De tentativas de whitewashing a atitudes fofas que aconteceram no set de filmagem, conheça detalhes do filme e o que rolou nos bastidores.

Se você ainda não assistiu ou não sabe nada sobre o que se trata a nova comédia romântica adolescente produzida pela Overbrook Entertainment e distribuída pela Netflix, recomendo que leia a primeira parte desta resenha aqui e depois volte para saber um pouco mais.

Bom, “Para todos os garotos que já amei” (To All The Boys I’ve Loved Before – 2018) é uma comédia romântica adolescente super fofa e contemporânea adaptada do livro homônimo de autoria da escritora americana Jenny Han. O filme é leve e divertido, além de mostrar como os relacionamentos se desdobram na vida offline e online, por exemplo, com fotos e vídeos publicados no Instagram.

Instagram aberto com foto de Peter e Lara Jean e a legenda "Me and BAE"

Mas fora todo o enredo de cartas enviadas para os crushes que já cativa por si só, existem outras curiosidades por trás da câmera que valem a pena prestar atenção ou só conhecer mais, como elencamos aqui.

1) O mais marcante é que o filme traz representatividade asiática amarela

Com tantas experiências de whitewashing (embranquecimento) de personagens asiáticos em filmes e séries, como aconteceu com “Ghost in the Shell” (veja a crítica de Leo Hwan para o Yo Ban Boo), é muito bom ver que em uma história tão simples, como “Para todos os garotos que já amei”, a personagem principal é uma asiática-americana apenas porque ela pode ser uma asiática-americana.

Normalmente, quando personagens asiáticos amarelos costumam aparecer nas telas em papéis grandes, eles são interpretados por brancos sob argumentos questionáveis de que não há estrelas renomadas com ascendência asiática que sustentem a produção, movimento também visto no Brasil com a novela “Sol Nascente”, por exemplo.

Gif em que lara jean diz "I'm sorry, what?"

Também há os casos de quando são interpretados por atores asiáticos, esses personagens costumam ser estereotipados de alguma forma como o nerd, o cômico, o exótico ou o objeto de desejo usado em um papel secundário como muleta dos personagens principais.

Nesse contexto em que quase nunca vemos grandes aventuras acontecendo com personagens de certas etnias no ocidente para que algumas telespectadoras possam se identificar, é uma sensação gratificante poder ver uma personagem principal asiática-americana em um filme que está fazendo sucesso, como é o caso de Lara Jean Song Covey interpretada por Lana Condor em “Para todos os garotos que já amei”, o que coloca por terra argumentos que esse tipo de representação não atrai público.

Lana Jean segura riso no banco de passageiro do carro

Eu (que também tenho ascendência asiática, mas não sou asiática) me senti contemplada por ver uma simples história romântica adolescente ocidental, que qualquer um poderia viver, com um rosto asiático amarelo. E não adianta forçar o argumento que asiáticos amarelos no ocidente podem ter representatividade nos “doramas” estrangeiros porque não é a mesma coisa, já que somos ocidentais e não vivemos os mesmos costumes e cultura desses países.

Por isso que, para mim, a representatividade feminina asiática foi um dos pontos mais incríveis desse filme.

2) Hollywood tentou fazer whitewashing, mas a autora Jenny Han resistiu

Jenny Han é uma maravilhosa mesmo, não? Além de escrever uma história tão gostosinha de acompanhar, ela ainda negou diversos pedidos de adaptação da obra porque os produtores executivos assumiam que Lara Jean deveria ser branca (Por quê, né?).

A autora, que é americana e descendente de coreanos, viveu sentindo a falta de representatividade asiática amarela nas telas, em que os ídolos da adolescência eram brancos com quem ela simplesmente não se identificava para seguir modas e se sentir protagonista de si, por isso ela decidiu fazer a diferença.

Jenny Han na estreia do filme

No início de sua carreira como escritora, ela insistiu para que colocassem sua foto na contracapa do seu primeiro livro, assim, garotas asiáticas veriam seu rosto e poderiam se identificar com as histórias, conforme ela relata em uma coluna de opinião no jornal New York Times (em inglês).

Nessa linha de trazer mais representatividade, Jenny Han resistiu ao lançamento prematuro do filme e aos comentários de que não faria diferença a personagem ser branca ou amarela, já que o foco da história não é um debate sobre sua identidade (ora! Então também não seria um problema ela e outras personagens serem asiáticas, não é?), conforme trecho de seu texto na NWT:

“Mesmo antes do lançamento do livro em 2014, houve interesse em fazer um filme. Mas o interesse morreu assim que deixei claro que a protagonista deveria ser asiática-americana. Um produtor disse para mim que desde que a atriz capture o espírito do personagem, a idade e raça não importavam. Eu disse, ‘bem, o espírito dela é asiático-americano’. Esse foi o fim de tudo.

O que significaria para mim, naquela época, ver uma garota que se parecia comigo estrelando um filme? Não como uma coadjuvante ou interesse romântico, mas como protagonista? Não apenas uma vez, mas de novo e de novo? Tudo. Há poder em ver um rosto que parece com o seu e que faz alguma coisa, ser alguém. Há poder em mover as linhas secundárias para o centro.”

