Algumas coisas não são feitas pra serem vistas novamente.

O anime clássico Sailor Moon é conhecido por ser uma série progressiva e inovadora. Ele surgiu da necessidade de mais histórias de super-heroínas, da necessidade de mais histórias centradas em personagens femininas. Sem dúvidas, Sailor Moon subverte idéias estabelecidas há muito tempo por outros animes e mangás. Esse conto popular do bem contra o mal se tornou um modelo para todas as séries subsequentes do gênero “garota mágica”.

No entanto, o anime original de Sailor Moon foi lançado no Japão em 1992. Muita coisa mudou desde então em relação à tecnologia, comportamento e principalmente cultura. Então, tendo isso em mente, vamos examinar dez aspectos do anime que não envelheceram muito bem.

10 – ANIMAÇÃO DATADA

Quando se fala de arte em animação, o normal é que o estilo de um anime mude e evolua com o tempo. Ou, infelizmente pra alguns casos, piore… Já falamos aqui no site, inclusive, sobre como a arte de anime mudou com o tempo e isso serve bastante pra demonstrar como o estilo de traço artístico vai evoluindo. E no caso de Sailor Moon, a arte mudou de episódio para episódio. A designer de personagens original da série, Kazuko Tadano, fez um excelente trabalho ao otimizar o estilo do mangá, mas nem todos os diretores de episódios da animação mantiveram os padrões que ela adotou. Considerando o ritmo em que a série foi produzida, não é de se admirar que tantos episódios pareçam apressados ou até desleixados. As mudanças nos tons da paleta de cores também contribuem para a arte parecer antiga. Por exemplo, chegou em um ponto em que o estilo de “angelical” (cherub style) com olhos enormes e queixos pontudos de Masahiro Ando não se encaixava mais no anime.

9 – FILLERS DEMAIS

Olhando por cima, só mais recentemente houve uma resposta repulsiva dos fãs que direcionou os estúdios de animação a colocar menos fillers nos animes. As histórias se tornaram mais condensadas e focadas. O anime original de Sailor Moon poderia facilmente ter cortado boa parte dos episódios que enchiam linguiça, com vilões meia boca e resoluções fracas. E o problema com os episódios filler não é necessariamente que eles existam; é que eles nem sempre foram exatamente divertidos (Dragon Ball Z, One Piece e companhia com seus infindáveis episódios de batalha cheios de cenas repetidas e gritos intermináveis que o diga). Na quarta temporada, os episódios se tornaram muito cotidianos e banais (o estilo mais comum pra anime do gênero slice of life) –  o que seria ótimo, se apenas eles tivessem usado essas histórias para desenvolver os personagens principais de uma forma que os episódios mais voltados para a trama não tinham como. A fórmula da “vítima do dia” fica cansativa, e a reutilização de personagens antigos, em contraste com novos eventos, poderia ter sido uma melhoria bem legal nesse sentido.

8 – A PERSONALIDADE DE SAILOR MARTE

Os fãs costumam ser bem divididos sobre a representação controversa de Rei no anime original. Ela era muito volátil e era hostil com Usagi (apesar de que muitas vezes era compreensível). Principalmente porque no mangá, Rei é uma personagem bem calma – o total oposto em termos de caracterização. Ao longo dos anos, algumas pessoas realmente desgostaram da Rei do anime por causa de como ela trata Usagi. Existe o argumento de que ela é protetora e é assim que ela mostra afeto, mas também dá pra interpretar esse raciocínio como uma justificativa para sua personalidade quase abusiva. É triste que os escritores não tenham trabalhado melhor a amizade entre elas.

7 – FANSERVICE TO-DA HO-RA

A equipe do anime era composta principalmente por homens. E com o anime sendo produzido nos anos noventa, ele atendeu ao “olhar masculino” sem escrutínios – mesmo sendo um anime produzido especificamente com o público feminino como alvo. Isso significa que os animadores inseriam poses desnecessariamente sensuais de minissaias e calcinhas aparecendo sempre que possível, e as vilãs usavam trajes escassos e provocativos demais, principalmente para um desenho infantil. Por exemplo, presume-se que o Quarteto de Amazonas tenha a mesma idade de Chibiusa, mas os trajes delas são adultos. Pra falar de forma justa, a maioria dos grupos de vilãs recorrentes foram de fato projetados por Naoko Takeuchi. A diferença é, no entanto, que a autora não estava propositalmente sexualizando suas personagens da maneira que os diretores homens fizeram na primeira temporada do anime.

6 – A RELAÇÃO IRRITANTE DE USAGI COM CHIBIUSA

Relacionamentos conflitantes de todos os tipos é tema frequente em Sailor Moon. É algo até comum para o gênero. E embora tenham surgido boas discussões sobre as nuances da complicada amizade de Rei e Usagi, a discussão sobre a (tortuosa de se ver) amizade entre Usagi e Chibiusa é bem limitada. Desde o momento em que a filha de cabelos rosados do futuro rei e rainha da Terra chega na história, é uma briga interminável. E definitivamente não é lá muito divertido de assistir. Principalmente porque continuou até eles tirarem Chibiusa do anime. No entanto, não é que Chibiusa seja um personagem ruim. É só que todas as histórias dela giram em torno de Usagi – o que, por sua vez, equivale a muitas disputas desnecessárias.

