A insana, machista história e os triunfos feministas da Capitã Marvel

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Nossa mais nova heroína favorita e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Em 1980, Carol Danvers era parte da (talvez) mais irresponsável história já publicada pela Marvel. A história envolvia sequestro, um “boa noite cinderela” interdimensional, estupro, e terminava com Danvers cavalgando em direção ao pôr-do-sol ao lado de seu estuprador, enquanto os demais vingadores limpavam suas lágrimas de alegria.

Hoje, porém, Carol Danvers é a Capitã Marvel, um ícone feminista em seu quadrinho autointitulado. E em 2019, se tornou a primeira super-heroína da Marvel a ter seu próprio filme desde Elektra (2005).

A ascensão de Danvers através da Marvelsfera é, de muitas formas, a história das mulheres nos quadrinhos de forma resumida. E ela começa exatamente no mesmo lugar em que essas histórias costumavam começar: com a mulher sendo um interesse romântico de algum personagem masculino.

A Namorada

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Carol Danvers apareceu pela primeira vez no Marvel’s Super-Heroes n. 113, publicado em 1968. Escrito por Roy Thomas e desenhado por Gene Conlan, Danvers era uma agente de segurança no Centro Espacial da NASA em Cape Kennedy, mas na verdade, ela é inicialmente apresentada como a “garota” que, para o Capitão Mar-Vell, um homem que na verdade é um alienígena da raça Kree, é tão incrível quanto a fortemente protegida sentinela/nave espacial.

“E, de fato, mesmo os sentidos resistentes ao choque do Capitão Mar-Vell são paralisados pela incrível visão que eles contemplam”, escreveu Thomas, comparando Danvers ao veículo espacial. É um exemplo fossilizado da visão arcaica da indústria dos quadrinhos em relação às mulheres. Uma visão constantemente aplicada sobre Danvers.

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A primeira aparição da Viúva Negra nos quadrinhos.

Carol não era a única super-heroína marginalizada em sua primeira aparição, é claro. Jean Grey, uma das X-Men originais, foi apresentada cinco anos antes, em 1963, como a “Garota Maravilha”. Susan Storm, integrante do Quarteto Fantástico, foi apresentada em 1961 como a “Garota Invisível”. (Norte-americanos e sua insistência em chamar mulheres adultas de “garotas”…) E teve também a Viúva Negra, única vingadora mulher que já havia chegado às telonas, mas era apenas a “bela nova ameaça” em um vestido, em sua estreia em 1964.

Os quadrinhos tem sido um reflexo da sociedade norte-americana desde sempre. A forma como as mulheres foram incluídas em suas páginas reflete como as mulheres eram vistas naquele momento. Jean Grey e Susan Storm eram consideradas as integrantes mais fracas de seus grupos, sendo socorridas constantemente por seus namorados ou maridos (daí aquela piadinha da Jean toda hora gritando pelo Scott). A Viúva Negra, por sua vez, era uma “femme fatale” russa ao lado do Homem de Ferro.

Mulheres eram as donzelas em perigo ou iscas para distrair homens por sua tentação sexual.

O papel principal de Danvers, apesar de ser chefe de segurança da NASA e uma ex-oficial da Força Aérea Americana, era o de ser o interesse amoroso. Ela era uma personagem coadjuvante, um estereótipo, uma “garota” que tinha uma queda pelo Capitão Mar-Vell mas que era dura com seu alter ego, Dr. Walter Lawson – assim como Lois Lane agia com Superman/Clark Kent.

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Coisas extraordinárias estavam sendo feitas nas páginas dos quadrinhos da Marvel nos anos 1960. Homens construíam armaduras que podiam voar como aviões. Alguns mergulhavam nos mistérios do universo utilizando magia. Outro escalava prédios como uma aranha. Mas estas coisas não poderiam ser feitas por mulheres. Apesar de toda a imaginação e de um reino de possibilidades infinitas, os escritores de quadrinhos, quando o assunto era mulheres, ainda estavam presos pelas algemas da vida real e das atitudes sociais da época.