Jenny Han declarou em outras entrevistas essa preocupação em proteger sua personagem. Ela também colaborou na construção de Lara Jean junto com a atriz Lana Condor, que nasceu no Vietnã e foi criada por pais americanos em Chicago (confira na entrevista em vídeo de Think – em inglês).

Lara jean diz no campo de Lacrose "Let's do this"

No fim, Jenny resolveu trabalhar com a única produtora, a Overbrook Entertainment, que concordou que a personagem principal seria interpretada por uma atriz asiática americana, apesar de declarar que continuou com medo de que eles mudassem de ideia.

Em sua coluna no NWT, ela justificou sua resistência contra o whitewashing que queriam realizar da seguinte forma:

“Eu espero que as adolescentes vejam Lana Condor e sintam o que eu sinto sobre meus ídolos adolescentes. Constance Wu, Awkwafina, Gemma Chan de ‘Crazy Rich Asians’, Kelly Marie Tran de ‘Star Wars’ – espero que todas elas acabem nos [pôsteres ou] quadros de alguém.

Porque quando você vê alguém que se parece com você, isso revela o que é possível. Não é só porque eu poderia ser atriz. Talvez eu possa ser uma astronauta, uma lutadora, uma presidente. Uma escritora. É por isso que importa ser visível. Isso importa muito. E para as meninas de 2018, quero mais. Eu quero o mundo inteiro.

Bom, obrigada por manter seus ideais firmes, Jenny Han! <3

3) A química foi o diferencial na escolha dos papéis para os atores

Alguns atores não iam interpretar os personagens aos quais acabaram interpretando.

A mudança de papéis aconteceu devido a química e interação entre os atores. Por exemplo, era para o ator Noah Centineo interpretar o vizinho Josh Sanderson e não o protagonista Peter Kavinsky.

Peter bebendo um milkshake

A diretora Susan Johnson declarou para o Indie Wire que pensou em deixar Noah como o “garoto da casa ao lado” porque ele parecia ser o vizinho. Mas após ver a química entre Noah e Lana, ela concluiu que ele se sairia melhor como Peter, tanto que muitos detalhes e improvisos de cena aconteceram por conta dessa química entre os dois e carisma de Noah no papel principal. Essa química foi reforçada fora dos sets com as aulas de Yoga que o casal fez junto, conforme afirma Lana Condor para o Decider.

A interação positiva fora de cena também aconteceu entre as atrizes que fazem o trio de irmãs Song Covey. Lana explicou que a intimidade passada nas telas foi construída fora delas com as saídas em grupo e conexão que firmaram. Pela conexão, faz sentido a escolha das atrizes para esses papéis, mas confesso que eu não comprei a ideia de que Margot, a irmã mais velha da protagonista Lara Jean, teria 18 anos, já que a atriz Janel Parrish não aparenta ter essa idade (na vida real ela tem 29).

As três irmãs Covey na mesa comendo

4) Há uma “cena” que não existe

Em um certo momento do filme aparece um frame do celular de Lara Jean com a foto dela e Peter dormindo abraçados em um sofá.

Após ver essa cena, fica uma sensação de que perdemos o momento da foto ou que ela foi cortada do filme, mas na verdade não vimos a cena porque ela nunca existiu.

Em entrevista a ET, a diretora disse que o casal estava realmente dormindo na área que os atores ficavam. Nisso, um membro da equipe tirou a foto porque a cena era fofa demais. Depois, eles apenas usaram a foto emprestada para o fundo de tela de Lara Jean.

5) A autora dos livros aparece no filme

Sim! Jenny Han aparece rapidamente no baile em que Lara Jean e Lucas dançam juntos. Repare na expressão de orgulho dela ao ver o casal junto.

Jenny Han aparece no filme para todos os garotos que ja amei

6) O filme sugere que pode haver uma sequência

Se você não assistiu ao filme, esse é o momento para você sair deste texto e voltar mais tarde.

A menos que você não se importe em saber qual é cena pós-créditos de “Para todos os garotos que já amei”.

Bom, o longa tem um final que satisfaz a história desenvolvida, ou seja, caso não haja uma renovação da trilogia para acompanhar os livros, não fará falta para ver o filme como único. No entanto, tem uma cena pós-créditos que abre margem para que o restante do romance escrito na trilogia de Jenny Han saia dos papéis e vá para as telas.

Isso porque a última cena é com um dos crushes de Lara Jean, John Ambrose da ONU mirim, que aparece na casa dos Covey com flores e a carta recebida em mãos, parte do segundo livro da trilogia.

Jonh com carta e flores na mão

Aproveitando essa deixa, outra curiosidade é que o ator Jordan Bruchett que interpretou John, poderia ter interpretado Peter Kavinsky.

Caso o filme tenha realmente uma sequência renovada, podemos ver melhor como se desenvolverá esse personagem com Lara Jean e quais memórias estavam por trás de suas cartas para ele.

(Estou torcendo para uma sequência).

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