A nova temporada de Dear White People explora as realidades dos diversos tipos de negritude

dear white

E dá um soco na boca da direita alternativa.

Uma das melhores coisas em se viver nessa nova era do entretenimento negro é a ascensão de novas opções. Em vez de termos de escolher entre um ou dois shows para negros, há vários que podemos acompanhar. Não precisamos mais que cada um dos shows tenha de ser o “grande sucesso ou total fracasso” do entretenimento negro de qualidade. Cada série pode surgir dentro de um estilo e oferecer sua própria perspectiva. E Dear White People ocupa um lugar interessante dentro dessa perspectiva, porque apesar de ser certamente negro e apresentar diversas referências à cultura queer negra, a série acaba sendo percebida como ou “muito negra” ou “pouco negra”, assim como seus próprios personagens.

A primeira temporada teve seus problemas, mas de forma geral, conseguiu apresentar muito das diversas realidades da experiência negra, especialmente na figura de Coco (Antoinette Robertson). Então a segunda temporada (ou segundo volume, de acordo com os escritores) gerou expectativas sobre o que ela conseguiria fazer melhor, ou pior, no segundo ano.

SPOILERS ABAIXO

O Volume 2 torna mais claro do que nunca que a Winchester University é muito mais do que uma escola. É uma representação da realidade racial dos EUA e dos problemas que sua população negra tem de enfrentar atualmente, algo inclusive confirmado pelo criador do show, Justin Simien.

A temporada anterior terminou com o protesto da rotagonista, Sam, não funcionando e com Troy quebrando uma janela e sendo preso por isso. As consequências desse incidente e de toda a tensão racial acabam emergindo na forma de “AltIvyW” e “Dear Right People” (Cara Gente de Direita), um programa de rádio politicamente inclinado à direita que parece até estereotipado, até que nos lembremos já ter ouvido toda essa retórica cheia de ladainhas na vida real.

(Creditos: Adam Rose/Netflix)

(Creditos: Adam Rose/Netflix)

Um dos temas principais da segunda temporada é o crescimento e aprendizado para lidar com diversas formas de traumas. Reggie, que desenvolveu Transtorno de Estresse Pós-Traumático após ter uma arma apontada para si durante uma festa da escola, começa a frequentar sessões de terapia para aprender a lidar com isso. Troy mergulha completamente na delinquência como uma forma de enfrentar a forma como desapontou seu pai e “sua corrida” ao quebrar a janela em uma esfera pública. Os dois encontram no sexo e nas drogas um caminho para lidar com o fato de terem sido abandonados pelas instituições que deveriam mantê-los a salvo.

Personagens como Joelle e Coco (também conhecida como a melhor personagem da trama) têm de tomar decisões sobre seus valores como mulheres de pele negra mais escura, ou “Kellys”, como elas se denominam. Isso inclui questionar a si mesmas sobre o amor que merecem dos homens de suas vidas e sobre quais sacrifícios estão dispostas a fazer para atingir suas metas de longo prazo. Raramente as mulheres negras possuem o direito de ser emocionalmente vulneráveis e Dear White People não apenas permite isso a elas, como também aos homens.

Creditos: Tyler Golden/Netflix)

Creditos: Tyler Golden/Netflix)

As histórias de Sam e Lionel são as que mais se cruzam, uma vez que eles são os verdadeiros protagonistas, mesmo nesse universo diverso. Sam vem recebendo uma chuva de ódio pelo Twitter, graças ao seu protesto, que combinado ao seu término com Gabe acabam tornando-a agressiva, fazendo com que se mantenha quieta em seu sofrimento acadêmico. Quando ela resolve novamente se levantar, ela prefere atacar o troll “AltIvyW”, cujo discurso de ódio apenas fortalece o ativismo racista no campus.

A história da direita alternativa, especialmente no ambiente escolar, foi precisa. Alunos conservadores nos Estados Unidos tornaram claro que eles sentem que suas opiniões não são bem-vindas, e mesmo alguns dos “liberais” reclamam que a juventude de hoje é muito sensível e emotiva. Apesar disso, ainda acreditamos que Dear White People torna claro que o problema não é a sensibilidade, mas o fato de que nessa nova era da internet, a lógica, razão e o discurso estão sendo jogados pela janela.

Mesmo os antagonistas da última temporada, os escritores brancos da revista de sátira, Pastiche, sentem agonia com o ódio espalhado por “AltIvyW”. Discurso esse que inclui chamar Sam de “mestiça”, o que vai a destruindo aos poucos, apesar de ela tentar se manter forte deixando de lado o dano causado ao seu espírito.

Uma coisa é discutir sobre a validade de microagressões, espaços seguros e outros temas polêmicos. Outra coisa é deixar isso se tornar um completo discurso de ódio. Especialmente quando é difícil diferenciar quem está sendo honesto e quem está apenas “trollando”, o que é definido perfeitamente pela personagem Rikki Carter (Tessa Thompson), uma comentarista negra da Fox (Tessa também interpretou Sam na versão original do filme de Dear White People).

Creditos: Saeed Adyani/Netflix

Creditos: Saeed Adyani/Netflix

A melhor parte da série (e ao mesmo tempo, seu maior defeito) é o quão amplamente ela aborda as diversas realidades. É difícil pensar em qualquer outra série que tenha apresentado uma cena onde duas mulheres negras se sentam para discutir sobre aborto. Ou alguma outra série que tenha enfrentado a questão do racismo na cultura gay de forma tão precisa, como na cena em que Lionel ouve de outro homem negro gay que “ele não curte outros caras negros”, ou o uso de termos como “rice queen” (expressão que simboliza homossexuais não-asiáticos que sentem atração majoritariamente por asiáticos). Além de ter uma personagem Trini, negra e lésbica. Seremos eternamente gratos por isso. O espectro de identidades negras é tão vasto, assim como o de identidades brancas.

Temos Gabe, que é um “cara bonzinho, branco e liberal”, mas que também pode ser interpretado como uma tentativa de mostrar que a série não está se referindo a “todas as pessoas brancas”. Ai temos os caras da Pastiche, que não são nem um pouco politicamente corretos, mas que sabem quando uma piada foi longe demais. E então temos o pai da Sam, William, que não foi apresentado decentemente até essa temporada, e que ao final aparenta ser a razão pela qual Sam é uma pessoa tão inteligente, mas que também é fonte de sofrimento da garota graças a sua identidade birracial.

A série também não enquadra a direita alternativa como um movimento puramente branco e hétero, reconhecendo que há muitas pessoas de outras etnias que acabam fortalecendo e reproduzindo esse discurso, se tornando “símbolos de validade do discurso” apenas pelo fato de não serem brancos.

Apesar disso, Dear White People coloca tanta coisa em um só prato, que você acaba passando boa parte do tempo querendo saber o que está acontecendo com outros personagens. Apesar de Logan Browning ser incrível como Sam, assim como Gabe, ela está entre os personagens menos interessantes da série, e as vezes ficamos com aquela sensação de que queríamos passar mais tempo com outros deles. A trama das sociedades secretas é divertida e soma uma pitada de elementos surreais à série, mas não o suficiente para torná-la realmente interessante.

É difícil imaginar qualquer outra série que lide com esses tópicos melhor do que Dear White People. Ela realmente consegue criar uma imersão no universo queer negro, mas de uma forma tão natural que torna-se acessível a qualquer um. A série é de fato sobre a cultura negra, mas uma experiência negra americana em 2018, o que é algo que todas as pessoas deveriam conhecer. Mas além disso, ela se esforça para construir pontes em um clima político que torna isso uma missão ainda mais difícil.


Texto traduzido e adaptado do TheMarySue.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).