Carol Danvers foi utilizada como interesse romântico por muito tempo – de maneira similar a várias outras personagens da época. E apesar deste papel estagnado, isso acabou tendo sua importância, pois a colocou no caminho a ser traçado pelo resto de sua jornada através dos anos.

Uma propaganda pela liberação das mulheres

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Em 1970, a série solo do Capitão Mar-Vell foi cancelada, colocando Danvers em um breve hiato. Mas a indústria dos quadrinhos estava começando a mudar, mesmo sem ela. O efeito espelho da luta pelos direitos civis e dos movimentos de liberação das mulheres começou a marcar a mente de alguns escritores e artistas no final dos anos 1960. Os quadrinhos e histórias criadas neste período – e que duraram até os anos 1970 – eram mais inclusivos e empoderadores, mas muitas vezes se desviavam para um prescritivismo exagerado. Sean Howe, autor de Marvel Comics: the Untold Story (Quadrinhos da Marvel: A História não Contada, em tradução livre) explica:

O pouco vendido Capitão América se tornou ‘Capitão América e o Falcão’, e o novo protagonista afro-americano começou a namorar e discutir com uma estridente militante negra chamada Leila. Os Vingadores enfrentaram a questão da liberação das mulheres, o submarinheiro (Namor) lidou com questões ecológicas e o incrível Hulk, Thor e os Inumanos visitaram o gueto. Mas onde estava a diversão nisso?

Carol Danvers não passou em branco. Ela reemergiu como a Ms. Marvel em 1977, apresentando a habilidade de voar, força sobre-humana, e um “sétimo sentido”, além de um corte de cabelo curto e emplumado. Em seu primeiro quadrinho, o escritor Gerry Conway não se cansava de repetir como essa mulher era durona:

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Porém, a Ms. Marvel não estava exatamente quebrando os padrões. Seus poderes eram comuns no meio dos heróis e bastante similares aos do Superman. Ela não apresentava uma alternativa ao patriarcado, uma vez que incorporava seus ideais. 

E isso talvez tenha algo a ver com quem estava escrevendo as histórias. Conway não era sempre muito bom expressando o que pensava sobre personagens femininas. Em 2013, em um discurso em painel promovido pela Television Critics Association, ele afirmou que “os quadrinhos seguem a sociedade. Eles não lideram a sociedade”. Seu trabalho em Ms. Marvel e seu tratamento para com Carol Danvers refletia isso. Seu maior conceito nas primeiras edições de Ms. Marvel era que Danvers não fazia nenhuma ideia de que era Ms. Marvel. Danvers apenas sentia uma dor de cabeça e acordava sem lembrar de nenhuma das façanhas heroicas que havia conquistado.

Resumindo: Danvers era uma coadjuvante em seu próprio quadrinho.

Mas ainda que Conway tenha uma tendência de ser indelicado com Danvers, ele tocou em alguns aspectos sobre a vida dela, como o fato de que ela era uma mulher com foco em sua carreira. Ela frequentemente enfrentava seu chefe, Jonah Jameson, que queria encher sua revista para mulheres com besteiras sobre dietas que acreditava que todas as mulheres “queriam”.

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Na primeira edição de Ms. Marvel, Conway abordou os tópicos de igualdade salarial, mulheres no jornalismo, os assuntos cobertos por mulheres nessa área, sobre “ter tudo”, e sobre equilibrar uma vida amorosa com uma carreira. Questões que ainda são discutidas nos dias de hoje.

Apesar de Danvers ter transmitido fortes e positivas mensagens sobre como a sociedade norte-americana deveria tratar as mulheres, o espírito da personagem não estava lá. Por vezes, ela parecia apenas um recipiente para propaganda do que uma personagem única com a autonomia e personalidade que os super-heróis possuíam. E os momentos em que ela realmente fazia algo que definia a sua personagem eram raros.

Como os homens escrevem sobre mulheres e o estupro da Ms. Marvel

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Nos anos seguintes, graças ao incentivo do lendário escritor de quadrinhos, Chris Claremont, Danvers se tornou uma personagem importante e respeitável.