5 – SAILOR MOON QUASE MATOU INOCENTES

Um grande exemplo da irresponsabilidade da Usagi como Sailor Moon é o episódio 42 da primeira temporada do anime, quando Minako é visitada por sua amiga Katerina. Elas se conheceram em Londres, quando Minako lutava contra o crime como Sailor V, ajudando a polícia local. Mas quando Kunzite transformou Katerina em um monstro, e ele a usa para atrair a Sailor V, um problema acontece. Depois de saber que Katerina “roubou” o interesse amoroso de Minako em Londres, Sailor Moon tenta matá-la. Literalmente. Sailor Venus é quem tem que pedir pra que Sailor Moon pare. É uma mancha bem visível na reputação de Sailor Moon como heroína. Por outro lado, é um momento de aprendizado sobre como até as menores ações são importantes à longo prazo.

4 – A DIFERENÇA DE IDADE ENTRE USAGI E O MAMORU

No mangá, Mamoru está no ensino médio, enquanto Usagi está no ensino fundamental. No entanto, o anime dos anos 1990 envelheceu Mamoru, então ele estava na faculdade quando eles se conheceram. E pra piorar, Usagi ainda tinha apenas catorze anos. Nos velhos tempos de reinos e realeza, diferenças consideráveis de idade não eram incomuns. Usagi e Mamoru descendem, respectivamente, do Reino da Lua e do Reino da Terra. Portanto, em um contexto histórico, a questão da idade faz mais sentido. Por outro lado, isso não explica a idade de Mamoru. Não havia necessidade de ele ser pelo menos quatro anos mais velho que Usagi ou de um romance com uma menor de idade.

Isso sem contar no romance absurdo que arranjam entre o vilão Nephrite e a melhor amiga da Usagi, Naru. Tudo naqueles episódios gritava relacionamento abusivo com a diferença de idade gritante. E ver as Sailors simpatizarem pela obsessão doentia que Naru arranjou pelo youkai, que aliás não teve um pingo de desenvolvimento de personalidade decente, foi algo meio revoltante de assistir.

3 – OS EPISÓDIOS COM FOBIAS GRITANTES, COMO HOMOFOBIA E GORDOFOBIA

Na ocasião, o anime mostrou sua idade ao abordar assuntos queer. Depois de ouvir que Makoto está em um “encontro” com Haruka (episódio 96), vemos outras pessoas dizendo pra Makoto para não “desistir” dos homens… E isso é puro e simples preconceito. Aliás, o relacionamento da Haruka com a Michiru é até alvo de piadas, às vezes. Por mais importante que seja a inclusão delas no anime como uma forma de representar casais LGBT, a vida pessoal de Haruka e Michiru se torna alvo de humor homofóbico. Outros erros incluem a Usagi dizendo pra uma colega de classe que seria “melhor” dar sua carta de amor a um garoto do que a uma garota (episódio 178), e a Usagi fazendo comentários decepcionantes sobre Kunzite e Zoisite em um resumo especial da 1ª temporada.

Aqui no site já comentamos sobre como animes ajudam na inclusividade dos temas LGBT, com muito a ensinar para o público ocidental. Mas os mesmos erros comuns acontecem em quase todas as séries antigas que abordam o tema. É legal quando a série inclui personagens mais diversos, mas é melhor ainda que eles não sejam feitos de piada ou usados como alívio cômico da história.

E isso sem comentar em como Sailor Moon tem alguns casos bem tensos de gordofobia, especialmente no episódio 4 da primeira temporada. Um desserviço, infelizmente.

2- O COMPORTAMENTO BABACA DE MAMORU

Quando se trata de Usagi e de Mamoru – as encarnações atuais dos amantes Princesa Serenity e Prince Endymion – o romance foi severamente mal tratado nos estágios iniciais do anime. É verdade que os dois também não se gostavam no mangá, mas não eram grosseiros e rudes um com o outro. No anime, antes que as memórias do passado sejam desbloqueadas, Mamoru sempre aparece quando Usagi sai em público. Seu comportamento a seguir é sempre nada menos que assédio, no mínimo sendo um cara malvado de graça ou por coisas que Usagi não faz de propósito (como deixar seu sapato voar e cair na cabeça dele). Lembra um pouco aquela ideia ultrapassada de que “se um garoto é malvado com você é porque ele te ama” ou coisas estúpidas do gênero. E me faz imaginar que tipo de pessoa ele teria se tornado ou que tipo de mensagem isso estaria passando se ele não fosse o Tuxedo Mask.

1 – USAGI SER UMA CHORONA IRRITANTE

Já vi muitos shoujos e protagonistas de shoujo costumam cair num padrão de feminilidade bem estereotipado e bobinho. Mas de longe, nenhuma protagonista foi pior que Usagi. E uma das coisas mais irritantes do anime que foi feita com intuito de causar risos (e náuseas de efeito colateral) é o choro esporádico de Sailor Moon, toda vez que ela se encontra diante do perigo. Não importa quantas tentativas ela supere, o crescimento e desenvolvimento de personalidade de Sailor Moon é ignorado em favor dessa mordaça cômica. E essa fórmula é usada à exaustão: Sailor Moon confronta um inimigo de frente, depois chora até que outra pessoa intervenha por ela – e isso dura até a temporada final, mesmo depois que ela adquire suas habilidades mais poderosas. É claro que chorar não torna Sailor Moon fraca ou menor; ela é apenas vítima de uma escrita estagnada e ruim. O anime, que tinha um potencial gigantesco, muitas vezes se impedia  de crescer em direção a caminhos mais complexos por usar dispositivos e tropos que não eram mais necessários ou aplicáveis.

***
 É claro que a gente sabe que o anime é antigo, mas nem por isso ele está livre de críticas, não é mesmo? Sailor Moon estava à frente de seu tempo em inúmeros pontos, mas teve vários problemas que podem ser contextualizados agora, inclusive colocando a responsabilidade nos responsáveis que tornaram a obra da autora em algo que ela não era.

Texto traduzido e adaptado da Screenrant.

Compartilhe: