemas da transgeneridade. Apesar disso, essas questões acerca de Jessica Drew dificilmente serão exploradas de forma mais profunda nos quadrinhos, uma vez que aparentemente ela e todo o universo Ultimate foram mortos na primeira edição de Guerras Secretas.

5 – Korra (Avatar)

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Quando o episódio final da Lenda de Korra foi transmitido em 2014, muitos fãs não conseguiram acreditar no que estavam assistindo. Enquanto alguns fãs já haviam percebido algum flerte nas interações anteriores entre Korra e Asami, a sua cena final de romance foi uma grande surpresa. Nenhum desenho da Nickelodeon jamais havia revelado um personagem não heterossexual (exceto os episódios “adultos” de Ren e Stimpy), então o fato da personagem principal da história ser bissexual foi uma notícia avassaladora.

Além disso, a cena foi lançada de forma um pouco ambígua, encerrando antes do beijo do casal. Alguns fãs compararam a confirmação posterior dos criadores Mike DiMartino e Bryan Konietzko com aquela acerca da sexualidade de Dumbledore por J.K. Rowlings. Mas os quadrinhos, ao contrário da franquia do bruxo, exploraram abertamente o relacionamento entre Korra e Asami, a revelação dele para suas famílias e também o fato de que a anterior Avatar Kyoshi também era bissexual.

4 – Rubi e Safira (Steven Universo)

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Em 2015, as comportas foram abertas para a representação LGBT nos desenhos animados. Alguns poucos meses após o final da Lenda de Korra, o episódio “Libertador” de Steven Universo revelou que a Crystal Gem Garnet é na verdade a fusão de duas gems menores, Ruby e Safira, que se amam tão profundamente que não gostam de viver separadas. Essa revelação foi extremamente positiva, uma vez que Garnet afirma ter orgulho de ser quem é e que o único motivo pelo qual não havia revelado isso antes era porque queria fazer uma surpresa de aniversário.

Steven Universo é provavelmente o desenho com o melhor histórico de inclusão LGBT da história. Além de Garnet, Peróla era apaixonada por Rose Quartz, Steven e Connie se fundem para formar a personagem não-binária Stevonnie e vários personagens secundários já demonstraram atração por personagem do mesmo gênero. Na Comic Con de San Diego em 2016, a criadora da série, Rebecca Sugar, afirmou ser bissexual, e que isso teria sido a sua principal motivação para a série.

3 – Sera (Marvel)

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Sair do armário é especialmente difícil para pessoas transgênero. Existe a questão de revelar a sua identidade antes da transição e existe a questão de “se revelar” novamente, após a transição e já sendo abertamente trans. A história de transição de Sera na terceira edição de Angela: Assassina de Asgard segue a segunda opção.

A revelação acontece casualmente em uma discussão sobre seu passado como uma Anacoreta (uma espécie rara de anjo que nasce com o sexo masculino) e como ela “encontrou uma forma de voltar a ser ela mesma”. Angela aceita Sera por quem ela é, e as duas acabam se envolvendo romanticamente. Há uma forte controvérsia sobre como a Marvel mal reconhece a existência de Sera, a mais proeminente personagem transgênero da empresa, desde que Angela partiu para se juntar aos Guardiões da Galáxia.

2 – Homem de Gelo (Marvel)

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Desde o início da década de 2010, a Marvel vem dando maior ênfase à questão da diversidade. A maior parte dessa diversificação, porém, veio com a criação de novos personagens, mas na edição nº 40 dos Novos X-Men, o Homem de Gelo, um dos X-Men originais revelou ser homossexual. Essa talvez seja a revelação mais controversa da lista, uma vez que apesar das especulações anteriores dos fãs, o Homem de Gelo possuía um longo histórico de relacionamentos com mulheres, que aparentemente não chegaram a dar em nada.

Sua história de revelação começou com Jean Grey, que ao ler sua mente apontou seu jeito galanteador como uma tentativa de compensar sua sexualidade. Na edição 400 de Uncanny X-Men, ele chegou a ter uma discussão com uma versão mais nova dele mesmo sobre suas tentativas de negar sua sexualidade. Atualmente, sua jornada rumo à autoaceitação é o principal foco de sua série solo, escrita por Sina Grace.

1 – Lito (Sense8)

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Todos os personagens principais de Sense8 possuem a habilidade de compartilhar conhecimentos e habilidades físicas entre si, justificando sua classificação como super-heróis. Além disso, todos eles possuem certo grau de pansexualidade dentro de seus “clusters”. Mas é fora deles que podemos ver as suas diferentes identidades sexuais. A hacker Nomi é abertamente orgulhosa como uma mulher lésbica transgênero desde o início da série, mas a estrela de cinema Lito começa a série bem distante de estar confortável quanto à sua sexualidade.

Durante toda a primeira temporada, ele permanece “no armário” e apenas seu namorado Hernando e sua amiga Daniela conhecem seu segredo. A revelação acontece contra a sua vontade, por culta do ex-namorado de Daniela, Joaquin, que rouba fotos eróticas do casal e as divulga publicamente. Com medo de falar sobre o assunto, Lito acaba assumindo sua sexualidade na segunda temporada, em um absolutamente emocionante discurso durante a Parada do Orgulho LGBT em São Paulo.

Lembrou de mais algum personagem? Manda pra gente <3


Fonte:  CBR

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