Com Claremont, a história de origem de Danvers foi revelada – ela estava em uma explosão que a concedeu habilidades Kree – e começou a aparecer em times como os Defensores e os Vingadores, e em parceria com heróis como o Homem-Aranha. Claremont conectou duas vidas anteriormente desconectadas. Danvers se sustentava por conta própria, era confiante. Ela possuía escrita e era realmente como uma pessoa.

Seus pares começaram a se tornar poderosos e respeitados também: Jean Grey se transformou de Garota Maravilha a Fênix, uma das entidades mais poderosas do universo da Marvel; Susan trilhou seu caminho como a Mulher Invisível, e se tornou de forma indiscutível a mais poderosa membro do Quarteto Fantástico; E a Viúva Negra finalmente recebeu seu traje e equipamentos dignos da personagem.

Mas essa revolução não durou muito.

Na edição de número 200 de Os Vingadores (1980), Danvers descobriu estar grávida de sete meses de um bebê, apesar de no dia anterior não estar grávida. Uma gravidez estranha e sem pai não é exatamente algo a se comemorar. Mas como James Shooter, editor-chefe e escritor principal da edição número 200, revelaria posteriormente, um vilão chamado Marcus Immortus havia sequestrado Danvers, e com o auxílio de máquinas, havia dado um “boa noite Cinderela” para ela e a engravidado com uma versão de si mesmo, antes de apagar a sua memória.

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Carol Strickland, uma historiadora de quadrinhos escreveu o brilhante artigo intitulado The Rape of Ms. Marvel (O Estupro da Miss Marvel) e demonstrou como a arte de George Pérez apenas ajudou a tratar o assunto de forma irresponsável, romantizada.

“O trabalho de arte vai bem fundo – com dois painéis em destaque – para demonstrar o êxtase da Ms. Marvel durante o ‘pseudo-acasalamento’”, escreveu Strickland. “Outra lição a ser aprendida nos quadrinhos. Não é errado estuprar uma mulher. Mulheres gostam de ser estupradas”, encerra de maneira irônica.

O conto do sequestro e estupro cósmico de Danvers fica ainda pior. Quando ela descobre os detalhes do plano de Marcus, Carol fica furiosa. E ainda mais frustrada pelo fato de os outros Vingadores – muitos deles inclusive afirmam estar felizes com o nascimento do bebê – não conseguirem entender o conceito de que em suas palavras, ela foi “usada”.

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Como apontado por Strickland, essa tomada de raiva é bem-feita. Essa é a forma responsável de se lidar com uma cena como essa nos quadrinhos. Como você indica que uma personagem foi abusada e violada contra a sua vontade. Porém, mais tarde no quadrinho, toda essa fúria é tomada dela. Ela sente carinho por Marcus e retorna com ele para sua dimensão.

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Essa mudança súbita no comportamento de Danvers sequer é tratada com estranheza pelos mais poderosos heróis da Terra, ainda que todos eles conheçam a história de sua lavagem cerebral e estupro. Sua mudança brusca de personalidade, mesmo após o reconhecimento de que parte se deve às máquinas de Marcus, não causa nenhuma resposta de seus amigos ou alguma tentativa de mudar sua vontade de seguir Marcus. Em vez disso, eles deixam a sua compatriota caminhar em direção ao pôr do sol e torcem para que as coisas deem certo.

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Esse provavelmente é o mais bizarro momento da história de Danvers, apesar de o roteiro não ter essa intenção. Os companheiros Vingadores de Danvers não foram escritos para serem insensíveis. Essa questão apenas não era debatida naquela época como é hoje. Strickland recebeu muitas críticas e foi atacada após escrever esse artigo em janeiro de 1980.

O tratamento recebido pelo estupro de Danvers é um sintoma de uma indústria dominada por homens. Não havia um sistema de controle ou contrapesos. Não havia outras vozes na Marvel. Era apenas uma questão de tempo até uma história dessas ser publicada, especialmente em uma edição histórica (a ducentésima edição de seu quadrinho mais popular). Claremont, responsável pelas histórias de Danvers e pelo seu florescimento, ficou horrorizado na época.

