A poderosa narrativa sobre transgeneridade em Steven Universe

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Steven Universe sempre se dedicou à representatividade LGBT de uma forma muito bonita.

Rebecca Sugar e sua equipe sempre trabalharam para apresentar as vidas e amores da população LGBT de formas compreensíveis para crianças e “aceitáveis” para os censores, construindo uma história sobre encontrar sua família e a liberdade de amar quem quer que você queira em uma fábula sobre joias sencientes e uma criança mágica bastante sociável.

Mas no seu último arco, a série contou uma história muito mais específica. Não apenas uma metáfora LGBT. Na verdade, uma que reposiciona toda a história de Steven Universe como uma metáfora sobre um personagem transsexual.

*** SPOILERS *** 

A série sempre se preocupou com a questão da identidade. Quem é Steven e qual o seu relacionamento com a sua mãe, Rose Quartz, que abriu mão de sua existência (e de sua gema) para que ele pudesse nascer? Como ele seguiria o legado de sua mãe e o que isso significaria? A recente revelação de que Rose é na verdade Pink Diamond, herdeira do império interestelar, fez com que essas perguntas se tornassem ainda mais intensas, e boa parte do tempo da série foi dedicado a Steven se acertar com quem era sua mãe e quem ela não era.

O último arco, cujo cenário foi Homeworld, mudou a forma de conversar. Quando Steven entra no mundo das Diamonds, ele não é visto como um descendente de Pink Diamond. Blue, Yellow e White sequer sabem o que é um descendente. A sociedade das gems não tem crianças, pais, e nem mesmo “garotos”. Assim, em seu entendimento, Steven é literalmente a Pink Diamond, ou fingindo não ser enquanto usa uma estranha fantasia ou sofrendo de algum tipo de amnésia. De acordo com elas, o garoto humano Steven Universe não existe. Ele é um personagem. Uma máscara.

Aos espectadores transgênero, esse enquadramento do relacionamento entre Steven e Pink poderia cutucar um nervo. Para muitos de nós, ser trans parece ser uma completa mudança na identidade – um novo nome, aparência, e até personalidade. Uma transição de gênero (para aqueles que passam por ela) pode, com o tempo, tornar a pessoa irreconhecível, uma pessoa completamente diferente naquele mesmo espaço que a outra ocupava. E mesmo aqueles que não passaram pela transição podem passar por muitas mudanças – nomes, pronomes. Uma das maiores dificuldades para as pessoas trans, então, é conseguir que as outras pessoas, especialmente aquelas ligadas ao seu passado, entendam e aceitem essas mudanças. E em alguns casos, até mesmo acreditar que a mudança é verdadeira – que você é de fato quem diz que é.

As interações e experiências que Steven atravessa durante seu tempo em Homeworld são sensivelmente similares às dificuldades enfrentadas por uma pessoa trans em uma família que não entende ou aceita essa situação. Ele constantemente luta para que as pessoas o tratem por seu nome – e elas insistem em chamá-lo de Pink Diamond. Blue e Yellow constantemente expressam contrariedade quando ele afirma não ser Pink, ou quando ele se comporta de forma diferente daquela que elas esperariam que ela se comportasse. E o pior, Yellow e White, ambas afirmam crer que Steven não é de fato, real. Que a Pink ainda é a Pink, em algum lugar lá dentro, apenas fazendo um de seus “joguinhos”.

O subtexto se torna mais claro em “Change Your Mind” (Mude sua mente), um episódio especial que não apenas conta sobre como as Diamonds aceitam Steven como ele mesmo, mas também em que elas aprendem como “curar” a sua família despedaçada. Blue, Yellow e eventualmente White acabam vindo para o lado de Steven, aprendendo a respeitar sua identidade – em um momento fantástico, Blue diz para Yellow que “Eu acredito que ela prefira ser chamada de Steven.” (Certo, o pronome continua errado, mas talvez possamos deixar passar, já que Homeworld literalmente não possui personagens masculinos. Uma hora ela entende.) Tanto Blue quanto Yellow começam a tratar Steven por seu nome, e quando ele confronta White Diamond, esse problema é trazido para a superfície.

White insiste que Steven não é uma pessoa real, e – em um gesto retórico que é tristemente familiar para o público trans – sugere que ele é apenas uma expressão dos problemas psicológicos de Pink. Isso culmina nela arrancando a sua gema em um esforço para provar seu ponto. Pouco depois, a gema se reforma, não como Pink ou Rose Quartz, mas como Steven. E quando White pergunta onde está a Pink, a gema reformada de Steven grita, em uma fúria absolutamente justificada: “Ela se foi!”

Nesta cena, Sugar e sua equipe conseguiram ilustrar claramente o esforço de uma pessoa trans para demonstrar a sua família que, “sim, eu sou exatamente quem digo que sou”. Que é realmente uma garota, garoto ou não-binário. Na vida real, não é possível fazer igual a Steven e mostrar sua verdadeira essência, mas seria formidável poder exterminar qualquer dúvida. Especialmente para as pessoas que como a White Diamond, não estão dispostas a ouvir ninguém.

Change Your Mind” termina com a mais simples e importante música de toda a série. Nela, Steven canta uma mensagem que parece ser direcionada às crianças trans ou LGBT que ainda não encontraram a aceitação que merecem. Ele canta o seguinte:

Eu não preciso que me respeite, eu me respeito
Eu não preciso que me ame, eu me amo
Mas eu quero que saiba que poderia me conhecer
Caso você mude seu jeito de pensar

Em nossas infâncias, não haviam desenhos na televisão com um subtexto trans tão vívido e comovente. Fico realmente feliz que as crianças de hoje possam crescer tendo isso.


Traduzido e adaptado: io9

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).