“Se esse era o ponto que David (Michelinie, um dos escritores daquela história) queria mostrar, que os outros Vingadores são um bando de insensíveis, tudo bem. Eu posso discordar do ponto, mas ele conseguiu fazer e teria até algum sentido”, escreveu Claremont em The X-Men Companion II. “Mas parece para mim, lendo a história, vendo a sequência, que o que ele queria dizer era: ‘É assim que você lida com uma gravidez’.”.

O Poder de Chris Claremont e a ascensão de Binária

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Até meados dos anos 80, as conversas sobre a personagem de Danvers eram muito mais sobre o que havia acontecido com ela do que sobre o que ela teria feito. Ela era muito mais uma personagem sobre a qual os outros agiam do que uma personagem de ação. Mas isso mudou com a segunda fase de Chris Claremont com a personagem.

Claremont, formado pela Bard Collefe, estudou teoria política e atuação na escola antes de seu primeiro estágio na Marvel. Seu interesse em ciência política se tornou mais evidente quando começou a escrever para a empresa em tempo integral.

O exemplo mais claro disso foi a cristalização promovida por ele sobre as motivações de Magneto, apresentando como a sua religião e seu passado como sobrevivente do holocausto haviam moldado a sua visão de mundo. Esses elementos se tornaram fundamentais para o personagem e sempre foram alvo de referências, inclusive nos filmes de X-Men.

Claremont gostava de escavar as entranhas de cada um de seus personagens, para fazê-los terem sentido.

Ele trabalhava em parceria com a editora Louise “Weezy” Simonson, criadora do vilão conhecido como Apocalipse. Ela era uma das poucas mulheres a trabalharem com quadrinhos na época e continua sendo amiga de Claremont até hoje. Dave Cockrum, criador de personagens como Tempestade e Noturno, de trajes heroicos, tradutor do espírito da ficção científica para os quadrinhos, era o artista de confiança de Claremont. Os três foram os responsáveis pelo lendário Uncanny X-Men. E a combinação deles deu a Danvers um novo recomeço.

Claremont, enojado pela forma como Ms. Marvel havia sido tratada, escreveu uma cena na décima edição anual de Vingadores em que Danvers detona os Vingadores por não estarem lá por ela, e por colaborarem em seu envio para outra dimensão ao lado de seu estuprador.

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Claremont continuou a jornada de Carol em Uncanny X-Men 164, onde ele expandiu seus poderes e deu a ela uma nova identidade, como a entidade cósmica, Binária.

Como Binária, Danvers podia atravessar o espaço na velocidade da luz e mergulhar na energia cósmica.

Além desses poderes, Claremont e sua equipe deram a Danvers um sonho e o poder de realizá-lo.

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Os X-Men queriam que Carol se unisse a eles. Mas ela tinha outros planos.

“Retornar com vocês significa rejeitar o desejo do meu coração, mas realizar esse desejo significa deixar a todos e tudo que amo. A Terra era o lar de Carol Danvers… Mas eu temo que não haja aqui lugar para Binária”, ela afirma aos X-Men, rejeitando sua oferta de parceria e elevando a forma como seu sonho de exploração é importante para ela.

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Danvers eventualmente retornou à Terra sob o disfarce de Warbird, uma carapaça de sua forma cósmica. A presença brilhante de Binária foi reduzida tanto figurativa quanto literalmente, já que seu uniforme inclusive foi trocado por trajes negros. Sofrendo de depressão e burnout por conta de seus poderes e pela incapacidade de seguir atrás de seu sonho, Danvers, sob a escrita de Kurt Busiek, lutou contra o alcoolismo, para no final ser suspensa da equipe.

Apesar deste ser outro ponto baixo para Danvers, a história foi tratada de maneira diferente. Nós pudemos ver ela saindo, explodindo, e isso realmente expressou a forma como ela sentia falta de seus poderes. Foi sombrio, mas a definiu.

Se tornando Capitã Marvel

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Em 2005, a Marvel apresentou seu “House of M/ Decimation crossover event”. Nessa série, a Feiticeira Escarlate distorce a realidade, criando um novo mundo baseado nas esperanças e desejos dos heróis mais poderosos do mundo. Nesta realidade alternativa, Danvers é a mais famosa heroína do mundo e opera sob o título de Capitã Marvel – o nome de seu primeiro interesse amoroso nos quadrinhos.

Essa é uma das maiores revelações acerca da sua enorme ambição.

Apesar de aquele mundo ser uma fantasia limitada, a Capitã Marvel ser tornou uma realidade para Danvers em 2012, sob a batuta da escritora Kelly Sue DeConnick.

No primeiro arco de Capitã Marvel, DeConnick esclarece um pouco sobre as histórias confusas da personagem e foca nos diferentes aspectos de Danvers em seu tempo na Força Aérea, em seus sonhos de explorar o espaço e no significado do título de Capitã Marvel para a heroína.

No capítulo final do arco, Capitã Marvel número 6, Carol está viajando através do tempo e recebe a opção de alterar a linha do tempo do universo Marvel, vivendo sua vida como uma civil, ou de sentar passivamente e assistir à explosão lhe dar os poderes que ela nunca desejou. É um movimento poético de DeConnick, e dá personalidade à Danvers, libertando-a daquela história no estilo Forrest Gump, em que as coisas meramente aconteciam com ela, como uma mera observadora. DeConnick finalmente deu a Carol uma escolha.

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A versão de Carol Danvers de DeConnick não é perfeita. Ela é controladora, teimosa e exibida. Assim como é altruísta, divertida e leal. Poderia ser tentador, levando em consideração a sua história, torná-la um anjo vingador. Mas DeConnick é paciente e faz com que Carol lutasse por cada vitória.

Assistir Danvers trocar seu collant por seu uniforme de capitã espacial, botando fogo nas páginas sombrias e estilizadas de Dexter Soy é uma viagem bastante divertida.

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No segundo volume de Capitã Marvel, DeConnick afirma exatamente o que Claremont já havia indicado. Claremont cristalizou os sonhos de exploração de Danvers. Mas DeConnick deu destaque a isso – e tornou claro a todos o porquê de Danvers deixar tudo para trás. Seja seu interesse romântico, as pessoas que ama e até mesmo seu gato. Carol Danvers segue seus sonhos novamente (mas dessa vez, por fim leva o gato).

Carol não vai para o espaço apenas porque quer salvar o mundo. É muito mais do que isso. É uma mistura de egoísmo, ambição, ego, desejo e altruísmo. Não há culpa nem de Carol e tampouco da autora na escolha desse caminho.

E a Capitã reuniu um pesado fandom, formado especialmente de mulheres, conhecidas como a Carol Corps. (As tropas de Carol, em tradução adaptada). Algumas destas fãs, vestidas com trajes espaciais costurados a mão, esperaram cerca de duas horas para assistir ao discurso de DeConnick, e durante a sua fala – composta em sua maioria por palavras de apoio e encorajamento, desejando que as fãs mantenham o queixo erguido – a sala inteira se manteve em silêncio.

“Eu sempre me surpreendo em como os livros podem mudar os paradigmas”, afirmou DeConnick em setembro de 2015. “Eu não penso nisso como tão diferente. Eu apenas… escrevo a pessoa”.

Sua aproximação a Danvers parece bastante simples. Mas leve em consideração por um momento a forma como Danvers foi apresentada a nós através dos anos: 

Nos anos 60, comparada com uma nave espacial; nos anos 70, insistiam em afirmar como ela era uma mulher e símbolo político; nos anos 80, se livraram dela, pelo próprio bem da personagem; e nos anos 90, vimos seu triste final. Esperamos por muito tempo até podermos ver essa mulher, essa heroína, como uma pessoa.

Nesta fase promovida por DeConnick, a Capitã Marvel tem sido marcada pelo slogan “Higher, Further, Faster, More.” (Mais alto, Mais Longe, Mais Rápido, Mais., em tradução livre). No início, isso era uma declaração da paixão de Carol pela vida, e por se levar além de seus próprios limites.

E o filme da heroína mostrou que o slogan não era apenas uma expectativa, mas uma realização.


Texto traduzido e adaptado da Vox.

Quem escreve? Liao

Débora é musicista, pesquisadora e otaku (não fedida, prometo). 1/3 gamer, 100% sonserina. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).